ARISTEU BEZERRA - CULTURA POPULAR

“O senhor… mire, veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam, verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra de montão.”

“Olhar para trás após uma longa caminhada pode fazer perder a noção da distância que percorremos, mas se nos detivermos em nossa imagem, quando a iniciamos e ao término, certamente nos lembraremos o quanto nos custou chegar até o ponto final, e hoje temos a impressão de que tudo começou…”

“Só se pode viver perto do outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.”

“O correr da vida embrulha tudo; a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. Ser capaz de ficar alegre e mais alegre no meio da alegria, e ainda mais alegre no meio da tristeza…”

“Penso que chega um momento na vida da gente, em que o único dever é lutar ferozmente, por introduzir, no tempo de cada dia, o máximo de eternidade.”

“Tudo, aliás, é a ponta de um mistério, inclusive os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo.”

“Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é.”

“Por esses longes todos eu passei, com pessoa minha no meu lado, a gente se querendo bem. O senhor sabe? Já tenteou sofrido o ar que é saudade? Diz-se que tem saudade de ideia e saudade do coração…”

“A gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesmo nunca se deve de tolerar ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente; falta de soberania, e farta bobice, e fato é .”

“O certo era a gente estar sempre brabo de alegre, alegre por dentro, mesmo com tudo de ruim que acontecesse, alegre nas profundezas. Podia? Alegre era a gente viver devagarinho, miudinho, não se importando demais com coisa nenhuma.”

“Sigo a risca, me descuido e vou. Quebro a cara, quebro o coração. Tropeço em mim. Me atolo nos sentidos. Viver não é perigoso? Então com sua licença, nasci assim. Encantado pela vida.”

“Ando a ver. O caracol sai arrebol. A cobra se concebe curva. O mar barulha de ira e de noite. Temo igualmente angústias e delícias. Nunca entendi o bocejo e o pôr-do-sol. Por absurdo que pareça, a gente nasce, vive, morre. Tudo se finge, primeiro; germina autêntico é depois. Um escrito será que basta? Meu duvidar é uma petição de mais certeza..”

“Deus nos dá pessoas e coisas, para aprendermos a alegria… Depois, retoma coisas e pessoas para ver se já somos capazes da alegria sozinhos… Essa… a alegria que ele quer.”

“Viver é muito perigoso… Porque aprender a viver é que é o viver mesmo… Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e abaixa… O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra.”

“Afinal, há que ter paciência, dar tempo ao tempo. Já devíamos ter aprendido, e de uma vez para sempre, que o destino tem de fazer muitos rodeios para chegar a qualquer parte.”

“Hoje, temos a impressão de que tudo começou ontem. Não somos os mesmos, mas somos mais juntos. Sabemos mais um do outro. E é por esse motivo que dizer adeus se torna tão complicado. Digamos, então, que nada se perderá. Pelo menos, dentro da gente.”

“Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total.”

“Mãe, o que é que é o mar, mãe? Mar era longe, muito longe dali, espécie duma lagoa enorme, um mundo d’água sem fim, mãe mesma nunca tinha avistado o mar, suspirava. Pois. mãe, mar é o que a gente tem saudade?”

“Qual o caminho da gente? Nem para frente nem para trás: só para cima. Ou parar curto quieto. Feito os bichos fazem. Viver… o senhor já sabe: viver é etcétera.”

“Sempre que se começa ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na ideia, querendo e ajudando, mas quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota depois.”

“Tudo, aliás, é a ponta de um mistério, inclusive os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo.”

Guimarães Rosa (1908 – 1967) foi um dos mais importantes escritores brasileiros do modernismo, além de ter seguido a carreira de diplomata e médico. Foi o terceiro ocupante da cadeira nº 2 da Academia Brasileira de Letras (ABL), em 1967. Os contos e romances escritos por Guimarães Rosa ocorreram quase todos no chamado sertão brasileiro. A sua obra destaca-se pelas inovações de um palavreado popular e regional que, adicionado à erudição do autor, permitiu a criação de vários vocábulos.

9 pensou em “FRASES E REFLEXÕES DE GUIMARÃES ROSA

  1. Marcos Augusto,

    Fico alegre em receber seu comentário, principalmente, nesses tempos de pandemia e de isolamento social. Muitas vezes fico imaginando as nossas conversas sobre assuntos diversos e sempre aprendendo um com o ouro. A seleção de frases de Guimarães Rosa é um tributo a um dos maiores talentos da literatura brasileira de todos os tempos.
    Guimarães Rosa escreveu contos, novelas, romances. Muitas de suas obras foram ambientadas pelo sertão brasileiro, com ênfase nos temas nacionais, marcadas pelo regionalismo e mediadas por uma linguagem inovadora (invenções linguísticas, arcaísmo, palavras populares e neologismos).
    Rosa foi um estudioso da nossa cultura popular. Sua obra que merece maior destaque e por ter sido a mais premiada, é “Grande Sertão: Veredas”, publicada em 1956 e traduzida para diversas línguas.
    Sobre seus escritos, o próprio autor afirma:
    “Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranquilos e escuros como o sofrimento dos homens.”

    Saudações fraternas,

    Aristeu

  2. Em um livro do saudoso Antonio Carlos Villaça, li que, eleito para a ABL, Guimarães Rosa relutava em tomar posse, dizendo “se tomar posse eu morro”. Num certo dia resolveu tomar posse,
    Três dias depois morreu, falando ao telefone.

    • José Júlio Trocado,

      Grato por seu comentário com uma informação correta sobre o autor de “Grande Sertão: Veredas” . Guimarães Rosa era bastante supersticioso e que era tomado por um sentimento de urgência quando começava um novo livro. Ele temia morrer antes de completar o trabalho. Guimarães Rosa também receava assumir a cadeira na Academia Brasileira de Letras. Adiou a posse em quatro anos, porque não lhe parecia de “bom agouro” o ingresso à imortalidade. Três dias depois de entrar para a ABL, seu coração falhou.
      Compartilho três frases de Guimarães Rosa com o prezado leitor fubânico:

      1) ”…digo. Esta vida está cheia de ocultos caminhos. Se o senhor souber, sabe; não sabendo, não me entenderá.”

      2) “Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo o rio… uma só para mim é pouca, talvez não me chegue.”

      3) “Pouco se vive, e muito se vê… – Um outro pode ser a gente; mas a gente não pode ser um outro, nem convém…”

      Saudações fraternas,

      Aristeu

  3. Parabéns pela rica postagem, prezado Aristeu Bezerra! O tema “FRASES E REFLEXÕES DE GUIMARÃES ROSA” é um precioso presente que você deu aos leitores, neste início de semana.

    João Guimarães Rosa foi um escritor, diplomata, novelista, romancista, contista e médico brasileiro, considerado por muitos o maior escritor brasileiro do século XX e um dos maiores de todos os tempos.
    Das reflexões desse grande escritor, selecionadas por você, destaco:

    “O correr da vida embrulha tudo; a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. Ser capaz de ficar alegre e mais alegre no meio da alegria, e ainda mais alegre no meio da tristeza…”

    Um grande abraço! Muita Saúde e Paz!

    Violante Pimentel Natal (RN)

    • Violante,

      Grato por seu estimulante comentário. A leitura de Guimarães Rosa requer muita paciência do leitor devido ao palavreado regional e popular, entretanto a qualidade
      dos volumes editados foram suficiente para revolucionar nossa literatura. Quem procurar pela bibliografia de Guimarães Rosa talvez possa se enganar no que diz respeito ao volume de sua produção. São apenas cinco livros publicados em vida e três póstumos. Estreia com Sagarana, em 1946, reaparece dez anos depois com Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas e termina, na década de 1960, com Primeiras Estórias e Tutaméia. Após a morte, são editados Estas Estórias, Ave, Palavra e Magma, sendo os dois últimos procurados, em larga medida, mais por pesquisadores que por leitores não especializados.
      Compartilho três frases do talentoso Guimarães Rosa com a prezada amiga:

      1) “Eu sou é eu mesmo. Divirjo de todo o mundo… Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. O senhor concedendo, eu digo: para pensar longe, sou cão mestre – o senhor solte em minha frente uma ideia ligeira, e eu rastreio essa por fundo de todos os matos, amém!.”

      2) “Vou ensinar o que agorinha eu sei, demais: é que a gente pode ficar sempre alegre, alegre, mesmo com toda coisa ruim que acontece acontecendo. A gente deve de poder ficar então mais alegre, mais alegre, por dentro.”

      3) “Adianta querer saber muita coisa? O senhor sabia, lá para cima – me disseram. Mas, de repente chegou neste sertão, viu tudo diverso diferente, o que nunca tinha visto. Sabença aprendida não adiantou para nada… Serviu algum?”

      Saudações fraternas,

      Aristeu

      • Obrigada por compartilhar comigo, essas frases preciosas do grande Guimarães Rosa, prezado Aristeu! Adorei as frases e o seu inteligente comentário sobre as obras literárias que ele escreveu.

        Grande abraço!

  4. Aristeu,
    Ótima leitura para enriquecer nosso conhecimento e cultura.

    “Hoje, temos a impressão de que tudo começou ontem. Não somos os mesmos, mas somos mais juntos. Sabemos mais um do outro. E é por esse motivo que dizer adeus se torna tão complicado. Digamos, então, que nada se perderá. Pelo menos, dentro da gente.”
    Que tenhamos uma semana de paz!
    Fraterno abraço!
    Carmen.

  5. Carmen,

    Muito obrigado por prestigiar o tributo ao autor de “Grande Sertão: Veredas”. Guimarães Rosa é considerado o maior escritor brasileiro do século XX, produziu contos, novelas e romances conhecidos pelo exímio trabalho com a linguagem. “Reinventando” a língua portuguesa, Rosa construiu novos vocábulos que a libertam de sua função meramente utilitária, recuperando a linguagem poética. Aproveito esse espaço democrático do Jornal da Besta Fubana para compartilhar três frases desse genial escritor mineiro com a prezada amiga:

    1) “O passado é que veio até mim, como uma nuvem, vem para ser reconhecido; apenas não estou sabendo decifrá-lo.”

    2) “E, outra coisa, o Diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro – dá gosto! A força dele, quando quer me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho, assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza.”

    3) “Se a gente puder ir devagarinho como precisa, e ninguém não gritar com a gente para ir depressa demais, então eu acho que nunca que é pesado.”

    Saudações fraternas,

    Aristeu

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