JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

Durante anos eu convivi com uma tristeza crônica enquanto outros curtiam a euforia decorrente das festividades natalinas. Isso, a partir dos meus 40 anos de idade. Sentia mais tristeza no Dia da Natividade do que no Dia de Finados.

Depois de carregar silente, por um bom tempo, o peso incômodo dessa inversão emocional, eu resolvi dar um basta na exibição anual do meu filme triste procurando as razões de ele ser projetado como um conto de Natal às avessas.

Ao descobrir não constituir o único a ficar acabrunhado no limiar de cada ano, pude melhor administrar a peculiaridade do transtorno. Tentei assumir uma nova postura para melhor participar das comemorações do Natal e do Ano-novo, se não com a alegria esperada, pelo menos com entusiasmo moderado.

A tristeza, o estresse, a depressão e o agravamento de doenças são comuns nessa época do ano. O Natal evoca lembranças da infância que não se viverá novamente e traz à tona fatos passados que deixaram tristes recordações.

No período das festividades de final de ano é quando resolvemos analisar os relacionamentos familiares: se estão bons ou em deterioração, ou se deles somente restam mágoas. A proximidade do final de cada ano aumenta a expectativa em torno da recuperação de afetos perdidos e de concretizações de expectativas futuras.

Essa tristeza ocorre também em pessoas que colocam muitas esperanças no ano seguinte, acreditando que tudo será diferente. Isso acarreta um aumento de ansiedade, contribuindo para a época ficar menos prazerosa para muitos.

O final do ano evoca sentimentos relacionados à nossa história e ao passado. Ele nos reporta ao tempo em que esperávamos o Natal e o Ano-novo para receber presentes e confraternizar com parentes e pessoas próximas. Torna-se mais difícil ao aflorar a lembrança de entes queridos ausentes ou falecidos. Aí não tem como deixar de sentir saudade de momentos salutares inesquecíveis na existência de cada um.

Sem dúvida, grande parcela da tristeza na época do Natal é alimentada pelas recordações de pessoas amadas que partiram de vez. É o momento que melhor traduz esse sentimento de perda. Basta um olhar sobre a mesa com a culinária da época e notar os presentes sob a árvore de Natal para incitar as lembranças.

Então explode a vontade de retornar ao tempo em que a casa ficava repleta de familiares, com as crianças pequenas e a alegria contagiante da festividade. A recordação comedida é salutar, porém, trocar momentos bons do presente por lembranças doloridas pretéritas é querer transformar o Natal-Alegria no Natal-Finados.

É o desejo velado de vivenciar o Natal com pensamentos voltados para as perdas e não para os ganhos. Tamanha preocupação faz esquecer o encanto e a alegria das crianças com o Papai Noel e o deslumbramento da festa. Retrai-se a satisfação de estar rodeado da família aproveitando a presença de vivos queridos para exaltar a lembrança de mortos estimados.

O Natal é nascimento e um tributo à infância e às mães. Porém não se restringe a isso. Não é apenas um momentâneo espasmo de generosidade e de bondade. Não é somente a ocasião para uma oração rápida, uma palavra bonita, para comidas, bebidas e festas.

O verdadeiro espirito do Natal é festejar a chegada do Filho de Deus entre nós, mandado para perdoar as falhas dos homens e lhes mostrar o caminho da salvação. Em síntese: o Natal não é um filme triste; o Natal é uma película alegre de exaltação ao amor.

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