ERA UMA VEZ

Engraçado que sempre uma fábula começa assim. E esta pretende ser uma fábula, não fabulosa, mas não deixa de ter sua moralidade. Então, vamos lá! Era uma vez um pequeno burgo – gosto do som dessa palavra, traz um misto de pão quente e trabalho ao mesmo tempo – perdido entre montanhas e vales. Nesse burgo havia um rapaz chamado Urbano Gentil, mas que todo mundo conhecia como cidadão. Rapaz trabalhador, simples, amigo de todos, brincalhão, cioso de seus deveres. Era uma espécie de faz tudo da região. Sabia fazer trabalhos de agrimensura, alvenaria, carpintaria, marcenaria, eletricidade, encanamento, ajudava nas missas da igreja, cuidava da mãe, dos irmãos, e ainda ajudava a vizinha a carregar as compras para casa.

Cidadão era o que se podia chamar de “homem que se fez a si mesmo”. Apesar da vida simples conseguia dar qualidade de vida para a família, defendia os seus como um tigre. Ganhava o suficiente para manter a despensa de sua casa sempre cheia, a geladeira abastecida, os irmãos sempre arrumados, limpos, estudando, com material escolar suficiente e sempre um lanche na mochila. Em casa, ajudava a mãe, dava uma força à irmã recém-casada e com um filho, tinha o “de seu” para a sua “sagrada cervejinha” no fim de semana – sempre duas latinhas bebericadas na porta de casa – e nada mais. E, até já tinha o suficiente para comprar um carro, usado, mas que ajudaria ele a atender um maior número de clientes, pois o veículo permitiria ele chegar mais rápido ao seu destino de trabalho.

Apesar do trabalho árduo, podia-se dizer que Cidadão era um homem feliz. Curtia um romance com uma linda menina, simples e trabalhadora como ele. Sonhavam juntos em unir forças, montar um negócio para atender aos pedidos de serviço que se avolumavam. Cidadão, mesmo se tivesse oito braços e quatro pernas já estava no seu limite de atendimento. Era preciso contratar gente. E o sonho de abrir o seu negócio, prosperar, ajudar outros que, como ele, também queriam, através do trabalho vencer na vida.

Certo dia, apareceu um desses “grandão”, de bolso forro. Chegou ajudando um, ajudando outro, emprestando um dinheiro aqui, amparando outro ali. E foi crescendo no burgo até se tornar o maioral da região. Todos o ouviam, todos estavam sob seu manto. E esse “grandão” foi ficando maior. Estabeleceu regras no burgo, criou uma série de normas, até ao ponto em que, se o morador do burgo quisesse falar com ele deveria passar por uma série de diretorias, secretarias, protocolos, auxiliares e outras bossas. E esse grandão foi se tornando cada vez mais abstrato, mais uma entidade do que um ser. Mas, havia algo, ou alguém que destoava desse cântico. Cidadão.

Continuando na sua faina, depois de casado conseguiu montar o seu negócio e a prosperar. Podia-se dizer que era o senhor de si mesmo. O “grandão”, vendo essa exuberância não pode suportar. Doeu-lhe na alma ver alguém que não estivesse debaixo de sua asa, de sua proteção, de seus olhos. Tentou de todas as formas convencer Cidadão a se proteger sobre sua sombra, sempre recebendo uma negativa educada, mas firme. Porém, tudo tem limites, inclusive a paciência.

Certa manhã de domingo, “Grandão” chamou seus baba-ovos – hoje são chamados de assessores – e mandou meter fogo nos negócios de Cidadão, dar uma surra nele, de maneira que ele tivesse uma mão decepada e ficasse paraplégico. E assim foi feito. Quase mataram o coitado de tanto bater. Queimaram sua empresa, destruíram sua casa e expulsaram seus irmão da escola onde estudavam. Vendo a situação, “Grandão” aproximou-se de Cidadão e lhe ofereceu uma casa de conjunto habitacional que podia ser paga em suaves prestações, por trinta anos – dessas casas que custam 30 mil, mas depois que você já pagou 250 mil descobre que ainda está devendo uns 330 mil de saldo devedor – Dizem que, o que é um peido para quem está todo cagado? Pois bem, cidadão aceitou a oferta.

“Grandão” ainda matriculou seus irmãos na escola que ele mantinha – um moquifo cheio de morcegos, com goteira quando chovia, um forno quando esquentava e um freezer quando esfriava, com professores semialfabetizados que só sabiam louvar as benesses que “Grandão” trouxe para o burgo, livros obsoletos que mais emburreciam do que ensinavam e uma gororoba servida como comida que, se fosse dada para um gato, ele a cheirava e jogava terra em cima.

Como Cidadão, sua esposa e sua mãe já não podiam trabalhar mais, “Grandão” deu uma cadeira de rodas para o coitado e um cartão onde ele podia todo mês ir no bolicho do burgo e fazer uma comprinha – limitada a determinado valor -, que excluía carnes variadas, laticínios, farinhas especiais, entre outras coisas. Era somente para o básico. Para não morrer de fome, como se diz hoje.

Certa vez, no aniversário do burgo, estavam “Grandão” e seus cúmplices, digo, assessores vendo o desfile das escolas. Estavam também convidados de fora que vieram para paparicar “Grandão”, quando este apontou Cidadão. “Ta vendo aquele cara lá, de cadeira de roda, quase maltrapilho, com cara de quem não come há uns três dias? Pois, é, se não fosse por mim, nem cadeira de rodas ele teria para andar pela cidade, acreditam?

Moral da história: desconfie sempre quando o Estado, ou um político quer te dar algum benefício. Sempre alguém terá a mão decepada e terá que andar em uma cadeira de rodas para que você possa aproveitar esse benefício, que não é benéfico.

Moral da história 2: se você quer deixar de ser tratado como gado, pare de se comportar como gado.

2 pensou em “ERA UMA VEZ

    • Pois, antão…. aí fica, meu caro, a critério do freguês. Só acabo sendo chato em lembrar que um dia, o gado acaba no matadouro e vira chuleta, filé e bife.

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