GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

No dia 3 de setembro de 89 a seleção brasileira entrava em campo no Maracanã contra o Chile. Para os chilenos só a vitória interessava, caso o Chile vencesse, os canarinhos comandados por Lazzaroni não iriam a Copa do Mundo da Itália em 1990. O Brasil vencia por 1×0 e próximo do final do jogo uma torcedora lançou um rojão em campo, o pipoco foi dentro da pequena área, o goleiro chileno Roberto Rojas aproveitou a situação, tirou uma lâmina que guardava na luva e cortou o seu pulso. Os jogadores chilenos deixaram o campo em “protesto” contra o rojão e o árbitro argentino encerrou a partida deixando milhões de brasileiros apreensivos por não saberem o destino da seleção brasileira.

O goleiro Roberto Rojas simula uma lesão e a fumaça do rojão

Ao término do jogo Brasil e Chile, 54 brasileiros não estavam preocupados com o destino da seleção, e sim com as suas vidas, essas pessoas estavam a bordo de um avião perdido na selva amazônica, eram os passageiros e tripulação do voo Varig 254 que seguia de Marabá para Belém, ambas no Pará. O avião fazia a rota Guarulhos – Uberaba – Uberlândia – Brasilia – Imperatriz – Marabá – Belém. A tripulação composta pelo comandante Garcez, o co-piloto Zilli e 4 aeromoças havia embarcado em Brasília. O avião estava bem abaixo do peso suportado, 48 era o número de passageiros.

Boeing 737 200 da Varig, similar a do acidente

A Varig, 4 meses antes, havia mudado a rotina de inserção da direção do voo no painel do avião, antes bastava girar o botão e alterar os 3 dígitos, já que os ângulos variam de 001 a 360, com a mudança foi acrescentado um dígito decimal. De Marabá para Belém o ângulo da bússola é 27° ou 027 pelo método anterior, no método novo, o manual determinava que os pilotos girassem o botão para 0270, sendo o último zero, o decimal, mas os pilotos interpretaram que tinha que eliminar o zero a esquerda e digitaram 270, e o voo que seguiria para o Norte tomou o rumo Leste. Este erro já havia ocorrido várias vezes em outros voos da Varig sem maiores consequências.

Rota que o voo deveria percorrer (vermelha) e a que percorreu (amarela)

A aeronave Boeing 737 200 levantou voo de Marabá às 17 horas e 35 minutos com previsão de chegada em Belém 50 minutos depois. Ao iniciar o voo o co-piloto relatou que o correto seria que o sol estivesse se pondo do lado esquerdo, mas o comandante não deu muita atenção, chegou-se a cogitar que os pilotos estavam concentrados na partida de futebol que decidia a classificação do Brasil para a copa. Alguns passageiros também estranharam a posição do sol, um deles chamou a aeromoça para informar ao piloto o fato. A aeromoça foi a cabine falou com Garcez, alguns minutos depois Garcez acalmou os passageiros pelo som do avião, informou que o Brasil tinha aberto o placar no Maracanã, 1×0, gol contra de Astengo.

Jornal da época noticia o desaparecimento do avião

Já na hora de pousar no Val de Cans, o co-piloto chamou a torre e esta não respondeu pelo rádio, o co-piloto mudou para uma frequência mais potente e menos nítida (tipo rádio FM para AM) e conseguiu contato com Belém, informou que ia pousar e foi autorizado, o voo começou a diminuir a altitude e Zilli novamente conversou com Garcez: “cadê as luzes de Belém?” Após o avião atingir sua altura de aproximação perceberam que não tinha aeroporto nem Belém por perto. Zilli ainda deu a sugestão de voltar, mas Garcez não deu ouvidos. As 20 horas e 30 minutos os pilotos conseguiram se comunicar com outros voos da Varig que seguiam próximos: “estou com todas as luzes (do painel de emergência) acesas, Só tenho 100 quilos de combustível e vou tentar o pouso”, depois finalmente se comunicou com os passageiros: “tivemos uma pane no sistema de bússola, estamos com o nosso combustível já no final ainda com 15 minutos. Pedimos a todos que mantenham a calma”. Após esse diálogo o comandante começou a iniciar o pouso, um piloto em outra aeronave perguntou o que aconteceu, Garcez informou que foi problema na bússola, logo depois disse: “o motor 1 acabou de parar, a gente vai ter que descer agora, eu não vou poder falar mais, que a gente vai se preparar para o pouso” e as 21 horas o Boeing pousou na mata fechada em São José do Xingu, Mato Grosso.

Matéria do Fantástico da Globo sobre o acidente:

Na aterrizagem no meio da floresta, um misto de pericia dos pilotos e sorte de todos: o charuto (parte principal do avião, onde ficam os tripulantes e os passageiros) saiu com poucos danos, as mortes dos 11 ocupantes e ferimentos em outros 43 (um desses morreria posteriormente por causa das lesões) se deram por conta das poltronas que se soltaram e amontoaram na frente da aeronave. Com a demora em chegar o resgate, que realizavam as buscas em outras regiões mais prováveis, 4 passageiros seguiram em busca de socorro e 4 dias depois chegaram na sede de uma fazenda, e via rádio, comunicaram-se com os órgãos de buscas até serem localizados as 16:25 do dia 5. Os primeiros corpos e sobreviventes foram resgatados já na noite do dia 5.

Capa da revista Playboy com Rosenery Mello, a fogueteira do Maracanã

Os pilotos foram condenados a 4 anos de prisão e essas penas foram convertidas em serviços comunitários. O Chile foi suspenso de campeonatos internacionais por 8 anos, o goleiro chileno Rojas, atleta são-paulino, foi banido do futebol e não conseguiu trabalho no Chile, sendo acolhido pelo São Paulo que o empregou como treinador de goleiros e a torcedora que soltou o rojão ficou conhecida como Rosenery Fogueteira, ficou famosa, pousou para a Playboy, voltou para o anonimato e morreu em 2011 com 45 anos de idade de aneurisma cerebral.

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