MARCOS ANDRÉ - DADO & TRAÇADO

O que vencer será vestido de vestes brancas, e de maneira nenhuma riscarei o seu nome do livro da vida; e confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos seus anjos. Apocalipse 3:5

A George Orwell, autor de A revolução dos bichos, 1984,é atribuída a frase: A historia é escrita pelos vencedores.

Não quero aqui me ater às atuais discussões (narrativas) políticas onde todos saem perdendo. Pois nesta infame “guerra de narrativas”, o único vencido é a verdade. Seja de esquerda ou direita, a luta tem de ser contra a mentira, em todo lugar, a todo tempo. Mais isto vamos deixar pra depois.

Entre milhares de heróis esquecidos (qualquer um de nós, até) me veio à memória, três excelentes exemplos.

Como a história é escrita pelos vencedores, poucos saberão que, no maior conflito armado de todos os tempos (segunda guerra mundial), o panteão dos heróis fica prenhe de espaços vazios. A história, por conta de inconfessáveis interesses, irá obliterar muitos “anônimos”, notáveis, arrojados, bravos e corajosos… relegados. Redomas vazias do imaginário panteão, deverão ser preenchidas pela honestidade e coragem de historiadores e escritores.

* * *

ALAN TURING

Um bom exemplo, foi o conflito armado mais sangrento da história. A vitória dos aliados não foi decidida apenas por bravos soldados e armas. Por traz de toda estratégia dos aliados, destacou-se a figura do cientista Alan Turing, que usou cálculos matemáticos como artifício, fato que o levou a ser considerado o pai da ciência da computação.

Alan elaborou uma máquina capaz de quebrar, códigos da Enigma(máquina utilizada pelos nazistas para criptografar suas mensagens). E assim pode fazer uma precisa leitura e rastrear toda comunicação dos Alemães. Ele pode até não ter entrado diretamente no campo de batalha, mas, por conta da sua mente brilhante e seu invento, estima-se que abreviou a vitória dos aliados em torno de 2 anos, poupando com isso milhares de vidas humanas e uma incomensurável economia para o mundo.

Este fato – a quebra do código nazista – permaneceu no limbo por longas décadas, e o herói inglório, Alan Turing, não teve o devido reconhecimento por parte do governo britânico pelo seu inestimável serviço prestado a humanidade. Pelo contrário, por ser homossexual, foi publicamente humilhado e condenado a castração química. Cometeu suicídio em 1954, aos 41 anos. Hoje, na Inglaterra, em sua homenagem, alem de uma suntuosa estátua em ardósia, seu nome virou nome de ponte, estrada, e de prédio na cidade e universidade de Manchester.

* * *

JACK PHILLIPS

Outro esquecido pela história foi o Jack Phillips. Este modesto operador sênior da comunicação sem fio do Titanic, juntamente com seu colega de trabalho Harold Bride, ao constatar que o navio iria a pique, dispararam, incessantemente, inúmeros sinais de pedido de socorro para as embarcações vizinhas. Este gesto heróico, foi responsável pelo resgate e salvamento de 705 pessoas. Obstinado, permaneceu em seu mister, enviando sinais de S.O.S. sem abandonar sua nobre missão, Jack Phillips foi uma das vitimas fatais do Titanic. Mas os registros dos ininterruptos sinais de socorro, ficaram registrados.

* * *

ALFRED RUSSEL WALLACE

O herói esquecido da evolução

Este galês naturalista foi quem, na verdade, entabulou para o mundo acadêmico, a seleção natural das espécies.

Em 18 de junho de 1858, Wallace despachou uma carta lá da ilha deTernate (hoje Indonésia), para Charles Darwin, cujo texto, era um manuscrito que versava “Sobre a Tendência das Variedades de se Diferenciarem Indefinidamente do Tipo Original” onde ele, categoricamente, concebera o princípio da “sobrevivência do mais apto”.

Existe ainda a versão de que, o estudioso Wallace, escrevera a referida carta, na expectativa de que o já famoso Darwin o ajudasse a conseguir um cargo ou função quando do seu retorno da Indonésia.

Mais o impacto causado em Darwin, ao ler as 5 páginas do manuscrito de Wallace, foi notório. Estava ali, de bandeja, naquele manuscrito, o que Darwin cogitava e refletia desde o lançamento do seu livro “ grande livro sobre as espécies”, em 1844. Era a chance de ouro de relançar o livro com teorias e bases mais sólidas sobre a evolução das espécies que, segundo rumores à época, Darwin se via hesitante para não melindrar o sisudo comportamento vitoriano e cristão vigente, bem como os brios da sua esposa, Emma.

Darwin, sentindo-se ameaçado ante a perspectiva de perder a prioridade sobre a teoria, consultou Charles Lyell (o pai da geologia moderna) e Joseph Hooker em busca de respaldo. Decidiram então, os três, a promoverem uma leitura conjunta dos dois trabalhos na Sociedade Lineana de Londres. Logo em seguida, Darwin elaborou uma “condensação” que foi publicada no ano seguinte sob o título “A Origem…”.

Quem se dispõe a analisar as publicações da Sociedade Linneana de Londres sobre o tema, logo percebe que os escritos e teorias de Wallace são bem mais burilados e acurados. Havia muitos questionamentos ao humilde comportamento de Wallace: “Por que você fica falando na teoria de Darwin? A teoria é tão sua quanto dele!'”

A verdade é que o polímata, Wallace (1823-1914), que já foi destacado como o maior cientista britânico, também era versado em manejo florestal, história natural, estudioso em política de saúde pública, etc.

Este coautor da seleção natural acabou relativamente esquecido, atropelado pela “indústria acadêmica” sobre Darwin.

11 pensou em “HEROIS INGLÓRIOS

  1. Sobre Wallace, tive a felicidade de ler “Viagem ao Arquipélago Malaio” e concordo totalmente com o Marcos André: o verdadeiro pai da teoria da evolução é ele. Darwin nem tinha como explicar certas coisas, por exemplo: os pássaros (tentilhões) que ele matou e embalsamou nas diversas ilhas de Galápagos estavam todos misturados em um único local; como ele iria diferenciar qual pássaro era de qual ilha? Mas, conforme está escrito no início do texto, a história é escrita pelos vencedores. Parafraseando o nosso imortal Machado de Assis, “ao vencedor as batatas” (quem leu entende).

    • Muito grato pela honrosa participação, Sr. Osnaldo.

      Houve nítida usurpação, por parte de Darwin, do talento de Wallace.

      O lobby pró Darwin, por inumeras questões, se sobrepôs ao grande legado científico, comprovadamente, deixado por Wallace.

      O mundo acadêmico conhece e se dobra ao verdadeiro pai da famosa teoria.

      Forte abraço.

  2. Caro Marcos, v. se esqueceu do maior cientista e inventor de todos os tempos, injustiçado pelo Sistema, pois estava muito a frente de seu tempo e ameaçava derrubar tudo o que se sabia. Nikola Tesla.

    Sobre ele temos a famosa frase de Einstein quando foi interrogado por um repórter sobre o que ele teria a falar do maior cientista vivo à época (este estava querendo lhe bajular). No que ele respondeu: “Vamos falar de Tesla?”

    • Realmente,
      Que Marcão providencie um “capítulo dois” para incluir Nikola Tesla e outros do porte dos acima citados.

      Como é enriquecedor estar nos momentos de ócio aprendendo com esses gigantes fubânicos que aqui batem ponto, seja na forma de colunistas ou comentaristas.

      Um ótimo final de semana aos homens do saber que se reúnem no bertiano JBF.

      • Bem aventurado me sinto pela graça de comentario desta envergadura, Sancho.

        Desafio aceito. Tesla estará na próxima crônica.

        Bom fim de semana e diga bem, caminhoneiro!

        Grande abraço.

    • Lisonjeado me sinto com vossa honrosa participação, Sr. João Francisco.

      Falar sobre o gênio, Tesla, teria que haver um capítulo a parte. Daí fidelizei o que afirmei na crônica, de que trouxe apenas 3 exemplos.

      A nata do mundo científico e acadêmico reconhece o gênio Tesla. Que o diga o próprio Albert Einstein.

      A sugestão é válida e pertinente.

      Obrigado pelos comentários. Isto nos ajuda e estimula a troca de ideias edificantes.

      Muito obrigado.

    • Lisonjeado me sinto com vossa honrosa participação, Sr. João Francisco.

      Falar sobre o gênio, Tesla, teria que haver um capítulo a parte. Daí fidelizei o que afirmei na crônica, de que trouxe apenas 3 exemplos.

      A nata do mundo científico e acadêmico reconhece o gênio Tesla. Que o diga o próprio Albert Einstein.

      A sugestão é válida e pertinente.

      Obrigado pelos comentários. Isto nos ajuda e estimula a troca de ideias edificantes.

      Muito obrigado.

  3. Pois é Marcos, também nas guerras, os soldados anônimos entram com suas vidas e seu sangue e, no entanto, quem leva as glórias da vitória são os generais. Foi, é, e será sempre assim.

    • Pura verdade, Sr Paulo.

      O soldado é o mais puro exemplo que temos.

      Na tentativa de se amenizar o impacto, A tradição criou então o “Túmulo do soldado desconhecido” monumentos para honrar os soldados que tombaram em campo de batalha.

      Um leitor me trouxe o seguinte exemplo: Ele divorciou-se da esposa e teve que pensionar os três filhos. A pensão (uns quinze anos) serviu para os três filhos formarem-se. No entanto, quem pagou todos os custos incluindo o da faculdade, foi ele.
      Ele se disse ser um dos herois inglórios pois, sequer foi convidado para as formaturas deles.

      E, tal como no texto da crônica, eu coloquei “milhares de heróis esquecidos (qualquer um de nós, até)”

      Obrigado por engrandecer a crônica com honrosa cota de colaboração da vossa lavra.

  4. Parabéns pela perfeição do texto, prezado Marcos André!

    As histórias de vida desses três heróis esquecidos, são emocionantes.

    O caso do cientista inglês, Alan Turing, considerado o pai da ciência da computação teórica e da inteligência artificial, é chocante.
    O serviço por ele prestado à humanidade, durante a Segunda Guerra Mundial, bastaria para fazê-lo merecedor de reconhecimento.

    Como bem descreveu você, “Alan elaborou uma máquina capaz de quebrar, códigos da Enigma (máquina utilizada pelos nazistas para criptografar suas mensagens). E assim pode fazer uma precisa leitura e rastrear toda comunicação dos Alemães.”

    O castigo imputado a esse cientista, pelo fato de ser homossexual (castração química e prisão, que culminou com o seu suicídio com cianeto), não tem perdão.
    E a demagogia dos podres poderes, de homenageá-lo décadas depois, aumenta ainda mais o sentimento de revolta de quem leu a sua história. “Além de uma suntuosa estátua em ardósia, seu nome virou nome de ponte, estrada, e de prédio na cidade e universidade de Manchester.” Nada disso, jamais, apagará a atrocidade cometida contra ele, no seu país de origem.

    O herói Jack Phillips, (1887 -1912), telegrafista sênior, britânico, que servia na viagem inaugural do Titanic, enquanto o navio naufragava, não parou de enviar mensagens para outros navios nas proximidades, pedindo ajuda no resgate de passageiros e tripulação, .
    Como disse você, “esse gesto heroico foi responsável pelo resgate e salvamento de 705 pessoas.”

    O gênio Alfred Russel Wallace ((1823 – 1913), inglês, naturalista, geógrafo, antropólogo, e biólogo, que escreveu um ensaio onde definia as bases da teoria da evolução, ao que tudo indica, teve seu trabalho usurpado, por um falso amigo.

    Bom domingo e um grande abraço!

    • Como não ter um bom domingo, após uma participação tão contundente da Medtra???

      Quando estudante de direito, numa simulação do julgamento de Alan Turing, concluiu-se que ele havia sido “julgado” conforme a legislação da época…
      Muito triste este episódio.

      O mundo é cruel com seus verdadeiros heróis.

      Excelente fim de semana pra você também, querida.

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