MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

“Quem consegue controlar o medo das pessoas se torna o senhor de suas almas” – Maquiavel

Minha querida amiga Margot, psicóloga extremamente competente, me ensinou que “esquizo” vem do grego e significa “dividido, separado”. Esquizofrenia é a doença onde a pessoa não age de forma coerente, e sim como se estivesse “dividida” em várias partes que não se comunicam entre si. Vou me meter a psicólogo e dizer que o tal vírus do qual todo mundo está falando mostrou de vez que somos uma sociedade esquizofrênica.

De cara, nossa sociedade se dividiu em dois grupos que parecem se odiar tanto quanto as torcidas organizadas de Corinthians e Palmeiras: os que querem “isolamento total e quarentena”, e os que querem “manter a sociedade funcionando”. Membros dos dois grupos passam o dia a se atacar via redes sociais, numa mistura de piadinhas, provocações, textões pretensamente sérios e auto-elogios. Em comum, todos têm a certeza de que sabem do que estão falando, porque leram o especialista X ou ouviram o especialista Y. Não passa pela cabeça de ninguém que, sem ter um mínimo de conhecimento anterior sobre o assunto, é impossível saber se X ou Y estão certos ou não; a consequência é que todos acreditam naquilo que querem acreditar (os psicólogos chamam isso de “viés de confirmação”).

A crise tornou-se uma oportunidade para que muitos possam praticar a atividade mais prazerosa que a espécie humana conhece: mandar nos outros. (o quê, você pensou que era sexo? Sabe de nada, inocente.)

Por todo o país, políticos estão competindo pelo prêmio de “maior populista”. Uns mandam a polícia fechar estabelecimentos, outros proíbem andar na rua, outros bloqueiam estradas. Alguns já mandaram seus capangas invadir e saquear indústrias e comércios. São aplaudidos por muita gente.

Outros políticos preferem distribuir dinheiro. Duzentos milhões daqui, quinhentos milhões ali, um bilhão acolá, todos acreditando firmemente que para o governo o dinheiro é infinito, basta querer. Naturalmente, muita gente acredita, e ainda aproveita para se fazer de entendido em economia: “tá vendo como governos são importantes?”. Aposto que ainda neste ano nosso congresso estará discutindo a criação do tão esperado “imposto sobre grandes fortunas”. Como disse um autor de quem gosto muito, “não há coisa que console mais o pobre do que a desgraça do rico”.

Outros ainda preferem aplaudir o fim da democracia. O Ministério Público, conjunto de funcionários que não são eleitos mas que se acham iluminados pela sabedoria divina, pediu ao STF que determine que o presidente (esse sim, eleito) seja obrigado a seguir as orientações da OMS. Isso mesmo: o presidente não manda, ele tem que obedecer a uma entidade estrangeira, na opinião do MP. E tem gente que ainda perde tempo falando em soberania nacional.

O resumo de tudo isso é que pensar tornou-se uma atividade fora de moda. Lógica e coerência tornaram-se obsoletas. O novo modo de vida adotado por todos é agarrar-se firmemente a um conjunto de idéias, unir-se aos que pensam igual, e odiar profundamente qualquer um que faça a mesma coisa mas se agarrando a idéias diferentes. É outra forma de esquizofrenia: não enxergar o mundo por inteiro, mas aos pedaços. Alguns pedaços são bons, outros maus. A política é uma coisa horrorosa, a não ser quando um político faz algo que me beneficia. Igrejas são horrorosas e manipulam as pessoas, menos a minha. As outras pessoas são intolerantes e preconceituosas, enquanto eu sou um exemplo de tolerância e empatia. As idéias dos outros são tolas e até perigosas, mas as minhas idéias são a solução para todos os problemas. E se o que eu digo agora contradiz o que eu disse cinco minutos atrás, não, nada a ver, são coisas completamente diferentes, qualquer um vê isso.

Já que citei tanto, encerro com mais uma citação, desta vez de um filósofo do século 17, Baruch Spinoza: “Os homens são dispostos a sentir pena e compaixão pelos infelizes, mas seu ódio e inveja em relação aos que são mais felizes que eles é enorme e sem limites.”

6 pensou em “ESQUIZOFRÊNICOS

  1. Marcelo, publiquei um texto no Facebook, e adaptei um pouco para o JBF, falando sobre o SUS. Um professor universitário leu, fez algumas considerações que eu expliquei e ele disse: “fulana de tal é pesquisadora em saúde pública. Ela tem trabalhos que fala sobre isso. Eu vou ler”. Depois ele me mandou uma mensagem, privada, dizendo que ela assegurava sim que o SUS corria risco de privatização. Eu perguntei porque ele não aceitou achou que eu estava errado e ela certa. Refiz algumas perguntas dentre as quais “como se pode privatizar uma instituição quem não tem capital social?”. Sinceramente, eu não faço a menor questão de ser contratado, mas tem especialistas que não aceitam argumentos contrários.

  2. Marcelo, excelente o seu texto. Não sei porque estou me lembrando do Tavares, personagem do Chico Anysio, que dizia: “Sou, mas quem não é?”. Aceite o abraço do JCS.

  3. Caro Marcelo,

    Mais uma vez, e como de costume, um texto brilhante.

    Só é pena que tão poucas pessoas tenham acesso a pensamentos tão cristalinos e permaneçam chafurdando na animalidade da imbecilidade galopante.

    • P.S, Veja mau texto de domingo próximo. Parece até que estivemos conversando. Acho que vou pedir ao Berto para publicar meu texto antes do teu, para que não digam que te plagiei. ahahahah

  4. Dom Marcelo Bertoluci:

    Redundantemente, afirmo que o seu texto é excelente.

    Quanto a afirmação de Baruch:

    “Os homens são dispostos a sentir pena e compaixão pelos infelizes, mas seu ódio e inveja em relação aos que são mais felizes que eles é enorme e sem limites.”,

    me atrevo a dar o meu “pitaco”.

    Cobiça => querer ser (ou querer ter) o/a que o outro é (ou tem) – e fica por aí mesmo!!!;

    Inveja => não ser (ou não o/a ter) e querer – se possível e por quaisquer meios!!! – que o outro não o/a seja (ou o/a tenha) – e é permanente!!!.

    Como se vê, a inveja (que é “enorme e sem limites”) está (sempre!!!) por trás, é, no fundo, a geradora – o “primeiro-motor”, a “causa prima” – de toda e qualquer ideia criminosa e do próprio crime.

    Logo, o ódio é um dos, conseqüentes, muitos frutos da inveja.

    Por isso, me atrevo a dizer que o sábio Baruch “redundou”, ao dizer “o ódio e a inveja”.

    Um baita abraço,

    Desde o Alegrete – RS,

    Adail.

    • Se há erro, provavelmente é meu, Adail.

      Spinoza escreveu seus livros em latim, que infelizmente eu não sei ler. O pouco que sei sobre ele, eu li em inglês.

      E esta citação, eu a fiz de memória, eu uma linguagem mais coloquial do que a versão em inglês que li.

      Mas creio que transmiti a idéia original do autor, ou quase.

Deixe uma resposta para Adônis Oliveira Cancelar resposta