PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

O grande cantador pernambucano Oliveira de Panelas, um dos maiores nomes da poesia popular nordestina da atualidade

* * *

Oliveira de Panelas

No silente teclado universal
Deus pôs som nas sutis constelações,
e na batida dos nossos corações
colocou a pancada musical,
quando a harpa da brisa matinal
vai fazendo concerto pra aurora,
nessas lindas paisagens que Deus mora
em tecidos de nuvens está escrito:
é a música o poema mais bonito
que se fez do princípio até agora.

Quando as pétalas viçosas das roseiras
dançam juntas com o sol se levantando,
vem a brisa suave carregando
pólen vivo das grávidas cerejeiras,
verdejantes, frondosas laranjeiras,
soltam hálito cheiroso à atmosfera,
toda mãe natureza se aglomera:
de perfume, verdume, que beleza!…
É o canto da própria natureza,
festejando o nascer da primavera!

* * *

Dimas Batista

Alguém já me perguntou:
o que são mesmo os poetas?
Eu respondi: são crianças
dessas rebeldes, inquietas,
que juntam as dores do mundo
às suas dores secretas.

Nossa vida é como um rio
no declive da descida,
as águas são a saudade
duma esperança perdida,
e a vaidade é a espuma
que fica à margem da vida.

* * *

Diniz Vitorino Ferreira

Qualquer dia do ano se eu puder
para o céu eu farei uma jornada
como a lua já está desvirginada
até posso tomá-la por mulher;
e se acaso São Jorge não quiser
eu tomo-lhe o cavalo que ele tem
e se a lua quiser me amar também
dou-lhe um beijo nas tranças do cabelo
deixo o santo com dor de cotovelo
sem cavalo, sem lua e sem ninguém.

* * *

Canhotinho

Acho tarde demais para voltar
estou cansado demais para seguir,
os meus lábios se ocultam de sorrir,
sinto lágrimas, não posso mais chorar;
eu não posso partir e nem ficar
e assim nem pra frente nem pra trás,
pra ficar sacrifico a própria paz,
pra seguir a viagem é perigosa,
a vereda da vida é tão penosa
que me assombro com as curvas que ela faz.

Te prepara, ladrão da consciência,
Que tuas dívidas de monstro já estão prontas,
Quando o Justo cobrar as tuas contas,
Quantas vezes pagarás à inocência?
Teu período banal de existência
Se compõe de miséria, dor e pragas;
Em teu corpo, se abrem vivas chagas,
Que tu’alma de monstro não suporta…
Se o remorso bater à tua porta,
Como pagas? Com que? E quanto pagas?

* * *

Antonio Marinho

Quem quiser plantar saudade
Escalde bem a semente
Plante num lugar bem seco
Quando o sol tiver bem quente
Pois se plantar no molhado
Ela cresce a mata a gente.

* * *

Toinho da Mulatinha

Em Sodoma tão falada
Passei uma hora só
Lá vi a mulher de Ló
Numa pedra transformada
Dei uma talagada
Com caldo de mocotó
E saí batendo o pó
Adiante vi Simeão
Tomando café com pão
Na barraca de Jacó.

* * *

Pinto do Monteiro

Admiro um formigão
Que é danado de feio
Andando ao redor da praça
Como quem dá um passeio
Grosso atrás, grosso na frente
E quase torado no meio.

* * *

Odilon Nunes de Sá

Admiro a mocidade
Não querer envelhecer
Velho ninguém quer ficar
Moço ninguém quer morrer
Quem morre moço não vive
Bom é ser velho e viver.

* * *

Léo Medeiros

Ensinei Ronaldinho a jogar bola
Fui o mestre de Zico e Maradona
Seu Luiz aprendeu tocar sanfona
Bem depois que saiu da minha escola
Caboré no pescoço eu botei mola
Também fiz beija-flor voar pra trás
Conquistei cinco copas mundiais
Defendendo a nossa seleção
Inventei em Paris o avião
O que é que me falta fazer mais?

* * *

O CONFRONTO DE LAMPIÃO COM ZÉ DO AÇO DA GLÓRIA – Cícero Vieira da Silva (O Sabiá da Jurema)

Agora neste folheto
Eu vou pedir atenção
De vocês para contar
O que houve no sertão
Na hora que Zé do aço
Topou-se com Lampião.

O Zé do Aço era cabra
Que do trabalho vivia,
Mas andava preocupado,
Pensando como fazia
Para poder escapar
Daquela seca sombria.

É que aqui no Sertão
As coisas tinham mudado,
O inverno tinha sido
Um pouco desarrumado
Que até na terra boa
Faltava o capim do gado.

Com isso na região
O povo vivia mal,
Os fazendeiros não estavam
Contratando o pessoal
E assim, todos sofriam
Naquela seca brutal.

Nesse tempo, Lampião
Andava pouco por aqui,
Mas vez em quando passava
Pras bandas do Cariri
E as horas do encontro
Você verá a seguir.

Pois como já anunciei
O Zé do Aço corria
Querendo arrumar um canto
Para cuidar da famia
E da filha Juliana,
Moça de grande valia.

Juliana era uma jovem
Morena cor de canela
Tinha uma beleza rara
Que não tinha igual a dela
E todos na vizinhança
Gostavam dessa donzela.
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Um certo dia essa moça
Viu sua mãe comentar
Que faltaria comida
Pois só tinha mucunzá
Se achassem um serviço
Teriam que viajar.

Mas do que vinha depois
A moça não contaria:
Um bando de cangaceiros
Chegando na moradia
E pedindo de comer
Enquanto o seu pai dormia.

Querendo saber quem vinha
Uma mulher veio fora,
Era a esposa do Zé
No seu papel de senhora,
Mas quando viu os bandidos
Desmaiou na mesma hora.

– Levanta branquela velha!
Um elemento falou.
Mas ela desacordada
O pedido rejeitou,
Foi aí que Cambirão
Do companheiro zombou.
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Era o tal de Ferro Velho,
Um cangaceiro malvado,
O bandido Cambirão
Tinha dele caçoado,
Aí o Ferro partiu
Para matá-lo sangrado.

Naquela hora uma briga
No meio deles rolou,
Cambirão deu uma facada
Que o cangaceiro gritou,
Foi aí que Zé do Aço
Ligeiramente acordou.

Zé vendo a mulher no chão
Para a filha perguntou:
– Por que que estás assustada?
A menina respostou:
– Papai foram esses bandidos
Que nos causaram um terror.

O Zé do Aço ia agir,
Um bandido se meteu
E disse: – cheguei aqui,
Mas ninguém me atendeu
Se não aparecer janta
Tu vai saber quem sou eu.
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E como se não bastasse
Ainda vem esse sacana
Querendo zombar de mim,
Vou sangrar esse banana,
Depois amasso as panelas
Na cara de Juliana.

No momento o pai da moça
Sentiu o sangue ferver
Gritou: – bandido atrevido
Tu precisas aprender
A respeitar um cidadão
Como devemos fazer.

Naquele mesmo instante
Usou da força brutal,
Tacou-lhe o pé no bandido
Parecendo um animal
Que o cangaceiro caiu
Dando o suspiro final.

Nessa mesma ocasião
Um bandido atirou
Pra matar o Zé do Aço,
Mas a bala não pegou,
Atingiu foi Juliana
Nas pernas que ela virou.
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A garota assustada,
Sentiu que foi atingida,
Perdida naquele fogo
Gritou: – Papai tou ferida,
Jamais senti uma dor
Tão grande na minha vida.

O Zé do Aço ali
Teve um desgosto profundo,
Vendo a filha baleada
Atirou nos vagabundos
E mandou mais um bandido
Direto pro outro mundo.

De repente aqueles cabras
Desabavam com tristeza,
Quem chegara assustando
Se tornara uma presa
Porque jamais contaria
Ver tamanha ligeireza.

Ao chegarem na Caatinga
Contaram pro capitão:
– Aquele filho da peste
Atirava feito um cão,
Pois deixou dois cangaceiros
Caídos naquele chão.
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Lampião quando ouviu isso
Gritou bastante voraz:
– Esse roceiro atrevido
Nunca viu o Satanás,
Vou sangrá-lo como um porco
E jogar aos animais.

Aqui nunca ninguém viu
Um cabra me provocando
Nenhuma quenga pariu
Se gerou foi abortando
Ou está no cemitério
Bem tranqüilo sossegando.

Dali já foram traçando
Um plano para vingar,
Mas Zé do Aço sabia
Que eles iam voltar
E também que Lampião
Estava perto de lá.

Porém tirou a família
Pra casa de seu irmão,
Sabia que os cangaceiros
Pertenciam a Lampião
E que ele estaria
Rondando na região.
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Pois o povo do Sertão
Já tinha dificuldade,
Saber que Lampião vinha
Era outra barbaridade,
Parecia um temporal
Na vida da humanidade.

Porque onde ele pisava
Até os bichos temiam,
Mulher que tava embuchada
Nessas horas padecia,
Cachorro entrava no mato,
Nunca mais aparecia.

Assim num dado momento
Ocorreu o esperado,
Corria o povo gritando,
Todo mundo assustado
E um doido lastimando:
– Agora estamos lascados.
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Naquele dia a polícia
Estava em uma feira,
O delegado saiu
Disparado na carreira
E foi escapar debaixo
Da cama d’uma parteira.

Enquanto todos correram
Só Zé do Aço ficou,
Sabia que se corresse
Viraria um perdedor,
Foi aí que Lampião
Na casa dele riscou.

E disse assim, quando viu
Ele ali naquele chão:
– Por que você não correu?
Esqueceu de Lampião?
Disse Zé: – aqui é meu
E não lhe devo um tostão.
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Nos meus tempos de menino
Aprendi esta verdade:
Um homem no que é seu
Tem que ter autoridade,
Se morrer, morre um herói,
Se viver é majestade.

Lampião quando ouviu
Disse: – É muito desaforo,
O povo por onde passo
Esperneia e cai no choro
E quando me desafia
Sangro, mato e tiro o couro.

Hoje aqui nesta tapera
Você me desafiou,
Além de negar comida,
Meus amigos tu matou,
Depois de sangrar você,
Eu queimo o teu bangalô.

Ouvindo isso o Zé do Aço
Respondeu pra Lampião:
– Aqueles cabras safados
Mereciam uma lição
Para aprenderem a chegar
Na casa de um cidadão.
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Depois disso o cangaceiro
Agiu de forma pesada,
Tacou-lhe um punhal ligeiro
Pra matá-lo na calçada,
Mas só pegou de raspão
Que a roupa ficou rasgada.

Também logo o combatente
Da mesma forma mandou
Falou: – Você hoje topa
Do que nunca encontrou
Também meteu-lhe o punhal,
Mas Lampião se desviou.

O capitão com rapidez
Usou de forma mais dura
E disse: – Esse camponês
Parece ter uma pintura,
Mas eu mato esse infeliz
E mando pra sepultura.

E atacando novamente
Lampião lhe atingiu
Seu punhal passou rasgando
Que chega o sangue subiu
Tristemente o Zé do Aço
Deu um tropeço e caiu.
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De repente os cangaceiros
Começaram a gritar
Um dizia: – ele já era
O capitão vai matar
Foi aí que Lampião
Avançou para sangrar.

Mas o Zé mesmo ferido
Escapou daquela ação
E dando um grito mortal
Subiu de punhal na mão
Lampião bateu na terra
Que o punhal cravou no chão.

Irritado o cangaceiro
Tentava achar espaço,
Respondeu para o roceiro:
– Tu desfaz desse cangaço,
Mas agora eu saberei
Se tu é mesmo de aço.

E nisso ligeiramente
De sua arma sacou,
Mirando para o rapaz,
Disse: – Agora acabou
Depois arrochou o dedo,
Mas o revolver engasgou.
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Abismado, o Zé do Aço
Olhando aquilo sorriu
Sabia que na verdade
A Mão Divina interviu,
Pois nem sequer uma bala
Daquela arma saiu.

Enquanto isso Lampião
De raiva quase morreu
Falou: – Essa munição
Nunca fez vergonha a eu,
Se não foi coisa do cão,
Foi bala que se venceu.

Pois de novo apontou
Outra arma para o Zé
Sofrendo aquilo de novo
O homem ficou de pé
E o bicho novamente,
Só batendo o catolé.

Lampião naquele instante
Disse: – Tu não me escapa,
Político tiro na tora,
Macaco mato é de tapa
E bruxo eu levo comigo
Na ponta da minha faca.
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Já que passaste no teste,
Tu darás um cangaceiro,
Um macumbeiro valente
Vale mais do que dinheiro,
Depois, serás um bandido
Falado no mundo inteiro.

Zé do Aço respondeu
Sua idéia é ruim,
Além da pouca bondade
Também ofende a mim,
Pois nunca fui vagabundo
Para seguir gente assim.

O capitão retrucou:
Só tendo tomado pinga
Por causa da teimosia
Vou torar tua mandinga
E arrastar nesse cavalo
Até chegar na caatinga.

Ele porém respondeu:
Nunca bebi nem licor
O fato é que na verdade
Você não sabe quem sou
Lampião disse: – É o diabo
Que Satanás enviou.
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Zé de repente falou:
– Meu nome trás um poder,
Sou Zé do Aço da Glória,
Osso duro de roer
Trago uma força divina
Que ninguém pode vencer.

Pois assim continuou
Traduzindo com beleza
A glória vem do Senhor,
O aço da Natureza
E Zé do pai de Jesus
Que tem a maior riqueza.

O cangaceiro valente
Diante dele parou,
Reconheceu no momento
Que algo errado topou,
Pois vendo o que nunca viu
Tristemente recuou.

Dali tratou de fugir
Correndo muito veloz
Se sumiu dentro do mato
Que nem um bicho feroz
Porque daquele sujeito
Odiava até a voz.
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Enquanto isso Zé do Aço,
Ali, ficava contente
Foi um cidadão criado
Num regime inteligente,
Pois nunca abriu sua boca
Pra dizer que era valente.

Dos tempos de Lampião
Lembro um passado real
Ainda tem cangaceiros
Em quase todo local
E muitos estão desfilando
Nas barbas do pessoal.

Assim termino o confronto
Duma história de ficção,
Envolvendo dois gigantes:
Zé do Aço e Lampião,
Um, cangaceiro real,
Outro, da imaginação.

2 pensou em “GRANDES MESTRES DO IMPROVISO E UM FOLHETO DE CANGAÇO

  1. Bravíssimo, generalíssimo señor!
    O señor Malta resolveu dar uma “aliviada” nos textos bem pesados que entraram nesta gazeta hoje. Aproveitemos!!!!

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