JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

Em 1960, aos 16 anos de idade, juntei-me a um grupo de moleques da minha faixa etária, para panfletar em prol da candidatura de Jânio Quadros, por pura fuzarca e falta do que melhor fazer. Lembro que distribuíamos a transeuntes do Grande Ponto, no centro de Natal, broches de metal dourado no formato de vassourinhas, símbolo da campanha do ex governador paulista à Presidência da República.

Lembro também que, após a votação, no mês de outubro, assisti a contagem dos votos do Estado, por escrutinadores que ocupavam mesas espalhadas pela quadra do Palácio dos Esportes – principal palco esportivo coberto da capital – que resultou na vitória do “meu candidato” – já naquela época me estarreci com a trabalheira que dava contar votos.

Em novembro do mesmo ano, lembro de haver assistido, em noticiários noturnos transmitidos, em preto e branco, por televisor da casa de um colega morador da mesma rua que a minha, a movimentação que elegeu John Kennedy presidente dos Estados Unidos da América. Chamou-me a atenção o fato de o processo de contagem dos votos ser idêntico ao praticado no Brasil.

Desde aquele longínquo 1960, passaram-se 35 anos para que uma empresa brasileira, com tecnologia nacional, desenvolvesse a urna eletrônica que automatizou, entre 1995 e 1996, todo o processo de eleições da nação. Providência que facilitou a contagem de votos e estreitou, sobremaneira, os prazos para se obter o resultado dos escrutínios.

Devido ao aprimoramento do sistema o fato é que, hoje, no Brasil, se obtém o resultado de uma eleição para presidente da nação, e para ocupantes de ambas as casas do Parlamento, em poucas horas após o término das votações.

É inacreditável, que a mais poderosa e rica nação do planeta, que já mandou um homem à Lua, inventou a bomba Atômica, possuidora da mais avançada tecnologia da Terra e do primeiro e mais longevo sistema democrático de que se tem conhecimento, praticando votações continuadas há mais 240 anos, ainda utilize o mesmo esquema arcaico e ultrapassado de contagem de votos.

Na verdade, é de uma complicação magnífica a forma de se escolher o presidente e o vice-presidente dos EEUU. Lá, tudo ainda é regido pela primeira e única Constituição de 1787. O Colégio Eleitoral dos Estados Unidos se prende ao grupo de delegados presidenciais, que se forma a cada quatro anos, com o único propósito de escolher os dirigentes máximos da nação.

São 538 privilegiados delegados obedientes à vontade da população de eleitores que, pelo voto popular, define a maioria absoluta de votos eleitorais – 270 ou mais -, escolhendo assim presidente e o vice-presidente da República.

Críticos argumentam que o Colégio Eleitoral – ou delegados – é menos democrático do que um voto popular direto nacional. E mais: que o sistema é a antítese de uma democracia que luta por um padrão de “uma pessoa, um voto”. No meio dessa complicada equação ainda existem estados com as suas legislações próprias. Um verdadeiro “Samba do Crioulo Doido”, como definiria o saudoso Stanislaw Ponte Preta.

É, sim, cruel assistir a tal processo escrutinador na maior e mais aprimorada – será? – democracia do planeta. Processo esse que se arrasta por dias e até semanas, até a proclamação dos vencedores. Enquanto isso, eu, aqui, num país do Terceiro Mundo, exerço o obrigatório dever de votar, num piscar de olhos.

Pois é, coisa própria de povo subdesenvolvido!

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