JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

Título de novela que estreou na televisão, esta semana, coincide com o de uma crônica que publiquei no extinto Diário de Natal, em 2/5/2006, onde descrevo o encantamento de minha irmã, Maria Iateara, em abril daquele ano. Eis o texto:

“Éramos seis irmãos comuns, filhos de pais comuns, integrando uma família comum igual a tantas outras famílias comuns existentes por aí. Três homens e três mulheres que adotaram e foram adotados pelo Rio Grande do Norte e aqui fincaram raízes profundas, duradouras e definidoras de seus destinos. Agora somos cinco. A morte nos subtraiu a mais jovem das mulheres e caçula dos irmãos. Chamava-se Maria, como as duas outras irmãs, mas ninguém a conhecia pelo primeiro nome.

Éramos seis: Narcelio, Elmano, Maria Conceição, Maria Iateara, Iara Maria e Severo

Resolvi escrever sobre a morte de Maria não visando uma apologia à pieguice, tampouco para divulgar a dor da perda de um ente querido, tragédia a se preservar limitada ao âmbito do sentimento familiar. Escrevo sobre o martírio de Maria para registrar a lição de vida no enfrentamento da morte que recebemos de nossa irmã.

Um exemplo de força e determinação no início da doença e, depois, de resignação e aceitação ante o desfecho esperado. Esse exemplo, sim, digno de divulgação. Um espelho de postura diante da morte para conforto de outros enfermos que enfrentam desdita idêntica àquela de Maria.

Um câncer de mama foi o grande vilão da história. Pouco mais de dois anos durou a trajetória desde a descoberta da doença até o final de sua vida. Recorreu a todas as alternativas que a medicina dispunha. Subjugou-se a diferentes tratamentos com coragem e muita fé em obter a cura. Em instante algum entregou os pontos ou se maldisse. Pelo contrário. Diante do desânimo dos parentes, pelo agravamento da doença, apregoava melhoras nas quais somente ela acreditava.

Mesmo com o corpo dominado por metástases não demonstrava sentir nenhuma dor. Aos irmãos e cunhados médicos, assegurava a ausência de sofrimento físico e se contrariava quando era contestada nessa afirmação.

Os últimos quatro dias que antecederam a sua total inconsciência foram repletos de emotividade. Primeiro, pediu aos irmãos um diagnóstico sincero de sua situação; em seguida, ciente da gravidade do estado em que se encontrava, determinou: “Cuidem de papai e de mamãe que eu cuidarei do resto!”.

O próximo passo foi reunir todos os familiares ao seu redor. Conversou com o marido, os filhos, os pais, os irmãos, parentes e, com amigos que a visitaram no hospital. A todos e a cada um, abraçou e consolou. Da mesma forma que em vida preferiu servir a ser servida, também optou por consolar a ser consolada. Distribuiu recomendações e pedidos formulados num fio de voz ao ouvido de cada um de nós.

Por fim, já bastante debilitada e sem forças para falar pedia, com leves acenos, para nos aproximarmos dela e segurarmos as suas mãos. O rosto cansado, mas sem esgares de sofrimento, permaneceu sereno até o fim. Morreu em paz. Pediu para ser cremada e ter as cinzas lançadas ao mar. Talvez para guardarmos dela apenas a chama viva e clara de sua lembrança.

Maria Iateara, minha irmã, o vazio de sua ausência encheu de dor os nossos corações e se transformou num fardo pesado demais de carregar, porém, seu exemplo de fé nos ensinou a entender melhor o sentido da vida e a diminuir o pavor no enfrentamento da morte”.

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