EU E MEU SAPATO

Estamos confinados, eu e o único par de sapatos que me restou depois da aposentadoria. Outros pares, a exemplo de gravatas também obsoletas, foram doados. Isolados socialmente de todo e qualquer chão, acho que eles estão morrendo de saudades do meu 42 ‘bico chato’. E é porque eu vivia a pisar-lhes, sem nunca lembrar de lhes oferecer uma engraxada, quando em vez. Sem meias eu os calçava, quase sempre. Mas eles adoravam meu chulé. Educados, não reclamavam quando, distraído, pisava no cocô de cachorro deixado na calçada pela madame do 901. Há quase 100 dias não nos vemos, não trocamos intimidades. Finda a pandemia, vamos ter que fazer terapia. Eu e eles. Talvez eles me perdoem por tê-los traído, quando os troquei por um par de chinelos velhos e confortáveis. E aí, com eles faço as pazes e saio caminhando por estradas luminosas e felizes para bem distante desta Pandemia maluca.

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