FRANCISCO SOBREIRA – NATAL-RN

É A VIDA, É A VIDA

Eu os via toda semana num supermercado, empurrando o carrinho, ou de mãos dadas enquanto caminhavam para fazer as compras. Ele muito gordo, meão, o rosto sisudo que não irradiava simpatia, que parecia se acentuar com o uso de óculos. Ela nem magra, nem gorda, mais alta do que ele, e, se a boca não estivesse sempre prestes a anunciar um sorriso, não era cerrada, como a do marido. Não formavam um casal bonito, mesmo, presumo, de quando jovens, mas a mulher, apesar da passagem dos anos, conservara o porte esbelto ao andar e uma certa elegância, que faltava a ele. Caminhavam conversando em voz baixa, e nunca percebi, ainda que discretamente, que estivessem discutindo por alguma coisa.

E um dia o vi sozinho. Supus que ela ficara em casa, presa por alguma doença sem gravidade – uma gripe, ou um simples resfriado. Mas já estranhei quando, na semana seguinte, ele de novo apareceu sozinho. E assim sucedeu daí para frente.

Passou-se, passou-se, passou-se, eis que numa noite depois de jantar, conversando com a minha companheira de anos sem conta, enquanto aguardávamos o início do telejornal, soube que a mulher estava sofrendo do Mal de Parkinson. E aqui preciso dizer que o casal mora na rua ao lado da minha. Da janela do meu quarto vi muitas vezes o homem no portão da casa, barrigão nu, sozinho, ou conversando com alguém. Em diversas ocasiões vi o carro dele chegando ou saindo. Em sua caminhada diária, minha mulher passa na calçada da residência do casal e quase sempre encontra a empregada, que lhes serve desde jovem. Dos cumprimentos iniciais, passaram a manter um contato, e conversa vai, conversa vem, aflorou a informação da enfermidade da patroa.

Continuei a ver o homem solitário no supermercado, me parecendo cada vez mais carrancudo. E, de repente, ele também deixou de aparecer. Foi quando soube que estava internado num hospital com uma doença grave. E lá mesmo se finou poucos dias depois.

E o que passei a ver através da minha janela? A senhora, que via sempre ao lado do marido, andando com uma certa desenvoltura para a idade, passou a caminhar a passo de tartaruga por um trecho da calçada, amparada por uma enfermeira. Já ontem, a vi numa numa cadeira de rodas, que a mesma moça empurrava; e pensei que, não fazia tanto tempo assim, ela, sem grande esforço, empurrava o carrinho de compras. Já quase não conhece os filhos, nem a antiga e dedicada empregada. Pior: nem tem ideia de que o companheiro, de quase toda uma vida, partiu para sempre.

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