MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

EUA e China estão em uma guerra comercial. Pelo menos é o que lemos na imprensa. Mas o que isto quer dizer? Vamos tentar descobrir.

O livre mercado exige que qualquer empreendedor esteja sempre atento à concorrência. A qualquer momento pode surgir alguém oferecendo um produto melhor, mais barato, ou até mesmo melhor e mais barato ao mesmo tempo. No livre mercado, o consumidor é o rei.

Mas no mundo de verdade, as coisas nem sempre funcionam assim. A tendência é que os preços aumentem, porque os custos vão se acumulando: salários e benefícios crescem, impostos aumentam, burocracias e regulamentações vão se acumulando, ineficiências vão surgindo e sendo toleradas. Tudo isto abre espaço para a concorrência. De repente, uma empresa ou um grupo de empresas percebe que está sendo posta para fora do mercado.

No mundo perfeito, a solução seria “correr atrás do prejuízo”: cortar custos, aumentar a eficiência e a produtividade, buscar inovação. Mas o mundo não é perfeito. E no mundo imperfeito em que vivemos, quando alguém fica nesta situação, costuma pedir ajuda ao governo.

Governos, não importa o quanto se auto-elogiem e jurem ser bonzinhos, só se interessam por duas coisas: votos e poder. Querem votos para ter mais poder, querem poder para ter mais votos. Quando o governo decide “ajudar” alguém, só o que conta é a quantidade de votos que esta “ajuda” pode trazer.

Aí acontece o seguinte: as empresas de um certo país deixam de ser competitivas. Seus custos são muito altos. Seus funcionários tem direito, graças aos sindicatos, a um monte de benefícios caros (planos de saúde, aposentadorias, etc). Sua administração é ruim, porque os diretores estão mais preocupados com o bônus milionário que vão receber no próximo trimestre do que com o futuro da empresa. O departamento jurídico faz com que a prioridade de cada setor seja “tirar o seu da reta”. Tudo fica complicado porque cada decisão tem que levar em conta um monte de restrições criadas por um monte de órgãos do governo (que não tem a menor idéia do que seja produtividade) e ainda atender ao politicamente correto, senão do nada pode surgir nas redes sociais uma campanha de boicote contra a empresa.

Aí um outro país, mais pobre, resolve se esforçar para ser competitivo. Os funcionários trabalham mais e ganham menos. Os diretores se preocupam com as metas de longo prazo da empresa. O governo tenta não atrapalhar, ao contrário, incentiva o crescimento. O resultado é que este país produz mais barato e portanto pode vender mais barato. Bom para todos, certo? Infelizmente, não.

Todo mundo percebeu que estou falando de EUA e China. O problema é que os empregados dos EUA votam nas eleições dos EUA, os empregados chineses não. Então, para o Trump, só o que interessa é agradar aos empregados de lá. Não há muito o que possa ser feito para melhorar a competitividade das empresas locais: Reduzir impostos? Nem pensar. Reduzir regulamentações? Também não. Reduzir salários e benefícios? Impensável. Resta, então, atrapalhar a competitividade das empresas chinesas. Como? Mais impostos (como ninguém gosta desta palavra, vamos chamar de “sobretaxa”). E assim as empresas ineficientes podem continuar sendo ineficientes, porque, graças ao governo, os preços de seus concorrentes mais eficientes subiram.

O governo da China não está preocupado com votos, mas está preocupado em deixar o povo contente: mais de um bilhão de pessoas descontentes não é algo bom para ninguém. Para compensar a tal sobretaxa, o governo intervém no câmbio, para baixar o preço de exportação dos produtos e compensar o aumento de impostos.

Moral da história: nos EUA, as pessoas estão pagando mais caro porque ao comprar um produto, estão pagando junto uma “sobretaxa” para o governo. Na China, como a moeda ficou mais fraca, as pessoas estão trabalhando a mesma coisa para ganhar menos, com o governo “cobrando mais caro” para quem quiser comprar moeda estrangeira.

Nos dois países, os governos estão ganhando e a população está perdendo. Não foi sempre assim em todas as guerras?

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