MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Já é lugar-comum dizer que brasileiro trata tudo como se fosse futebol. Por outro lado, acho que não é injusto dizer que as coisas estão chegando a níveis absurdos. Tudo no Brasil hoje se transforma em briga de torcida: a torcida organizada do político A contra a torcida organizada do político B. Fatos são coisas sem importância; só servem quando associados ao “mérito” ou à “culpa” de cada lado. Notícia boa só serve quando é a favor do político de preferência. Notícia ruim, por outro lado, pode ser comemorada e saudada com foguetório, desde que esteja associada ao político adversário.

O pobre coitado que ousar divulgar um fato sem associá-lo ao lado A ou B, apanha dos dois lados. Os torcedores do político A o acusarão de ser parcial ao político B. Já a torcida do político B o acusará de estar do lado do político A. Os fatos? Ora, danem-se os fatos! O que interessa é politizar tudo, reduzir tudo a uma disputa rasteira de “nós contra eles”. A adesão a um dos lados da política transforma cada um em gênio, com profundos conhecimentos em química, medicina, farmacologia, epidemiologia, climatologia, agronomia, comércio internacional, direito constitucional, engenharia aeronáutica, extração de petróleo e decoração de bolo. Em cada um desses assuntos, o torcedor opina com segurança e desembaraço, para chegar sempre à mesma conclusão em todos eles: o seu político está certo, o político adversário está errado.

Aquilo que é divulgado como “noticiário político e econômico” é apenas uma coluna de fofocas: quem apoiou quem, quem se uniu a qual partido. Mais importante ainda é saber quem brigou com quem. A torcida A imediatamente decretará que um dos envolvidos é um herói e o outro é um traidor. A torcida B dirá exatamente a mesma coisa, mas invertendo os nomes. E que ninguém queira meter bobagens como lógica, coerência ou bom senso nessa discussão, por favor! O que interessa é a briga; aplaudir as piadinhas, as tiradas sarcásticas e os auto-elogios do “seu” político, e vaiar e xingar o político adversário por fazer a mesma coisa.

Em um contexto desses, uma declaração aparentemente séria como “o país está quebrado” é apenas mais uma “bola na área” para continuar a briga. Se estamos quebrados ou não, ninguém se importa. O que interessa é saber como a frase pode ser usada a favor do seu político e contra o adversário. Da mesma forma, uma epidemia de covid é apenas mais uma oportunidade de mostrar que o seu político sempre faz as coisas certas e o outro político só faz coisas erradas. Uma semana de apagão no Amapá? Pode ser uma boa notícia, desde que se possa afirmar que a culpa é do adversário. Queda no PIB, aumento do desemprego, preço do arroz? De tudo isso, o que importa é extrair argumentos. O PIB pode continuar caindo, o desemprego aumentando e o arroz encarecendo, mas o importante é repetir que o político A avisou, mas o político B não quis ouvir e o resultado é esse aí.

Mas a pergunta permanece: estamos quebrados? Para responder, não vou falar nada a favor ou contra o político A ou o político B; vou apenas mostrar dados fornecidos pelo Banco Central.

A maioria dos jornalistas fala “o pib subiu tantos porcento” ou “o pib foi de tanto” sem a menor idéia do que está falando (é comum misturar variação anual com variação trimestral). O fato está aí: levamos um tombo em 2014-2015 e outro em 2020. Precisamos crescer mais ou menos 50% só para voltar ao nível em que estávamos em 2011-2014.

Esse eu já mostrei em outro pitaco. Mostra o quanto de dinheiro o governo está “fabricando” para pagar suas contas. Esse aumento, ou inflação, na quantidade de dinheiro, inevitavelmente irá aparecer na desvalorização do real e no aumento dos preços. Exemplo:

O gráfico acima mostra que na minha cidade, Curitiba, o preço da cesta básica subiu 12% em 2019 e 22% em 2020. Para quem não gostar, o site do Banco Central têm mais de setenta índices de preços diferentes para escolher.

Para encerrar, este gráfico mostra quanto estamos devendo. A pontinha do gráfico no lado direito está em 4,5 trilhões. Isso significa que cada brasileiro hoje já nasce devendo mais ou menos vinte mil reais.

Então, estamos quebrados? Na minha opinião, sim, e não é de agora. Na verdade, desde os tempos de Dom João VI o Brasil nunca mudou muito de rumo: governo gastando cada vez mais, cobrando cada vez mais imposto, dívida aumentando e inflação desvalorizando o dinheiro das pessoas. É preciso muita retórica e muita paixão ideológica para negar que um país onde o PIB não cresce, a dívida aumenta sem parar e o dinheiro vale cada vez menos é um país quebrado.

As soluções são óbvias para qualquer um que veja os exemplos da história. Nenhum país enriqueceu com sua moeda desvalorizando e sua dívida aumentando, que é o que sempre aconteceu aqui. Não há país pobre com moeda forte e liberdade de comércio externo, coisas que o Brasil nunca teve. Então é só seguir a receita que deu certo no resto do mundo: reduzir despesa do governo, reduzir impostos, reduzir (na verdade, acabar) com a fabricação de dinheiro. As consequências serão moeda valorizada, inflação baixa ou quase nenhuma, e muito comércio com os outros países.

Ou podemos ficar apontando o dedo uns para os outros e dizendo “a culpa é dele!”.

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