GOIANO BRAGA HORTA - ARCO, TARCO E VERVA

São Tomás de Aquino ficava ali, parado, no canto da igreja, duro, estático, tentando segurar o braço de alguém. Todos sabem que os santos só podem sair do seu lugar se segurarem o braço de uma pessoa. Muitas vezes ele quase conseguira, a pessoa se aproximava, olhava alguma coisa, se distraía, ele, com dificuldade de tanto tempo ali parado, levava lentamente a mão para segurar o braço de alguém, mas, zap, a pessoa saía fora e ele ficava frustrado tendo quase conseguido.

Até que, naquele dia, o padre tendo viajado, Sebastião, o sacristão, desrespeitosamente, ficou a fumar dentro da igreja. Pior, encostou-se no santo, descansado e descansando. Acendeu um cigarro e pôs-se a fumar.

São Tomás de Aquino viu que era uma oportunidade única e arregalou bem os olhos, com a respiração quase sufocada. Começou, com grande esforço, a mover o corpo tentando esticar a mão para segurar o braço do sacristão, que se mexeu, quase tirando-o fora do alcance, mas logo voltou à posição bem encostada no santo. São Tomás de Aquino segurou a respiração, foi indo lentamente, respirou fundo e, zap, agarrou o braço de Sebastião, que nem assustou-se, sabia que tinha dado bobeira e que agora teria o santo agarrado ao seu braço.

Sebastião foi andando dali com São Tomás de Aquino o acompanhando, preso ao seu braço. E o santo sabia que não poderia deixar de ficar com a mão agarrada no braço dele, para poder andar à vontade pelo mundo.

Coincidentemente, Marcélia, a mulher de Sebastião, que tinha um nome poético e fazia a limpeza da igreja, acabaria por ter destino semelhante, o que iremos saber.

São Tomás de Aquino conduziu Sebastião a uma fábrica de leões na África. Como assim, fábrica de leões, quis saber Sebastião. E logo ficou sabendo quando chegaram à fábrica de leões. Era um lugar simples, mal cuidado, quase sujo mesmo, uma grande cabana vazada no lugar das paredes, feita de troncos de árvores, galhos e palha cobrindo por cima em vez de teto, tudo cercado de mata. Havia toscas mesas feitas de pau roliço onde os leões eram fabricados. Sebastião pôde ver a chegada do material e os leões serem feitos.

São Tomás de Aquino fez Sebastião compreender que era assim, mesmo, que os leões eram feitos e não do jeito que todo mundo pensava. Tudo era feito nas fábricas das coisas, não só os leões. Bem ao lado dali havia a fábrica das zebras. Um pouco mais longe a dos elefantes. Tudo era feito desse jeito, conforme já dizia, mais ou menos isso, o Platão.

Onde Sebastião ia, o santo estava indo também agarrado ao seu braço, e ora era Sebastião que levava, ora era o santo que conduzia, indo por aqui e por ali, São Tomás de Aquino agarradíssimo ao braço de Sebastião, que sabia o santo que não podia largá-lo.

Vez por outra, Sebastião fazia um movimento brusco, puxava, tentando tirar o braço, mas o santo estava fortemente agarrado a ele. Não havia outra maneira de estar no mundo e por isso não podia soltar-lhe o braço.

Coincidentemente, com a viagem do padre, também Marcélia estava à vontade na igreja, de portas fechadas aos fiéis naquela hora. Pois, ela sentou-se para fazer a unha na beira de um banco de madeira, arranjou os apetrechos de manicuragem e pôs o pé quase em cima da Santa Efigênia, como ela chamava, e que era a Santa Ifigênia. A santa nem pensava em poder um dia sair por aí, voltar a difundir a religião pelo mundo, até aquele momento, em que um pé ficava parado bem ao seu lado, por longo prazo, permitindo-lhe o tempo necessário para agarrá-lo. É que todos sabem que os santos masculinos precisam agarrar o braço e os femininos a perna, para saírem do seu lugar nas igrejas.

Pois, Santa Ifigênia conseguiu e agarrou fortemente a perna de Marcélia, que ainda tentou tirar mas quando viu que estava presa mesmo deixou ficar.

A santa viu-se naquela situação menos confortável, porque para andar agarrada à perna tinha de ficar numa posição difícil, mas era preciso fazer mais um sacrifício. E assim foi.

Marcélia também se viu na África, presenciou Sebastião caminhando pelas fábricas de bichos enquanto Santa Efigênia lhe mostrava como se faziam os religiosos nas respectivas fábricas, e não era do jeito que as pessoas pensavam, mas era ali também, nas fábricas, onde eles podiam ser vistos a serem feitos, paulatinamente, do começo ao fim.

Agora, não havia o que fazer, Sebastião e Marcélia, que já estavam unidos pelo sagrado matrimônio, estavam também unidos por carregarem, junto de si, um, São Tomás de Aquino, outra, Santa Ifigênia, agarrados ao seu braço e a sua perna, enquanto não conseguissem desvencilhar-se ou os santos se distraíssem ou dormissem e soltassem o braço e a perna de um e de outra.

Sebastião até tentou dar um susto na santa, ele ficou atrás da porta e quando Marcélia passou ele pulou na frente e gritou “pôu!”; a santa até se assustou, porém em vez de soltar agarrou ainda mais a perna de Marcélia.

Por enquanto, está assim. Quem sabe, quando o padre chegar, vendo que os santos não estão nos seus lugares, ele corra para ver o que aconteceu e Sebastião e Marcélia lhe mostrem os santos agarrados neles e ele possa fazer alguma coisa, talvez exista alguma reza que os padres conhecem que possa fazer com que os santos voltem aos seus lugares dentro da igreja.

O jeito, então, é mesmo esperar o padre e ver se ele resolve, já avisando que susto não adianta nada.

Até lá, os fiéis terão de contentar-se em rezar frente aos outros santos, porque há, na igreja, dois nichos vazios.

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