MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Um jornalista do site Daily Caller fez recentemente uma entrevista com Aurel Hizmo, economista-chefe do FED, o banco central norte-americano. Nesta entrevista, Hizmo declara que ele e o chefão do FED, Jerome Powell, são inimigos declarados do ex-presidente e agora candidato Donald Trump.

Hizmo diz que Powell “odeia” o ex-presidente e “quer ser lembrado na história como alguém que evitou o avanço de Trump”. Na sua visão, “o problema com Trump é que os apoiadores de Trump não estão votando nele por razões lógicas”. Além disso, “Trump é apenas uma pessoa louca. É um cara burro”.

Em relação à próxima eleição presidencial: “O sentimento é o seguinte: não queremos que Trump esteja no governo. Mas se ele estiver, ainda vamos tentar fazer o melhor que pudermos pelo país.” Hizmo também afirmou que Powell, um republicano de longa data, buscou melhorar sua imagem aproximando-se da esquerda progressista ao expandir unilateralmente a missão do Fed: “Sob Powell, o FED mudou para pensar sobre questões de equidade, questões raciais, pensar sobre desigualdade de riqueza.”

Powell e Hizmo podem fazer tudo isso porque o FED onde trabalham têm completa independência (aliás, muito maior que a do Banco Central do Brasil). Então surge a pergunta inevitável: a tal independência existe para permitir que os chefes do FED (que não foram eleitos) possam afetar a economia do país inteiro de acordo com suas convicções pessoais? Ou para dar a eles o poder de influenciar nas eleições a partir de sua avaliação particular de quem eles “querem” ou “não querem” que ganhe as eleições? Ou de agir além de suas funções legais e “mudar o FED” para “pensar” em coisas que não são sua atribuição?

A verdade dura é simplesmente a seguinte: Bancos centrais não precisam e não deveriam existir. Sua função é apenas burocratizar e esconder algo que os governos fazem mas não deveriam fazer: inflacionar a moeda. Todo o resto é apenas cortina de fumaça. A FUNÇÃO DOS BANCOS CENTRAIS É FABRICAR DINHEIRO, e ao fabricar dinheiro eles roubam da sociedade duas vezes: a primeira quando fazem o dinheiro que as pessoas ganharam com seu trabalho desvalorizar. A segunda, quando os impostos que o governo recebe sobem por conta da inflação, mas os pagamentos que o governo faz não sobem na mesma proporção e muito menos na mesma velocidade.

Nosso sistema educacional faz pior do que não educar os cidadãos sobre economia: ele deseduca, pregando um monte de mentiras e fantasias que leva a sociedade a viver em um mundo de conto de fadas. A imprensa, que é formada por esse mesmo sistema educacional, segue o mesmo padrão. Vejamos um exemplo de um jornalista sério e bem-intencionado, mas que em matéria de economia tem 0% de conhecimento e 100% de crença no governo:

“O Banco Central é o guardião da moeda e do crédito. Se não tem inflação, isso é graças ao Banco Central, que a mantém sob controle. Graças à política do Banco Central.”

Quem disse isso foi Alexandre Garcia, cuja coluna faz parte aqui do JBF. Ora, se o BC é o “guardião da moeda”, então não deveríamos ter inflação, certo? Mas o Alexandre diz “Se não tem inflação…” sabendo que tem inflação sim, e sempre acima da meta, que por si só já não deveria ser acima de zero.

A imprensa é tão cega à realidade econômica que rotineiramente mostra fatos absurdos como se fossem a coisa mais natural do mundo. Esta notícia apareceu em um site especializado em economia:

“O diretor de Política Monetária do Banco Central, Gabriel Galípolo, disse nesta quarta-feira (24) que o BC quer tempo para entender o efeito da curva de juros dos EUA sobre o mandato de controle da inflação doméstica.”

Considerando que a tarefa básica do BC é defender a moeda e controlar a inflação, seria de se esperar que eles soubessem algo sobre o assunto, e não que pedissem “tempo para entender o que está acontecendo”. O que está acontecendo aliás, não é nada de novo e não leva mais de alguns segundos para entender: se os juros nos EUA sobem, os investidores tiram o dinheiro daqui e levam para lá. O efeito aqui é o dólar subir, os preços de muitas coisas subirem junto, e a demanda pelos títulos do governo cair, o que pressiona os juros para cima. E o nosso banco central não pode fazer nada a respeito. O que ele poderia ter feito, se quisesse exercer seu papel de “guardião da moeda”, era não ter fabricado dinheiro e portanto não ter enfraquecido o poder de compra da nossa moeda, o Real. Mas nosso BC nunca fez isso desde que foi criado pela ditadura em 1964.

Quem quiser um exemplo mais bizarro do nível dos economistas governamentais, veja esta entrevista com o presidente do Conselho de Assessores Econômicos do presidente Biden, e observe o quanto ele parece entender do assunto: (clique aqui para acessar)

Resumindo a história: durante muito tempo, não havia bancos centrais, a moeda era o ouro, e não havia inflação. Hoje a moeda é um papel pintado feito pelo governo e desvalorizado por esse mesmo governo. Consentir com essa situação é ser conivente com uma forma de roubo mais cruel e mais perversa que um assalto à mão armada.

5 pensou em “INDEPENDÊNCIA DO BANCO CENTRAL, PARA QUÊ?

  1. Caro Mestre Bertolici,

    Enquanto lia vossa coluna, fui inconscientemente elaborando um comentário para contrapor suas ideias, como faço quando leio meus processos.

    Contudo, a medida que fui avançando no texto, minhas argumentações mentais forma caindo uma a uma. Só me restou concordar inteiramente com sua aula magna sobre política monetária, e lamentar ser roubado duas vezes pelo governo.

    • Fico imensamente feliz com suas palavras, Pablo. Acho que minha obrigação como pitaqueiro é exatamente essa: apresentar uma opinião coerente e fundamentada por fatos. Se estou certo ou errado, cabe aos leitores decidir.

  2. Marcelo continua falando bobagem quando trata de política monetária. Banco central não fábrica dinheiro. Quem faz isso é a casa da moeda e atualmente só emite moeda por questões comemorativas. Um paus sem política monetária não dura um ano. Política fiscal apenas não sustenta economia e tem o princípio da anterioridade, ou seja, os seus efeitos são válidos a partir do exercício seguinte.
    As operações de open market controlam a oferta de moeda e ajustam a taxa de juros no mercado financeiro, cujos efeitos são vistos no mercado de bens e serviços. Há um modelo chamado IS-LM que explicam essas relações. Alexandre Garcia está certo, você e Pablo estão errados.
    Imagina a zona que seria o comércio internacional sem a arbitragem do banco central. E a autonomia é importante para que o poder executivo não faz política partidária com a taxa de juros como foi feito no governo Dilma. É só lembrar a propaganda de João Santana que dizia que os juros iam tirar alimentos da mesa do trabalhador.
    Marcelo quando começou aqui escrevia uns textos lógicos, bons para um debate. Depois , essa não é a primeira vez, insisti nessa tolice de que o banco central cria moeda. Digo de novo: quando o banco central vende título, ele retira moeda do mercado e reduz a oferta de moeda, aumentando a taxa de juros e contribuindo para redução da inflação. Quando ele compra título aumenta a oferta de moeda, reduz a taxa de juros e taxa de juros baixa induz aumento do consumo, portanto, gera inflação. A explicação é simples, as contas, nem sempre.
    Cara, faz o seguinte: comprar um livro chamado Macroeconomia: Teoria e Aplicações, de Olivier Blanchard. Apesar da matemática, ele é bem didático e aí se tu não tiveres satisfeito pega: Dornbush, Mankiew, Mario Henrique Simonsen, todos eles dizem isso que eu estou dizendo e só tu, diz o contrário. Então, fax uma tese e prova que a teoria macroeconômica está errada. O mundo todo funciona com essa teoria. Só o teu mundo funciona essa tua. Faça, isso. Leia, estude, pesquise, duvide sem não tiver argumentos pra refutar, para de falar bobagem e volte a escrever coisas sensatas.

    • Maurício, quem destruiu Hiroshima foi o governo dos EUA, foi a Boeing, que fabricou o avião, ou foi a Universidade da Califórnia, que fabricou a bomba?

      Quem emite moeda no Brasil é o Banco Central. A fabricação física das cédulas e moedas é feita pela Casa da Moeda, sob as ordens do BC. Eu gosto de usar o termo “fabricar” ao invés de “emitir” para deixar bem claro que isso é feito do nada, sem lastro, em função apenas do desejo do governo por mais dinheiro para gastar. Mas é apenas figura de linguagem.

      Quando você argumenta que “quem faz isso é a casa da moeda”, dá a impressão que ela é autônoma e fabrica dinheiro segundo sua própria vontade. Mas aí em seguida vc diz que “ela só emite moeda por questões comemorativas”. Mas então se o Banco Central não emite e a casa da moeda também não, como é que nossa base monetária dobrou em menos de uma década?

      Com jogos de palavras como esse o debate se torna infrutífero.

    • “Um país sem politica monetária não dura um ano”

      Talvez vc possa me falar sobre El Salvador, Equador e Panamá, que usam o dólar e não têm moeda própria. Como eles fazem “política monetária”?

      Os países da União Européia também não têm moeda própria e não fazem política monetária. Estão durando mais de um ano.

      “Imagina a zona que seria o comércio internacional sem a arbitragem do banco central. ”

      Seria, talvez, como foi durante cinco mil anos da história da humanidade, onde os governos não fabricavam moeda e não havia inflação (salvo quando governantes corruptos falsificavam as moedas de ouro, coisa que esporadicamente ocorria).

      Para ser mais explícito: o Brasil de D.Pedro II, que segundo alguns era um país poderoso e desenvolvido, tinha a sua moeda (o mil-réis) atrelada ao ouro, assim como a Libra, o Dólar, o Franco e todas as demais. E não havia Banco Central “arbitrando” no Brasil, nem nos EUA, nem na França, nem na Inglaterra. O comércio no século 19 era “uma zona”?

      “Depois , essa não é a primeira vez, insisti nessa tolice de que o banco central cria moeda”

      É que o art. 164 da constituição diz “A competência da União para emitir moeda será exercida exclusivamente pelo banco central.”

      (de novo, não vamos apelar para semântica falando em “emitir”, “criar” ou “fabricar”, por favor)

      ” todos eles dizem isso que eu estou dizendo e só tu, diz o contrário”

      Me envaidece vc achar que eu sou capaz de criar toda uma teoria econômica, mas não; eu apenas estudei e entendi gente como La Boétie, Proudhon, Hayek, Mises, Rothbard, Bohm-Bawerk, Menger, Bastiat, Say, Huerta de Soto. Não me interesso por econometria. Quero entender a floresta, não fazer gráficos sobre o diâmetro dos troncos e a quantidade de galhos.

      Vou então repetir um desafio que não é de minha autoria: mostre um país que viveu inflação elevada sem ter sofrido, antes, um aumento significativo em sua base monetária (ou seja, emissão de dinheiro). Ou mostre um país que emitiu dinheiro em grandes quantidades e não sofreu inflação. Faça isso, e podemos decretar que a lei da oferta e procura é obsoleta e pode ser substituída por “política monetária”.

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