JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

Não se trata aqui de nenhum passeio turístico na embarcação típica dos canais de Veneza, na Itália, ouvindo o gondoleiro cantar O Sole Mio. As gôndolas – na verdade, gondolas – em questão são aquelas prateleiras metálicas usadas para expor mercadorias nos espaços de vendas de supermercados.

Na década de 70, durante quase quatro anos, eu prestei serviços como engenheiro civil e de segurança do trabalho para o grupo Nordestão de supermercados, em Natal. Diga-se de passagem, foi uma das experiências mais marcantes de minha vida.

Na área de segurança criei a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes-CIPA e, na civil, comecei assessorando a organização na construção da segunda loja da rede, na Avenida Deodoro, na Cidade Alta. Investido na função, acompanhei o desenvolvimento do projeto, organizei a licitação e fiquei responsável pela fiscalização da obra.

Eu e diretores da empresa fizemos várias viagens a Recife, onde visitamos diversos supermercados da cidade, guiados pelo arquiteto Hélio Moreira, autor do projeto arquitetônico. Assim, Natal recebeu o mais completo e atualizado ponto de vendas do ramo, até então construído no Estado, sendo o primeiro supermercado com estacionamento subterrâneo. A inovação causou sucesso na cidade.

A primeira loja do mundo com atendimento por autosserviço, o cash and carry ou “Pague e Leve”, com preços determinados e permitindo ao cliente escolher o produto e levá-lo ao caixa, nasceu nos Estados Unidos. O advento do conceito supermercado reduziu os preços e as margens de ganho sobre as mercadorias. Claro, que logo obteve a aprovação do consumidor.

A ideia foi tão feliz, que as técnicas de vendas originais mantem as mesmas características até hoje. O modelo é repleto de rasgos de criatividade. Simples, mas eficientes.

Observem que todos os produtos de primeira necessidade – cerais, carnes, verduras, legumes… etc., são colocados no fundo da loja. Essa disposição obriga o cliente a percorrer uma infinidade de corredores de gôndolas ofertando mercadorias variadas e coloridas, seduzindo o cliente para compras não programadas.

Outro lance genial são prateleiras contendo um mesmo produto de diferentes fabricantes, arrumados de forma que os mais baratos fiquem nas prateleiras de baixo. Isso induz o comprador optar, para não se agachar, por aqueles de melhor acesso, ou seja, os mais caros expostos num primeiro plano.

A terceira loja do grupo foi edificada na Avenida Salgado Filho, no Bairro Tirol. Na semana em que ia ser inaugurada notei que um importante apoio de viga estava trincado. Consultei um calculista estrutural e ele me aconselhou a sustar o evento até repararmos a peça.

Impossível! Todos os preparativos para a abertura da loja estavam ultimados. Então escoramos a área do estacionamento comprometida e a isolamos com um tapume. Justificamos o trambolho aos curiosos, informando ser um depósito provisório para acomodar restos de materiais da obra.

Nessa loja fora projetado, a meu pedido, um nicho para exposição e venda de bebidas importadas. Sugeri que ali expusessem rótulos de licores, whiskies e vinhos tops de linha, fugindo do trivial oferecido na capital. Recebi da diretoria carta branca para a tarefa e relacionei para o setor de compras, entre outros rótulos, alguns dos vinhos première crus franceses – abaixo apenas dos grand crus, maior nível da hierarquia vinícola.

Pela primeira e única vez um supermercado do Estado, até a atualidade, pôs à venda os vinhos Château Haut-Brion, Château Latour e Château Mouton Rotchschild – três dos mais caros do mundo. Eu descobri depois, para alívio meu, que as três garrafas foram adquiridas por um extasiado e estupefato inglês, na época, gerente da britânica Algodoeira São Miguel, no Estado. Coisas da vida!

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