CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

COMO ESCREVER MAL

“É evidente que a explicação técnica das estruturas de dominação, no caso dos países latino-americanos, implica estabelecer conexões que se dão entre os determinantes internos e externos, mas essas vinculações, em que qualquer hipótese, não devem ser entendidas em termos de uma relação ‘casual-analítica’, nem muito menos em termos de uma determinação mecânica e imediata do interno pelo externo. Precisamente o conceito de dependência, que mais adiante será examinado, pretende outorgar significado a uma série de fatos e situações que aparecem conjuntamente em um momento dado e busca-se estabelecer, por seu intermédio, as relações que tornam inteligíveis as situações empíricas em função do modo de conexão entre os componentes estruturais internos e externos. Mas o externo, nessa perspectiva, expressa-se também como um modo particular de relação entre grupos e classes sociais de âmbito das nações subdesenvolvidas. É precisamente por isso que tem validez centrar a análise de dependência em sua manifestação interna, posto que o conceito de dependência utiliza-se como um tipo específico de ‘causal-significante’ – implicações determinadas por um modo de relação historicamente dado e não como conceito meramente ‘mecânico-causal’, que enfatiza a determinação externa, anterior, que posteriormente produziria ‘consequências internas'”.

Essa “pérola”, entre muitas outras, faz parte do livro “Dependência e Desenvolvimento na América Latina” (em sexta edição, a primeira em 1969), de Fernando Henrique Cardoso, pinçada por Millor Fernandes. Se os amigos que por aqui vêm com frequência não entenderam o que o empavonado ex-presidente quis dizer neste pequeno texto, não fiquem preocupados, pois o Millor, que, heroicamente, passou o livro nos peitos, também não alcançou o tão alto grau de inteligência daquele senhor. Na verdade, o que se observa, nessa pequena mostra, é a mão de chumbo, é a ruindade da pena (no sentido do objeto com que antigamente se escrevia), enfim, a má escrita de FHC, deficiência que o notável pensador e humorista foi o primeiro a revelar aos quatro ventos através de sua seção no Jornal do Brasil.

Ele investia pesado também nas frases que FHC dizia, nas quais enxergava muito mais bobagem do que consistência, frases, aliás, que esse protótipo da vaidade e do egocentrismo segue produzindo quase diariamente sobre a situação do país, sob o abrigo de alguns puxa-sacos que militam na grande imprensa. E não só bobas, mas às vezes ofensivas, como ao rotular os aposentados de “vagabundos” e dizer que “os brasileiros eram todos caipiras”.

Bem fez Jânio Quadros quando desinfetou a cadeira de prefeito de São Paulo com um bomba Flit, na qual FHC sentara a bunda . Deixara-se fotografar, na véspera do pleito, como futuro ocupante da cadeira, mas acabou derrotado pelo próprio Jânio, de quem dizia ter se tornado “um fantasma que não metia mais medo em ninguém”. Ah, é?

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