CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

CHÁ DA MEIA NOITE

Os boatos existiram intensamente durante a pandemia de Gripe Espanhola em 1918 no Brasil! É impressionante como a história se repete e o povo, mesmo com a tecnologia avançada, continua o mesmo.

Os hospitais superlotados com pacientes graves, enfrentaram os boatos de que para desocupar leitos era oferecida substância em bebida venosa aos pacientes.

O agravante é que nestes tempos mais modernos, partem de pessoas com formações e cargos incompatíveis com o ato de promover notícias falsas.

“Cada médico tinha uma “tentativa” de explicação diferente; nós não sabíamos no quê e em quem acreditar. Esperávamos por uma explicação que ninguém tinha para dar, como até hoje esperamos para saber…”

Afirmava-se que um médico havia produzido “o chá da meia noite” com finalidade de criar vagas disponíveis nos poucos hospitais existentes para atender uma demanda muito alta. “Divulgavam que o governo mandou produzir caixas e mais caixas do chá para ajudar a evacuar leitos ocupados por enfermos já sem condições de cura“.

Mesmo com extrema dificuldade para se conseguir um leito, os pacientes evitavam o seu internamento, até com risco de vida. Recusavam-se a ir a hospitais e preferiam ficar em casa se tratando através de remédios caseiros, como a pinga com limão, água quente com limão, canela com mel e outras, que por incrível que pareça são as mesmas de cem anos passados indicadas para o Covid19.

“O combate da Influenza de drogas como o Maleitosan que tanto o haviam popularizado como um remédio próprio para o combate à malária”. Os “espanholados”, como eram chamados os portadores da gripe, queriam passar longe dos hospitais. Caracterizava-se como apologia a eutanásia (antecipar a morte) dos incuráveis ato que é crime pelas leis brasileiras.

“A história fake passou a fazer parte da cultura popular e virou música e carro alegórico no Carnaval de 1920”. Só falta para ser igual, que se repita na festa do rei Momo em 2021.

Na época o Sistema de Saúde era muito rudimentar e deficitário fazendo com a pandemia atingisse enormes proporções! “Pelas ruas de São Paulo e Rio de Janeiro, cidades mais afetadas pelo desastre da saúde, eram centenas de corpos deixados nas ruas para que mutirões da polícia e de serviços sanitários recolhessem os cadáveres.

Era um verdadeiro cenário apocalíptico”. A população mais pobre sofria ainda mais com a doença, pois não existiam hospitais públicos, exceto as Santas Casas abarrotadas. Graças ao SUS (Sistema Único de Saúde), o quadro com covid19 está grave, mas seria muito maior o desastre na mortalidade da população brasileira.

O maior suporte para os pacientes de Gripe Espanhola, foi justamente a Santa Casa, pois os mais pobres estavam integralmente ocupando os leitos como pacientes mais graves. Os mais abastados fizeram isolamento em fazendas, casas nas montanhas e praias. Assistência em casa quando doente.

O “chá da meia noite” ficou conhecido e entrou no fato histórico da pandemia de Gripe Espanhola, principalmente nas Santas Casas. As freiras, servas de Deus, sempre estiveram presentes em todas histórias de quando principalmente os pobres dela precisaram.

O fato do boato ter sido referenciado como criação de um “médico”, o chá sempre foi ofertado aos pacientes pelas freiras. Injustiçadas pelas calúnias de obter os leitos dos moribundos, continuaram se dedicando de corpo e alma ao bem estar do ser humano. Todas estas atribulações foram vencidas pela fé no Senhor Deus e práticas constantes da caridade.

Dedicação como enfermeiras, administradoras e executoras de todo serviço objetivando o bem estar de todos.

As crises financeiras da Instituição, transformaram-nas em “multiplicadoras do pão e peixe”, como Cristo, para que o alimento pudesse contemplar a todos. Sempre identificavam os mais desnutridos para complementar a parca refeição que as vezes eram servidas.

Aos mais debilitados e críticos, reunidos na enfermaria, ofereciam um pequeno lanche às 21h. Como se tratava de alojamento de pacientes mais graves, era uma tendência esperada de haver mais óbitos ocasionados pela doença de base, câncer, acidentes vasculares cerebrais extensos e na maioria das vezes associada à idade avançada.

O horário foi atrasando por questões do tempo de preparo e distribuição por poucas pessoas, e passou a ser servido próximo da zero hora. Ou seja: meia noite.

Começaram a perceber que quase sempre morria alguém durante a madrugada. Em uma das noites um paciente falou que não queria comer nada. Vários repetiram a mesma frase.

A irmã perguntou ao mais combalido: por que não quer comer? A resposta foi tão baixinha que ela não ouviu. A irmã: Fale mais alto. Não estou ouvindo! O paciente, gritou alto no pavilhão:

A Sra. quer me dá o “Chá da Meia Noite!”. Quero não! Aproveite e ore por mim.

Morreu mesmo assim, sem comer o lanche.

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