HÁ 81 ANOS: CAIO MARTINS, O HERÓI DO ACIDENTE ESQUECIDO

Caio Vianna Martins foi um escoteiro herói, com apenas 15 anos de idade deu sua vida para ajudar outros escoteiros e passageiros de um acidente de trem próximo a Barbacena em Minas Gerais. Após a colisão entre duas composições, uma de passageiros que ia de Belo Horizonte para São Paulo e outra de carga que seguia no sentido contrário, o jovem escoteiro, com fortes dores abdominais, juntou a tropa, porém só contou 23, então coordenou a busca dos outros dois que não estavam ali, acenderam fogueiras para iluminar a busca e já ao amanhecer encontraram Helio Marcos de Almeida e Gerson Hissa Satuf já sem vida. Caio continuou a ajudar outras vítimas do acidente, muitas delas eram imigrantes baianos que seguiam para a capital paulista em busca de trabalho. A ajuda de Barbacena só chegou pela manhã, alguns escoteiros buscaram ajuda dos socorristas para que estes conduzissem Caio para o hospital, mas Caio vendo que a quantidade de macas era insuficiente para todos os feridos, recusou ajuda: “Um escoteiro caminha com as próprias pernas“, e assim fez: “Foi andando, junto a seus amigos, até a cidade, mas, ao chegar ao hotel, sentiu-se mal e foi levado à Santa Casa, onde veio a falecer, por conta do rompimento de vísceras e um grave derrame interno”, relatou Elton Belo Reis na página de Barbacena no facebook. Seu corpo foi levado para Belo Horizonte, onde foi enterrado no mesmo dia junto com os outros dois escoteiros falecidos no acidente.

Capa da página do grupo no facebook

A estação de João Ayres fica a menos de 14 km da cidade de Antonio Carlos, um trecho azarado da movimentada linha férrea que liga BH, Rio e São Paulo. Outros acidentes ocorreram neste trecho, dois antes, em 1925 e 1934 e outro depois, em 1951. Este acidente ocorreu na madrugada do dia 19 de dezembro de 1938 e foi o maior desastre ferroviário até aquela data, mais de 40 mortos e dezenas de feridos. O “trem nocturno”, uma composição que seguia entre as capitais mineira e paulista todos os dias, uma em cada sentido. Era formada por uma locomotiva, vagões de primeira e segunda classes, restaurante (chamava-se buffet), dormitório, correios e carga. Os escoteiros seguiam na primeira classe, os dois vagões da segunda classe estavam lotados de imigrantes baianos que seguiam para São Paulo em busca de dias melhores.

Hotel e estação João Ayres. Veja a esquerda da segunda foto o que sobrou do hotel (fotos do site estacoesferroviarias.com.br)

O trecho é de linha singela mas em algumas estações tinha linha dupla para cruzamento de trens. O N-2 (nocturno) parou na estação de Sítio (atual Antonio Carlos) para embarque e desembarque de passageiros, e para aguardar uma composição cargueira, a CEC-81, que vinha do Rio de Janeiro, conforme determinava a licença (autorização com instruções dada pelo chefe da estação para prosseguir viagem). Quando a CEC-81 passou, o N-2 Nocturno seguiu para João Ayres com a licença que rezava: “o trem N-2 aguarda passagem do trem CEC-81 cargueiro com destino a Belo Horizonte, após a passagem do trem CEC-81 poderá seguir viagem até a estação João Ayres, onde ganharia outra licença para poder descer a serra sentido Mantiqueira e a Santos Dumont”. Na estação João Ayres dois trens cargueiros passaram no sentido contrário, o CEC-81 e logo em seguida o C-65. O conferente Werneck Rodrigues comandava a estação e deixou as duas licenças para os trens cargueiros, uma autorizando a composição CEC-81 seguir e outra determinando que a C-65 aguardasse a passagem do N-2 nocturno. A CEC-81 passou sem parar na estação e consequentemente não pegou a licença, quando a C-65 parou, o ajudante desceu e pegou a licença do CEC-81, mandando seguir viagem, e assim seguiu, na direção contrária e na mesma linha singela do trem nocturno mineiro. faltavam só uns 3 km para o acidente.

Revista O Malho de 29-12-38

José Rabelo era o maquinista da C-65, locomotiva da composição cargueira do acidente, sofreu ferimentos graves. No depoimento disse que o foguista (auxiliar do maquinista) José Moyses viu um clarão pela frente, achou tratar-se do nocturno e que a licença que tinha em mãos estava errada, era para outro trem. Neste momento não pensou duas vezes e pulou do trem.

Recorte do Estado de São Paulo da época

O maquinista do nocturno era Franklin Carlos que declarou: “… fui licenciado na estação de Sítio, onde cruzei com a CEC-81, longe estava de supor que logo atrás daquela havia outro cargueiro que o agente de João Ayres também licenciara. O certo é que a uma distância de 500 metros vi faróis na minha frente, a princípio julguei que fosse algum automóvel na estrada de rodagem, mas logo me veio a lembrança que a estrada não passa por ali, … fiz funcionar o apito por duas vezes e quando percebi que tinha a frente uma composição, lancei mão de todos os freios ao mesmo tempo, gritei para o graxeiro e foguista que pulassem da locomotiva: Saltem porque vamos morrer, …, ambos morreram estupidamente sem saber o que se passou…”

Igreja da Boa Morte em Barbacena, com as vítimas fatais

Após saber do acidente, Werneck “andava como louco na estação andando para lá e para cá”. Enlouqueceu quando soube das consequências do seu erro, fugiu e suicidou-se. Entre os passageiros mortos estava Escragnolle Rocha, conhecido capitalista (agiota) de Belo Horizonte “o qual, segundo se adianta, era conhecido pelo seu apego ao dinheiro, motivo porque viajava na segunda classe, como era do seu hábito. Destinava-se ele ao Espírito Santo, a chamado do seu filho”, fofocava o Estadão no dia seguinte.

Capa do jornal A Noite

Se este acidente tivesse ocorrido em um país que valoriza a história, lá no local da colisão teria um monumento e seria ponto de visitação, mas no Brasil é um fato esquecido. Tão esquecido como o acidente é o jovem escoteiro de 15 anos que lutou o quanto pode pela vida dos outros, deixando de lado a sua, a única grande homenagem a Caio Martins estava no estádio de Niterói onde o Botafogo mandava seus jogos antes de ir para o Engenhão, mas no inicio dos anos 2000, a câmara de vereadores de Niterói mudou o nome do Caio Martins para Mestre Ziza (Zizinho), ex-jogador niteroiense que atuava pelo Flamengo.

Jogo do Botafogo no Estadio Caio Martins, hoje Mestre Ziza

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