HARRY HALLER

Profundamente solitário desde a mais tenra infância, o sentimento de inadequação ao mundo que nos cerca sempre me acompanhou durante toda minha vida. Desde o início até os dias presentes.

O nome que as pessoas davam (e dão) a esse tipo de gente variou muito ao longo desses anos todos (“Misfit”, “Outsider”, “freak”, “runaway”, e por aí segue), mas o conceito sempre foi o mesmo: pessoas que, ao contrário da maioria, preferem visceralmente a solidão à balbúrdia de incontáveis vozes balbuciando platitudes e imbecilidades. Pessoas para as quais o termo idiota (idios = o mesmo) se aplica com perfeição à maioria absoluta das pessoas que o cercam.

Assim, desde cedo preferi a companhia dos livros à das pessoas. Só assim me punha em contato com pessoas iluminadas de outras eras e lugares. Pessoas com as quais, de outra forma, eu muito dificilmente teria contato.

Logo me dei conta de fazer parte de uma confraria especialíssima daquelas raras pessoas para as quais, ao contrário de todo o restante da humanidade, a busca pela sensação de “belongness” não fazia nenhum sentido. Pessoas marcadas com o “sinal de Caim”, segundo as palavras de Herman Hesse.

Por falar nele, a grande descoberta da adolescência, além de músicas absolutamente maravilhosas, foi a leitura do livro “O Lobo da Estepe”. Para aqueles que tiverem interesse em conhecer esta obra magistral, basta clicar na imagem abaixo: 

Daí para a frente, a trilha musical de minha vida se desdobra. Primeiro, os Beatles:

NOWHERE MAN

Em seguida, as pungentes canções de Paul Simon e Art Garfunquel:

THE BRIDGE OVER TROUBLED WATERS

De todas, creio que a grande “descoberta” tenha sido a belíssima poesia de Jim Croce, precocemente falecido, exatamente quando conquistava corações e mentes de toda uma geração.

I GOT A NAME – Jim Croce

Junto com o “menestrel maldito”, Bobby Dilan, com sua descrição perfeita da minha estranha psicologia.

IT AIN´T ME, BABY

No meio do caminho, a “descoberta” das sublimes músicas de Charles Aznavour.

JE N’AI RIEN OUBLIÉ

E agora, já na reta final, o grande Paulinho da Viola expressa de maneira soberba o sentimento que me domina.

NOVOS RUMOS

ALLWAYS LONELINESS

As I´ve mentioned thousands of times…
I´m ALONE!
Deeply and miserably… Alone!
From the moment I was born, to the moment I will die… Alone!
The bigger is the crowd, the deeper is my loneliness.
No matter how hard I try,
Pretending and cheating myself that I have something in common
With this ugly people that surrounds me.
The maximum of sympathy I can reach,
Even using all the strength of my mightier will power,
Is to stand their bad smell of cheap perfumes,
Is to bear poker face to their bad manners and ugly faces,
Is to stay idle in front of paroxysms of stupidity,
Is to keep my mouth shut
And stay quiet without saying a word.

Teresina – Piauí
11/07/2009

P.S. Peço desculpas a todos os colegas fubânicos que não falam ou entendem inglês ou francês por ter escrito esta crônica quase toda nestas línguas. É um desabafo intimista para o qual espero contar com a compreensão de todos. Tentei encontrar as músicas legendadas, mas infelizmente, não as encontrei todas. Bom domingo!

16 pensou em “HARRY HALLER

  1. Caro Adônis:

    Você não tem nada de pedir desculpas a nós, colunistas e leitores que gostamos lemos dos seus textos inteligentes de “desabativos”.

    Pelo menos, apesar de não ser da sua área, professor múltiplo, e não dominar o inglês, consegui, como diz o genial comediante Rolando Lero, “captei a vossa mensagem, amado mestre.”

    Sou um simples corretor de imóvel que presenciou o maior assalto aos cofres públicos com esse tal de “Minha Casa, Minha Dívida!”

  2. Caro Adônis:

    Você não tem nada de pedir desculpas a nós, colunistas e leitores que gostamos e lemos seus textos inteligentes e “desabativos”, escritos em direção a qualquer área do conhecimento humano.

    Pelo menos, apesar de não ser da sua área, professor e múltiplo, e não dominar o inglês, consegui, como diz o genial comediante Rolando Lero: “captei a vossa mensagem, amado mestre.”

    Sou um simples corretor de imóvel que presenciou o maior assalto aos cofres públicos com esse tal de “Minha Casa, Minha Dívida”, à época do desgoverno Lula e sua ORCRIM.

  3. Amados confrades,
    Hoje, depois de quebrar a cara inúmeras vezes, não gasto mais meu latim discutindo abobrinhas com pessoas que nem de longe merecem.
    Encontrei a minha turma de almas gêmeas aqui no JBF!
    Podem ter certeza absoluta que cada um de vocês é absolutamente especial para mim.
    Um grande abraço a todos e tenham um bom domingo e uma excelente semana.

  4. Todos os seres humanos estão sozinhos, mas não sabem.
    Alguns poucos descobrem esta condição.
    Ai esta a maravilha da natureza humana.
    Não saber e sonhar.
    Saber e ter esperança.
    Saúde.

  5. Sou admirador e leitor da obra de
    HERMANN HESSE. Como estudioso da filosofia
    oriental, começei pelo seu livro Sidarta e li depois tudo
    que consegui, inclusice o Lobo das Estepes, altamente
    filosófico.
    Ótima dica de leitura para os amigos da Besta Fubana.

  6. Adônis, nasceste para ser gauche, mas perdeste, talvez, o rumo.
    Dir-te-ia Carlos Drummond de Andrade:
    Poema de sete faces

    Quando nasci, um anjo torto
    desses que vivem na sombra
    disse: Vai, (Adônis)! ser gauche na vida.

    As casas espiam os homens
    que correm atrás de mulheres.
    A tarde talvez fosse azul,
    não houvesse tantos desejos.

    O bonde passa cheio de pernas:
    pernas brancas pretas amarelas.
    Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
    Porém meus olhos
    não perguntam nada.

    O homem atrás do bigode
    é sério, simples e forte.
    Quase não conversa.
    Tem poucos, raros amigos
    o homem atrás dos óculos e do bigode.

    Meu Deus, por que me abandonaste
    se sabias que eu não era Deus,
    se sabias que eu era fraco.

    Mundo mundo vasto mundo
    se eu me chamasse Raimundo
    seria uma rima, não seria uma solução.
    Mundo mundo vasto mundo,
    mais vasto é meu coração.

    Eu não devia te dizer
    mas essa lua
    mas esse conhaque
    botam a gente comovido como o diabo.

  7. Hay que reconocer que el tío tiene RAZÓN. Bem pior é o meu caso. Atualmente evito ir ao banheiro quando a sessão de cinema já começou, pois não lembro onde estava sentado e tenho que sentar com outra família e começar uma nova vida.

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