A PALAVRA DO EDITOR

Nesta semana a Petrobrás vendeu sua distribuidora de combustíveis, a BR.

Que maravilha, não é mesmo? O Estado ineficiente saiu e deixou que a eficiente iniciativa privada assumisse o controle da empresa. A Globo News aplaudiu, assim como todos os agentes do “mercado”. Agora todos seremos felizes para sempre.

Eu, como bom capitalista, também comprei um modesto lote de ações dessa mina de ouro. Aconselho aos leitores a comprar também. É um negócio que a médio prazo não tem como dar errado.

Mas, como patriota que sou, fico pensando: terá sido bom para o país? E para os consumidores de gasolina e diesel? Foi bom para eles também?

Vejamos alguns aspectos da transação: a Petrobrás arrecadou R$9,6 bilhões, o equivalente a mais ou menos US$2,5 bilhões. Só como comparação, este foi o valor que a AES pagou pela Eletropaulo que, cá entre nós, nem se compara em tamanho ou valor estratégico com a BR. O mercado de combustíveis e lubrificantes no Brasil é o terceiro maior do planeta, perdendo apenas para EUA e China. A Petrobras Distribuidora é líder neste mercado (37,6%) com mais de 8 mil postos de serviço, atuando também com as franquias de conveniência BR Mania e Lubrax+. No mercado B2B (empresas), seu portfólio inclui aproximadamente 14 mil grandes clientes, em segmentos como aviação, asfaltos, transporte, produtos químicos, “supply house” e energia.

A Petrobras Distribuidora foi a campeã da categoria “Atacado” na 45ª edição do prêmio “Exame Melhores & Maiores”, mais abrangente e detalhada análise das 1.000 maiores empresas do Brasil relativamente ao ano de 2017. A empresa também ganhou em 2018 o “Prêmio Época Reclame Aqui – As Melhores Empresas Para o Consumidor”, na categoria “Distribuidora/Postos de Combustíveis”, ou seja: além de grande a empresa é bem avaliada pelos consumidores. Mas não é só. A empresa também foi a vencedora na categoria Geral de Governança Corporativa e o destaque em Conselho de Administração na Área de Governança, na premiação “Empresas Mais 2018”, do jornal “Estado de S. Paulo”, realizada em setembro passado. No segmento de aviação, a empresa foi contemplada pelo seu programa de ecoeficiência “Aeroporto Verde” no 5º Prêmio Top Socioambiental e de RH, promovido pela Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB). Não deixa de ser curioso como uma estatal “ineficiente” ganha todos esses prêmios.

Quando a Petrobrás foi criada, em 1953, foi criado concomitantemente o monopólio estatal do petróleo. Por pressão internacional sobre Getúlio Vargas, o segmento de distribuição de combustíveis ficou fora do monopólio. Lembro que antes do primeiro choque do petróleo a distribuição era o segmento mais rentável da cadeia do petróleo e no México, por ocasião da criação da PEMEX, a distribuição também foi estatizada.

Até que, em 1960, alguém pensou: – bem, não é monopólio mas a Petrobrás não é impedida de disputar este mercado. E assim foi criada a BR Distribuidora, competindo com todas as outras distribuidoras que já existiam no país. Seu primeiro posto de serviços foi montado na recém fundada Brasília, em 1961, onde por muitos anos foi a única empresa a se interessar por aquele mercado incipiente. Em outras palavras: a BR sempre disputou mercado com outras empresas nacionais e multinacionais e sempre se saiu bem. Nada mal para uma estatal.

Aliás, quanto a isso, há um fato que sempre me intrigou. Como a BR consegue competir com as demais distribuidoras em atuação no Brasil e ainda apresentar lucros fabulosos. Lembro que a BR é a única distribuidora que atua nos mais remotos confins do país. Lá onde “Judas perdeu as botas” só existe posto BR. Será que os “gringos” da Shell (que só atua nas grandes capitais do país) ou os “brazucas” da Ipiranga e outras não sabem vender combustíveis? Ou será que a lucratividade dessas empresas é artificialmente menor para evitar pagar impostos? Fazer elisão fiscal é complicado para uma estatal, mas agora que ela é privada, algo me diz que observaremos um decréscimo em sua lucratividade.

Outro aspecto que me deixou intrigado: quanto foi pago pela marca BR? Todos sabemos que a marca é um ativo intangível valiosíssimo. A marca Coca Cola, por exemplo, vale mais que todos os bens físicos da empresa, o mesmo se dá com a Nike ou a Apple. A BR e o lubrificante Lubrax ganharam três prêmios na edição 2018 do “Top of Mind”, promovido pelo jornal Folha de São Paulo, na categoria “Combustível”, a BR teve 24% dos votos, à frente de Shell (13%) e Ipiranga (11%). Com toda propaganda negativa da mídia amestrada contra a Petrobrás, a empresa Interbrands avaliou em 2018 em R$3,07 bilhões o valor de sua marca. (em 2011, antes da LavaJato, este valor era de R$11,6 bilhões). Pois é leitor, com a venda da empresa na bolsa de valores a valor de mercado, a marca BR foi entregue para os compradores a custo zero.

Devemos observar também que a Petrobrás cedeu o controle da empresa. Não ficou nem com uma “Golden Share” para evitar qualquer loucura. Apenas como exercício intelectual, vamos supor que os novos donos da empresa resolvam fazer um “cartelzinho” com as outras empresas que são muito menores que ela. Evidentemente será um cartel informal. Quem vai impedir? Como estatal a BR podia regular o mercado com sua atuação. Antes a BR era uma garantia, agora será uma ameaça.

Quando se vende o controle de uma estatal, o Estado pode estabelecer algumas condições, como por exemplo, a empresa precisará comprar X% de seu suprimento no país. Da forma que foi feita a venda, pulverizada, não há como estipular nenhuma condição. Os novos donos estão livres de qualquer obrigação, podendo estipular o preço que quiser pela gasolina e pelo diesel assim como comprar no exterior todos os derivados de petróleo. Em outras palavras, todas as refinarias nacionais ficaram reféns deste gigante. Todos sabem que o governo está forçando a Petrobrás a vender suas refinarias. Agora já sabemos quem vai comprá-las e que o preço será uma pechincha. Alguém duvida?

Bem, como disse antes, recomendo a todos comprar ações da BR. Não só é um bom negócio como também é a única forma de não sentirmos raiva toda vez que formos abastecer o carro.

Agradeço ao outro dinossauro nacionalista, André Motta Araújo, pela inspiração

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