MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

Colégio N. S. Auxiliadora – Campo Grande, MS

Dona Josefa Rangel era tia da minha madrasta, Joana Macedo Bezerra. Nós a chamávamos carinhosamente de Vó Doda. Se havia uma senhorinha amável, simpática, sorridente e sempre disposta a ajudar os outros, essa era a Vó Doda. Morava em uma chácara nos arredores de Campo Grande, Mato Grosso do Sul.

À época, eu com 11 anos de idade e meu irmão com 13, estávamos morando em Campo Grande, na rua Pedro Celestino, em frente ao Colégio Nossa Senhora Auxiliadora.

Sempre que possível íamos alegremente visitar a Vó Doda e desfrutar das laranjas, bocaiuvas, abacaxis, mangas e abacates que existiam em sobejo na chácara. Era a própria fartura cantada na frase latina “quid abundat non nocet”, ou seja, o que abunda não prejudica (abunda do verbo abundar – êta língua a nossa).

Além de seu carinho e simpatia Vó Doda era uma mestra no fazimento de pratos deliciosos com o maravilhoso tempero nordestino: frangos, peixes, carne seca, rabada, assados e outras iguarias, quase todos eles acompanhados invariavelmente de arroz cozido no leite e farofa com torresmo. Não dá para explicar o divino gosto de tais comidas.

Outra característica daqueles dias eram as histórias de assombração que eram contadas à noite, ao final do jantar, por nosso primo Toinho, todas elas horripilantes e amedrontantes, que faziam meu irmão e eu irmos para a cama tremendo de medo, imaginando que um lobisomem estava rondando a casa, esperando que fôssemos dormir para cravar seus longos e tenebrosos caninos em nossos pescoços e daí chuparem nosso sangue. Esses formidáveis caninos eram o nosso terror. Como era difícil o sono chegar!

Em uma dessas noites, já quase no fim do jantar, os lobisomens eram o assunto em questão. Exatamente quando a estória estava no seu clímax de terror uma coceira arretada, vinda diretamente da Transilvânia, aterrissou no nariz da Vó Doda. Não deu tempo de ela engolir a farofa com torresmos que tinha acabado de pôr na boca.

O espirro foi majestático.

Junto com o jato de farofa com torresmos, acompanhado de nojentéculas espirrentas, vieram as duas partes da dentadura voando na nossa direção. Acontece que, até aquela data, não tínhamos conhecimento da existência de dentaduras. Não houve chance alguma de escaparmos da trajetória daqueles dentes.

O apavoramento meu e do meu irmão foi provavelmente maior devido à visão dos dentes voando ameaçadores em nossa direção para nos devorar. Achamos que a Vó Doda tinha acabado de virar um lobisomem. A gritaria poderia ser ouvida a 4 léguas de distância e acho que quebramos a barreira do som em nossa fuga para longe da mesa.

Após as devidas explicações tivemos que tomar um rápido banho para podermos ir limpos pra cama.

Deixe uma resposta