A PALAVRA DO EDITOR

Faminto e na dúvida, o homem pergunta. O mundo tem de fome de que? De muitas coisas. Pelos cenários divulgados pela mídia e nas redes sociais, podemos ter certeza. A humanidade tem fome de muitas coisas. Sente necessidade de saciar muitos sonhos e desejos físico e mental. Por isso expressa abertamente. Não se envergonha de demonstrar. A pessoa, não importa a nacionalidade, raça e escolaridade, tem fome de estômago, de aspiração, poder, riqueza, vaidade, egoísmo, ódio, auxílio, estímulos, progresso, paz, compreensão, livros, musical, tranquilidade e, sobretudo vontade de viver em harmonia com o próximo. Uma das maiores variedades de fome que a gente sente é a fome do coração. A ansiedade em dividir sorrisos, em vez de raiva. O rancor e o radicalismo endoidecem a pessoa. Dificulta a vontade de trocar a fisionomia de cara fechada por uma expressão facial de alegria e satisfação que seja agradável e aceita por todos. Independente de raça, credo, pontos de vista e status social.

No entanto, o pior tipo de fome que perturba a humanidade é a fome da subnutrição. Outro tipo de fome fuderoso é a fome da desnutrição. Subnutrida, a pessoa enfraquece o corpo e a alma, chamando a morte que ronda pelas redondezas, de plantão. A alma de quem tem fome, pena sem encontrar o Norte da vida. O corpo, frágil, debilitado, é atacado por doenças. Também por conta do desânimo físico, o trabalhador perde o vigor produtivo. Por não ingerir a quantidade mínima diária de calorias, cresce a quantidade de pessoas com necessidade de comer. Os registros indicam que, nos países em desenvolvimento, mais de 800 milhões de pessoas passam fome. Não tem o que comer. A mesa, desumana, não tem nem frutas e hortaliças para aliviar a barra das necessidades físicas. Apesar da existência de 600 milhões de fazendas agrícolas espalhadas pelo mundo, muitas dependem de condições climáticas para produzir e distribuir alimentos em geral. Porém, misturada com as 7 bilhões de pessoas da população mundial, a pobreza não dispõe de canto para armazenar alimentos. Então, na falta de dinheiro, os filhos choram de barriga vazia. Outro fator que alimenta a fome mundial é o desperdício. Em 2016, das 4 bilhões de toneladas de comida colhida, mais de um bilhão de toneladas, foram para no lixo. Estragadas. Impróprias para o consumo.

No Brasil, a fome é um processo crônico. Segundo levantou o IBGE em pesquisa, mas de 7 milhões de brasileiros passam fome, embora o país seja gigante em extensão territorial e no potencial agrícola. No entanto, devido a desigualdade social, grande número de latifúndios rurais, geralmente direcionados apenas à produção de grãos para alimentar a família e a riqueza, a concentração de fazendas em poder dos poucos ricos, herança da colonização, algumas propriedades são direcionadas exclusivamente à monocultura para exportação. Embora a agricultura brasileira tenha evoluído, graças aos avanços econômicos e uso de máquinas no campo, a fome cresce no país. A pequena renda proíbe mais de 5 milhões de pessoas de comer. Sonhar em matar a fome. Enquanto outro contingente maior de pobres não come o mínimo necessário diariamente. Aí, sem ingerir nutrientes, proteínas e calorias em quantidade suficiente, o corpo definha. A década de 80 foi terrível. O Norte e o Nordeste sofreram barbaridade. No Amazonas, Pará, Maranhão, onde mais da metade da população é de pobres, e no Piauí, onde a extrema pobreza se acentua, o drama é de fazer chorar. Lamentável, o Brasil alimenta muitas crianças no período das aulas, no entanto, durante as férias escolares, as crianças passam a pão e água. Sem entender o porquê da diferença. Embora, a gente saiba a verdade. Sem aula, a criança pobre perde a alimentação gratuita fornecida pela escola.

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Tristeza, a cada década a população de boto vermelho diminui. Os dados constam de estudos, polêmicos, realizados pelo Projeto Boto do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). A pesquisa revela que a espécie entrou na lista de alto risco de extinção em seu próprio habitat. O Parque Nacional de Anavilhanas, no Amazonas, onde, entre ilhas, lagos, igarapés, plantas e animais silvestres, o mamífero aquático é rei.

Diversos problemas contribuem para o desaparecimento do boto vermelho, um dos maiores símbolos do turismo amazônico. A poluição de rios por mercúrio que contaminam águas e peixes, a pesca predatória, a captura em redes de pesca, as represas que impedem a reprodução do golfinho e, principalmente depois que o cetáceo passou a servir de isca para a pesca da piracatinga no município de Novo Airão, Amazonas.

A piracatinga é um peixe necrófago, que se alimenta da carne de animais mortos. Como o amazonense não gosta de sua carne, o pescado, com pesca proibida no Brasil, é exportado para a Colômbia, onde é bem vendido. O boto vermelho ou cor de rosa é o maior golfinho de água doce. No Brasil, a espécie é exclusiva da Amazônia. Entroncado, flexível e doce com as pessoas, o boto vermelho é o símbolo da região. Mas, pena que esteja em extinção. Prestes a desaparecer do convívio com as pessoas.

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Num país sério, isto não ocorreria. Descoberta a falha, o pau cantava nas costas dos incompetentes gestores. Mas, no Brasil, desordenado por conta de constantes desacertos administrativos, tudo é possível. A rebordosa só sobra para a sociedade. A Universidade Estadual do Rio de Janeiro-UERJ, considerada a quinta maior do país e a 11ª da América Latina, teve de suspender o ano letivo de 2017, por tempo indeterminado. Motivo, crises. Como não houve entendimento nas negociações entre o governo do Estado e os dirigentes da instituição, apesar de várias manifestações públicas para chamara atenção sobre a péssima situação financeira da Uerj, o jeito foi paralisar as aulas por tempo indeterminado.

Faltaram recursos para pagar os salários dos servidores, já atrasados, quitar as bolsas de alunos cotistas, saldar as dívidas com empresas terceirizadas. Aliás, com o caixa zerado, a UERJ foi forçada até a fechar o Restaurante Universitário, deixando os alunos sem refeições. É triste uma universidade fechar as portas, embora temporariamente, suspender as aulas por se achar sem a mínima condição de enfrentar a grave crise, considerada na opinião de alunos e professores, a pior de sua história. Por conta dessa lamentável decisão, o vestibular que aconteceria logo depois, foi prejudicado. De 37 mil vestibulandos inscritos, somente 33 mil fizeram as provas. A abstenção chegou a 10%. Do valor orçamentário de R$ 1,1 bilhão para 2016, a Uerj só recebeu 767 milhões de reais. Este é o retrato da pouca importância que os gestores dispensam à educação, do grau fundamental, médio ao universitário do país.

Embora a Universidade Estadual do Rio de Janeiro exista desde 1950, não escapou de crise financeira. Vítima da grave crise fiscal do Estado. Situação que rola desde 2016, quando foi revelado um monstruoso déficit de caixa de bilhões de reais. Também do programado orçamento de R$ 1,1 bilhão, referente a 2017, a Uerj só recebeu R$ 420 milhões. Valor menor do que a metade planejada. Então, sem recursos para tocar o barco pra frente, o jeito foi dar uma parada para tentar colocar as dívidas em dia. Daí a razão dos hospitais oficiais encontrarem-se sucateados. Sem a mínima condição de renovar os contratos com as empresas prestadoras de serviços. Até o turismo fluminense derrapa na omissão de gestores que deixaram fabuloso endividamento com a realização das Olimpíadas de 2016.

Sem condições de administrar a gravidade da absurda situação, sob a alegação de queda na arrecadação do ICMS, baixo recebimento de royalties recebido pela exploração do petróleo e concessão de renúncia fiscal entre 2008/2013, no total de R$ 138 bilhões, a única saída foi decretar o estado de calamidade pública para o Rio de Janeiro. Esdrúxula decisão que, além de afetar a universidade, também meteu a segurança pública, a saúde, educação menor, mobilidade e, inclusive a gestão ambiental. Calamidade que podia ser evitada, caso os órgãos fiscalizadores, Legislativo e Tribunal de Contas do Estado não negligenciasse na vigilância. No levantamento do rombo do Rio de Janeiro que, naquele ano, fechou em R$ 19 bilhões. Colocou muitas dessas autoridades na cadeia por desonestidade e incompetência.

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