A PALAVRA DO EDITOR

Lá no alto daquela duna passa camelo passa cáfila, cantava um beduíno sedento arrastando-se na areia ao meu lado.

Pedi-lhe para calar a boca, ô viado, está atrapalhando a minha concentração na busca de torre de comunicação para poder conectar meu celular.

Foi falar e a torre aparecer. Olhei no telefone, tinha sinal, mas não tinha wi-fi. Na verdade, tinha vários, mas eu não tinha as senhas.

Lembrei-me de quando votei em Lula para presidente pela primeira vez, wi-fi, celular, nem se sonhava com isso, era 1989, a Internet engatinhava, era à lenha, e os primeiros celulares que apareceram eram raros, caros e pareciam uns tijolos.

Se eu precisasse, então, enviar matéria para o Jornal da Besta Fubana teria de fazê-lo por pombos correios.

Isso me passava pela mente febril quando a lembrança do medo que tive quando elegemos o Lula presidente da república pela primeira vez em 2002 me gelou as veias.

Ele assumiu o governo em 2003 e eu fiquei apavorado: – Elegemos um cara rouco, revolucionário, cachaceiro, que não entende nada de administração pública, vai chegar com uma turma de despreparados e é capaz de só fazer besteira.

Eu era envolvido com o direito administrativo e tinha medo que o executivo trocasse leis por portarias e vice-versa, contratasse sem licitações, colocasse gente incompetente nos cargos, essas coisas.

Realmente, fizeram algumas besteiras, mas logo aprenderam as regras principais: era preciso ouvir os técnicos e, acima de tudo, era preciso garantir maioria na política em geral, ou seja, no legislativo e no próprio executivo, para alcançar o que se chama de governabilidade.

Fizeram até demais: consta que compraram deputados e senadores, à sombra do presidente.

Nisso pagaram caro por um lado, barato por outro, seguindo a doutrina de Nicolau segura aqui o meu Maquiavel, segundo cuja filosofia se depreendia que os fins justificam os meios, e navegaram em mar de aprovações de planos e projetos.

O País foi bem, seja porque as commodities favoreceram, seja porque Lula é O Bicho, digo, O Cara, só caíram os governos petistas coincidentemente com a questão internacional que incluía a baixa das commodities, isto é, a crise a partir de maio de 2014, cuja ocorrência os oposicionista do petismo insistem em ignorar e que foi o que deflagrou o desemprego em massa e lascou com a economia brasileira.

Pois bom, eu queria falar do medo, medo agora, recente, quando Bolsonaro foi eleito, o mesmo medo de uma turma de despreparados assumir o timão e levar ao naufrágio, com o agravante de que eu não votei nele.

Com Lula, o aprendizado foi rápido. Agora, a coisa custa a deslanchar e a cada dia as burradas feitas só reforçam a tese de que Bolsonaro é, no mínimo, maluco.

Enquanto escrevo, um sinal de bip bip me chama a atenção. O beduíno ao meu lado está recebendo mensagem em Morse: traço ponto ponto ponto ponto traço… traduzo: Vídeo com críticas a militares postado no canal de Bolsonaro e nas redes de Carlos, o Menino Maluquinho, reacende tensão no Planalto.

Aí penso, lascou-se mesmo.

Capturo um pombo correio e amarro-lhe no pé o texto mandando-o entregá-lo ao Berto.

Se chegou, todos saberão que entre Maquiavel e Olavo de Carvalho, fico com O Príncipe.

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