ADONIS OLIVEIRA - LÍNGUA FERINA

Adaptado de VIGIAR E PUNIR, de Michel Foucault

No ano da Graça de 2021, o famigerado Gilmar foi finalmente sentenciado. Foi o primeiro dos onze e iniciou uma longa série! Condenado, primeiro, a pedir perdão publicamente diante da porta principal do tribunal onde perpetrou a maioria dos seus crimes, e aonde devia ser levado e acompanhado numa carroça, nu, de camisola, carregando uma tocha de cera acesa de duas libras. Em seguida, na dita carroça, na praça principal, e sobre um patíbulo que aí foi erguido, atenazado nos mamilos, braços, coxas e barrigas das pernas, sua mão direita segurando a caneta com que cometeu os inúmeros estrupícios contra a população, queimado com fogo de enxofre, e às partes em que foi atenazado, foi aplicado chumbo derretido, óleo fervente, piche em fogo, cera e enxofre derretidos conjuntamente, e a seguir seu corpo foi puxado e desmembrado por quatro cavalos e seus membros e corpo consumidos ao fogo, reduzidos a cinzas, e suas cinzas lançadas ao vento.

Finalmente foi esquartejado [relata o Diário do Poder]. Essa última operação foi muito longa, porque os cavalos utilizados não estavam afeitos à tração; de modo que, em vez de quatro, foi preciso colocar seis; e como isso não bastasse, foi necessário, para desmembrar as coxas do infeliz, cortar-lhe os nervos e retalhar-lhe as juntas… Afirma-se que, embora ele sempre tivesse sido um grande praguejador, nenhuma blasfêmia lhe escapou dos lábios; apenas as dores excessivas faziam-no dar gritos horríveis, e muitas vezes repetia: “Meu Deus, tende piedade de mim; Jesus, socorrei-me”. Os espectadores ficaram todos edificados com a solicitude de um padre de Brasília que, a despeito de sua idade avançada, não perdia nenhum momento para consolar o paciente.

O comissário de polícia relata: Acendeu-se o enxofre, mas o fogo era tão fraco que a pele das costas da mão mal e mal sofreu. Depois, um executor, de mangas arregaçadas acima dos cotovelos, tomou umas tenazes de aço preparadas ad hoc, medindo cerca de um pé e meio de comprimento, atenazou-lhe primeiro a barriga da perna direita, depois a coxa, daí passando às duas partes da barriga do braço direito; em seguida os mamilos. Este executor, ainda que forte e robusto, teve grande dificuldade em arrancar os pedaços de carne que tirava com suas tenazes duas ou três vezes do mesmo lado, ao torcer, e o que ele arrancava formava em cada parte uma chaga do tamanho de um escudo de seis libras. Depois desses suplícios, Gilmar, que gritava muito sem, contudo, blasfemar, levantava a cabeça e se olhava. O mesmo carrasco tirou com uma colher de ferro do caldeirão daquela droga fervente e derramou-a fartamente sobre cada ferida. Em seguida, com cordas menores se ataram as cordas destinadas a atrelar os cavalos, sendo estes atrelados a seguir a cada membro ao longo das coxas, das pernas e dos braços.

O senhor escrivão, aproximou-se diversas vezes do paciente para lhe perguntar se tinha algo a dizer. Disse que não! Nem é preciso dizer que ele gritava, com cada tortura, da forma como costumamos ver representados os condenados: “Perdão, meu Deus! Perdão, Senhor”. Apesar de todos esses sofrimentos referidos acima, ele levantava de vez em quando a cabeça e se olhava com destemor. As cordas tão apertadas pelos homens que puxavam as extremidades faziam-no sofrer dores inexprimíveis. O senhor escrivão aproximou-se outra vez dele e perguntou-lhe se não queria dizer nada; disse que não. Achegaram-se vários confessores e lhe falaram demoradamente; beijava conformado o crucifixo que lhe apresentavam; estendia os lábios e dizia sempre: “Perdão, Senhor”. Os cavalos deram uma arrancada, puxando cada qual um membro em linha reta, cada cavalo segurado por um carrasco.

Um quarto de hora mais tarde, a mesma cerimônia, e enfim, após várias tentativas, foi necessário fazer os cavalos puxar da seguinte forma: os do braço direito à cabeça, os das coxas voltando para o lado dos braços, fazendo-lhe romper os braços nas juntas. Esses arrancos foram repetidos várias vezes, sem resultado. Ele levantava a cabeça e se olhava. Foi necessário colocar dois cavalos, diante dos já atrelados às coxas, totalizando seis cavalos. Mas sem resultado algum. Enfim o carrasco foi dizer ao senhor escrivão que não havia meio nem esperança de se conseguir e lhe disse que perguntasse às autoridades se desejavam que ele fosse cortado em pedaços. O senhor escrivão, de volta da cidade, deu ordem que se fizessem novos esforços, o que foi feito; mas os cavalos empacaram e um dos atrelados às coxas caiu na laje.

Tendo voltado os confessores, falaram-lhe outra vez. Dizia-lhes ele (ouvi-o falar). “Beijem-me. Reverendos”. O senhor padre de Brasília não teve coragem, mas o de Taguatinga passou por baixo da corda do braço esquerdo e beijou-o na testa. Os carrascos se reuniram, e Gilmar dizia-lhes que não blasfemassem, que cumprissem seu oficio, pois não lhes queria mal por isso; rogava-lhes que orassem a Deus por ele e recomendava ao padre de Brasília que rezasse por ele na primeira missa. Depois de duas ou três tentativas, o carrasco principal, juntamente com o que lhe havia atenazado, tiraram cada qual do bolso uma faca e lhe cortaram as coxas na junção com o tronco do corpo.

Os quatro cavalos, colocando toda força, levaram-lhe as duas coxas de arrasto. Isto é: a do lado direito por primeiro, e depois a outra. a seguir fizeram o mesmo com os braços, com as espáduas e axilas e as quatro partes. Foi preciso cortar as carnes até quase aos ossos; os cavalos, puxando com toda força, arrebataram-lhe o braço direito primeiro e depois o outro. Uma vez retiradas essas quatro partes, desceram os confessores para lhe falar, mas o carrasco informou-lhes que ele estava morto, embora, na verdade, eu visse que o homem se agitava, mexendo o maxilar inferior como se falasse. Um dos carrascos chegou mesmo a dizer pouco depois que, assim que eles levantaram o tronco para o lançar na fogueira, ele ainda estava vivo. Os quatro membros, uma vez soltos das cordas dos cavalos, foram lançados numa fogueira preparada no local sito em linha reta do patíbulo, depois o tronco e o resto foram cobertos de achas e gravetos de lenha, e se pôs fogo à palha ajuntada a essa lenha.

Em cumprimento da sentença, tudo foi reduzido a cinzas. O último pedaço encontrado nas brasas só acabou de se consumir às dez e meia da noite. Os pedaços de carne e o tronco permaneceram cerca de quatro horas ardendo. Os oficiais, entre os quais me encontrava eu e meu filho, com alguns arqueiros formados em destacamento, permanecemos no local até mais ou menos onze horas.

Com esta execução, iniciou-se um longo período de terror, onde milhares de canalhas foram assim supliciados.

Foi aí que eu acordei!

11 pensou em “I HAVE A DREAM!

  1. Desde quinta-feira à noite, após o encerramento do bate papo no Cabaré do Berto, onde ficaram os mais fofoqueiros, inclusive eu, que o Adônis Oliveira mencionou sua nova obra-prima contra o canalha do Gilmar Mendes e os outros quatro pilantras que tramaram contra o artigo 57,§4º, da Constituição Federal, a ser publicada aqui na Gazeta Escrota.

    – Dessa vez ou me prende ou degreda ou eu vou aprontar mais – disse mais ou menos assim, o Mestre!

    E eu fiquei com aquilo na cabeça! Até sonhar sonhei lendo a pérula.

    Hoje me deparo com algo que vai além da minha expectativa.

    O esquartejamento de Boca-de-Buceta em plena Praça dos Três Poderes, o Puteiro de Brasília.

  2. Adonis, na continuidade do sonho, não teria lugar ainda para os dez cumpanheiros restantes do Gilmar + o apedeuta de Garanhuns com todos os integrantes da OCRIM denominada PT + nhonho Botafogo e Batoré + pelo menos 98% das duas casas de horrores que dizem ser o poder legislativo + + + + + +

  3. Eu também estava entre os fuxiqueiros que ficaram no cabaré após a saída do Berto; ouvi o anúncio do Adonis com certa curiosidade e um pouco de medo.

    Confesso que me surpreendi.

    Essa foi pra fuder!

  4. Infelizmente foi apenas um sonho, mas com o atual STF, NÃO é possível pensar e sonhar, com suas excelencias togadas, isto é crime passível de prisão temporária de até dois anos, com perda de direitos eleitorais (exceto a Dilma, Lula, Aécio e outros amigos). Vão se phuder babacas!!!

  5. Meu querido Adônis, tem coisas que não consigo entender. Me explique, por favor, mentes brilhantes, como a sua, jamais serão ecoadas? O exemplo foi plausível. Mas o autor da obra, venhamos e convenhamos, nem personalidade tinha. Michael Foucault foi a primeira bicha, pública, que morreu de aids,nos anos de 1980, na Europa ( dando o cu). Faz parte daqueles comunistas tipo Sartre e congêneres.

    Esse porra louca não aceitava que pra ser filho tinha que ter pai.No Brasil, tem adeptos. Não esqueço de um julgamento no STF que o porra do José Roberto Batochio fez citação, no idioma francês, para defender o meliante Lula.

    É por aí que se vai! Quem não pode desprezar, jamais poderá respeitar (Nietzsche) que não passa de outro bosta.

    Vamos aproveitar deste espaço escroto e denunciar tudo que haverá de maracutaia. Assim mesmo, no futuro!

    Eu sou suspeito para admirá-lo. Eu sou advogado, mas nem por isso estou apto a contraditá-lo.

    Quando o advogado é requisitado para defender alguém, ainda que esse alguém tenha matado a própria mãe, o advogado defende o ato praticado. Não está em jogo mãe e filho. Há de separar o homem do ato praticado. Seccionar o home do ato praticado é dificílimo. ´´E só pensar: num ato insensato, você faz uma merda, ponto. Sua vida pregressa vai imediatamente pro léu? Não será possível discutir razões subjetivas? Claro que sim,numa corte que tenha credibilidade. O STF, por exemplo, há muito, deixou de ser um teatro e passou a ser um picadeiro, de péssima categoria. Bater no peito que sou advogado, de família humilde, há muito tempo não me orgulha.

    É só pra dizer que te admiro. É só pra dizer que eu gostaria muito de dizer o que você diz, com a emoção de quem realmente tem alma e coração. Eu penso como você. Só não tenho a sua competência para traduzir em palavras.

    Minha eterna admiração. Eu ainda vou filar prosa com você.

    Wagner

  6. Desculpe Adônis. Alma, coração e razão sobretudo. O resto, que me valha a intenção. Sois um pernambucano anglo saxônico, na essência. Que Deus lhe conserve assim.

  7. Rapaz, aqui nessa gazeta só tem gente de alto quilate. Além dos encontros de quinta serem imperdíveis o pós-encontro também começa a dar frutos. Só falta criar o grupo do whatsapp, kkk.
    Meu admirado Prof. Adonis, sua verve, assim como a imaginação e a sapiência muito nos orgulham.

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