MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

Desde a confirmação do covid-19 aqui no Brasil que nós passamos, ao que parece, para a nova etapa, como se fosse um vídeo game, mas sem pontos acumulados e com vidas perdidas. Não bastasse o tormento ameaçador do desemprego, veio a saída barulhenta de Moro do governo e um monte de revelações absolutamente estranhas, tais como o fato de ter gravado conversas com o presidente. Isso criou uma rede de conspiração que vai se estender até 2022 com a eleição presidencial.

Para além da saída de Moro, precisamos enxergar outros pontos fundamentais. O primeiro recai sobre o interesse de Bolsonaro em trocar Valeixo e, pela mensagem exposta, querer apenas a superintendência do Rio de Janeiro. A dedução mais rápida é a proteção dos filhos, mas isso pode se estender para investigação contra aliados, contra adversários ou contra a majestosa Rede Globo. O sentimento que tenho é que Bolsonaro sabe mais do que deixa transparecer.

Numa sequência de fatos vem a nomeação de Ramagem e o diferimento de uma liminar, numa decisão monocrática, de Alexandre de Morais suspendo a posse. Uma ação fora de todo princípio legal porque ela se baseou em ações futuras do, então, nomeado. Alexandre de Morais viu desvio de conduta num cara que não responde processo, não é investigado, nada. Por uma amizade e uma foto ele deduziu que o cara iria cometer crimes. Vai ser bom assim na casa da puta que o pariu. O desgaste só aumentou a fragilidade da relação entre poderes. Até Marco Aurélio chegou a pedir que decisões semelhantes não deveriam ser monocráticas. Ele está certo. O STF é um colegiado e não pode ficar à mercê da vontade individual de nenhum ministro.

Não dá pra esquecer, por exemplo, que o próprio Marco Aurélio soltou o assassino confesso da irmã Dorothy Stang ou que Gilmar Mendes soltou o cunhado de Beto e seu cunhado que aproveitou para fugir para o Líbano, ou que soltou, diversas vezes, o Rei do ônibus do Rio de Janeiro. Não dá para esquecer que o STF formou maioria contra a prisão em segunda instância. Não dá para fechar os olhos para as diversas intervenções do STF contra o executivo, algumas delas interferindo em atribuições exclusivas da presidência da república. A questão da lista tríplice, por exemplo, para determinados cargos, como a PGR ou reitores de universidades e institutos federais, foi desrespeitada por Temer na escolha de Raquel Dodge para o PGR. A escolha é prerrogativa do presidente. O IFRN, por exemplo, teve um reitor escolhido pela comunidade e o governo nomeou outro. O reitor preterido entrou na justiça e o STJ suspendeu a posse do reitor interino. Cabe dizer que nas instituições de ensino superior, não há uma eleição propriamente, mas uma consulta à comunidade. O fato é que o cara mais votado, submete ao conselho universitário nomes que serão votados no conselho e daqui sai a tal lista tríplice. Nessa lista tem nome de pessoas que não participaram da consulta a comunidade. Isso é feito para garantir que o primeiro seja indicado.

Como se não bastasse tudo isso, veio a declaração recente de Celso de Mello, de conduzir os depoentes, ministros militares, de forma “coercitiva ou debaixo de vara” é algo que extrapola o bom senso. Até onde sei, a condução coercitiva foi proibida por Gilmar Mendes a pedido do PT que ficou indignado com aquela condução de Lula para depor. Como resultado dessa sugestão de levar “debaixo de vara” há uma insatisfação natural por parte dos militares, aumentando a tensão entre os poderes. Não como negar que existe essa retração do STF em relação ao governo, mas o pior é incerto, pois Celso de Mello sai do STF em novembro desse ano.

A preocupação, pelo menos a minha, é do que esse “juiz de merda”, como designou Saulo Ramos, tem 174 dias ou 4.176 horas pra fazer o que quiser no STF. Cada hora que ele passar lá vai provocar a sensação de estarmos sentado à beira de um vulcão. Celso de Mello, o juiz de merda, pode começar, literalmente, a feder. Ele não vai perder a oportunidade de apagar o fogo jogando gasolina.

O que resta é torcer para que os poderes entrarem num entendimento em busca da governabilidade. Bolsonaro tem se aproximado de figuras nefastas em busca de sustentabilidade contra ação de impeachment. Isso enfraquece a proposta do governo em relação ao tema corrupção e dá margens para que a esquerda aproveite a fragilidade e procure crescer, embora meu sentimento é que quem votou em Bolsanaro jamais votará num candidato de esquerda, principalmente, dentre as opções que estão aí. Para mudar vai ser necessário surgir alguém que não esteja contaminado. Alguém se habilita a sugerir um nome?

12 pensou em “FATOS E SUSPEIÇÕES

  1. Lamentavelmente, o que se vê ou lê-se no breu das tocas é que no país está surgindo uma nova facção denominada de BOZOPETISMO. Isso é o que podemos chamar de um FLA X FLU ideológico… Às vezes parece mais duas MANADAS que não chegarão a lugar algum.

    P.S.: – Isto nos faz lembrar as condenações do Seboso de Caetés. Ou seja, ha jurista que tem certeza absoluta que o sitio e o apartamento pertencem ao imundo petralha, mas ele foi condenado sem provas… Quem sabe não seja a mesma coisa do delegado que foi barrado no baile quando queria ser Diretor da PF, porém, amiguinho íntimo dos três marginais filhos do Capitão Caverna. E o que dizer do mais honesto do Brasil que queria ser ministro da Vaca Terrorista da Dilma, PARA QUÊ?!?!?!

  2. E daí somos levados a lembrar a estória do louco que em busca de uma notoriedade qualquer que satisfizesse sua ânsia de aparecer, fez cocô – a festejada merda no primeiro lavatório que encontrou, nas dependência daquele palácio.
    É isto que estamos vendo.
    O merda está procurando uma pia para se colocar, mas esta tem de ser estrategicamente colocada, para muita gente ver, dando razão ao Ministro Saulo Ramos.
    Só não pode ser como naquele episódio em que um bêbado teve uma forte diarreia e, como estava na beira de um mangue, descarregou sua produção nesse lamaçal e gritando para os caranguejos que corriam para se alimentar, afirmou: hoje, só de colher, pois é sopa…

    • Arael não tem como conviver com figuras tétricas como como esse STF. O presidente está atado e esses caras estão fazendo a esquerda voltar ao centro das decisões.b

  3. Caro Maurício, talvez v. tenha escrito sua coluna ontem (11/05) antes de ter acesso aos depoimentos do valeiro e do Delegado Superintendente da PF RJ.

    Ambos foram claros em dizer que JB jamais pediu nada que não fosse o estritamente legal para eles e que nunca houve interferência na PF.

    O Moro tem muitas explicações a dar sobre o que declarou em 24/04.

    Esta estória de que JB tenta proteger seus filhos é balela, narrativa furada, ou me diga o que os zeros são investigados para serem blindados.

    Quanto às Negociações com o Congresso. Mesmo após extinguir 20 cargos de confiança na adm federal, ainda existem mais de 100 mil de terceiro escalão.

    Ainda tem apaniguados do Geisel, do Sarney, do FHC e principalmente do PT quietinhos para não serem descobertos na adm federal..

    Se JB tirar estes caras, vai ter que preencher com outros e podem ser indicados por partidos aliados. Antes os nomes passam pela ABIN e são submetidos à CGU.

    Não é crime aceitar indicações de partidos para cargos de 3º escalão de partidos que são aliados.

    O Mandetta tentou aparelhar o MS e as coisas estão aparecendo agora. JB não tenta encobrir nada.

    • Na verdade tinha escrito no dia da decisão de Celso de Mello, mas tivemos o breve recesso e atualizei ontem. Veja, só se dá cargo a simpatizantes. Qual o sentido teria colocar na PF um petista? Ficaria sempre a dúvida no vazamento de informações. A lei é clara sobre a competência do presidente em nomear. Agora, Bolsonaro está tensionando essa corda. Agora, respondendo a seguidores (ou falsos).

  4. Excelente texto, Maurício. Claro, objetivo, racional, sem fanatismos.

    Quanto à sua pergunta do último parágrafo, basta lembrar quantos dos últimos presidentes eram cogitados (nem digo favoritos) dois anos antes da eleição: Collor era desconhecido; FHC perdeu a eleição para prefeito em SP e era “pé-frio”; Bolsonaro em 2016 era apenas um deputado folclórico.

    Se meu palpite vale alguma coisa, elegeremos outro “salvador da pátria” que prometer milagres, como sempre fizemos nos últimos setenta e cinco anos, desde o fim da ditadura Vargas. Ainda é cedo para saber quem será.

  5. Marcelo, eu acho que esse é o problema: salvador da pátria. Não deveria ser assim. A gente deveria estar debatendo outra coisa…política econômica, saúde, segurança, defesa, mas estamos aqui falando de exame do presidente, de mortes, de rede Globo …

  6. Professor, acho que o Bacharel de Tatuí, carinhosamente chamado de “juiz de merda” pelo falecido dr Saulo Ramos, como um pavão misterioso, vai querer dar um desfecho monumental para seu triste fim de carreira. Vamos esperar a merda que ele vai fazer.

  7. O último parágrafo de FATOS E SUSPEIÇÕES está supimpa, Assuero.

    É a minha opinião e seu sentimento.

    O que se percebe hoje no cenário político e jurídicos nacionais, Assuero, é o de que os Agentes Públicos que estão ali para apaziguar conflitos, estão é mais para pôr fogo no barril de gasolina e ver o “bicho” explodir e queimar todos que são inocentes.

    Feito o nobre professor o comenta: o mesmo ministro que critica uma decisão monocrática de um colega é o mesmo que profere uma pior: soltando marginais de alta periculosidades, que cometeram crimes hediondos!

    Não dá para ser otimista.

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