ALTAMIR PINHEIRO - SEGUNDA SEM LEI

No ano de 2017, através do programa de Geraldo Freire da Rádio Jornal do Comércio da cidade de Recife-PE, o Pingo de Ouro ROBERTO MULLER, recebeu das mãos do cantor e compositor pernambucano Nando Cordel, uma cadeira de rodas onde auxilia sua locomoção até hoje. Lá, num simples apartamento do bairro do IPSEP na capital pernambucana foi feita a doação da cadeira e no momento da entrega a pura emoção tomou conta tanto de Nando como da secretária/cuidadora, Dagmar Pereira, hoje esposa de Roberto Muller. “Muito honrado porque esse rapaz aqui já fez muita coisa boa para o povo. É uma honra para mim estar aqui perto desse grande homem”, disse Nando Cordel.

Em pleno ano de 2020, aos 83 anos de idade, Roberto Müller que vive de uma aposentadoria de menos que dois salários mínimos e o dinheiro que deveria receber, anualmente, dos seus direitos autorais, a gata comeu, pois recebe uma mixaria depois de quase 70 discos gravados. Hoje, encontra-se em Recife morando em um bairro popular, aos cuidados de sua querida e amada Dagmar, vítima de AVC, sofreu um infarto, sofre do mal de Alzheimer e necessita da solidariedade dos colegas cantores, dos amigos e fãs. A difícil situação vivida por Roberto Müller foi tornada pública por um vídeo gravado pelo cantor Tarcys Andrade que pede o apoio de todos, para garantir uma melhor qualidade de vida a este grande artista.

O crítico de música e profundo conhecedor de MPB, Jornalista José Teles, descreve muito bem como hoje se encontra Roberto Muller, que ganhou o epíteto de Pingo de Ouro, por medir 1,53 de altura, mesmo assim, ele namorou altas estrelas do rádio, entre elas Clara Nunes. O apartamento é modesto, no térreo de um edifício caixão, no IPSEP, bairro da Zona Sul do Recife. Logo à entrada, uma estante recheada de troféus, discos de ouro, medalhas. As paredes da sala, do corredor e de dois quartos estão cobertas por fotos emolduradas. Não cabe tudo ali dentro. Na área externa, um puxado, com vaga para um carro, protegida por grades, abriga mais lembranças: partituras, recortes de jornais e revistas, toda vida artística do dono.

Ali, naquele pequeno museu, mora o piauiense José Ribamar da Silva, 83 anos, nome artístico: Roberto Muller, um dos cantores mais populares do País entre os anos 60 e 70. As fotos espalhadas pelas paredes do apartamento mostram o piauiense ao lado de uma Gretchen em plena forma, nos ano 70, com Chacrinha, em cujo programa recebeu discos de ouro, com Agnaldo Timóteo, e Jerry Adriani, de quem foi amigo. Naturalmente, não faltam fotos em solenidades com prefeitos, com o presidente José Sarney, a governadora Roseana Sarney, a lista é extensa.

Em 1963, após dois compactos, lançou seu primeiro álbum “NUNCA MAIS BRIGAREI CONTIGO”, conquistando definitivamente um lugar de destaque no cenário artístico nacional. A partir de então, Muller tornou-se presença obrigatória nos programas de televisão. Finalmente, depois de se apresentar na “discoteca do chacrinha”, na extinta TV Tupi, ganhou o título de “Pingo de Ouro do Brasil” do próprio Abelardo Barbosa. Roberto Muller tem o dom de cantar a dor de cotovelo, a música romântica dos apaixonados. Neste ano ele completou 65 anos de carreira e 83 de idade e tem cerca de 70 discos gravados entre LPs e CDs. Entre os muitos prêmios ao longo da carreira estão inclusos seis discos de ouro.

Na sua discografia há um bolero, com letra trágica de tango, que o Brasil escuta há 52 anos. Um hit que estourou entre o ocaso da Jovem Guarda e a eclosão da Tropicália, em 1968: “Não foi o meu maior sucesso, mas foi a que mais me deu dinheiro”, diz Muller. EIS A LETRA: Uma noite sentou-se a minha mesa/ E entre tragos lhe dei todo o meu amor/ Transcorreram só duas semanas/ Como em sonho, minha vida se acabou/ Desde então os rios do meu pranto/ Confortaram a cruz da minha dor/ Ninguém sabe que meus males são tão grandes/ Que me partem, o coração/ Mas conforta e eu sei que está em minhas mãos/ Aliviar-me desta amargura/ Se um amor nasceu de uma cerveja/ Outra cerveja beberei para esquecer/ Um amor que surge numa mesa/ Entre espumas terá que terminar…

Roberto Müller é dono de sucessos inesquecíveis e imortais no cancioneiro popular, destacam-se: Entre Espumas, Velha Moça, Luz Negra, Mulher de Cabaré, Colecionador de Chifres, Com homem Não se Brinca, Farrapo de Calçada, Uma Cruz em Meu caminho, Vida de Cão sem Dono, Pagando sem estar devendo, Tudo menos traição, Por favor Minta pra ela, são alguns de seus vários sucessos. Da mesa de bar ao radinho de pilha, pode apostar que as rimas fáceis e as sofridas histórias de amor fazem um tremendo sucesso entre a moçada que curte a música “brega”. Cantores como Reginaldo Rossi, Waldick Soriano, Carlos André, Bartô Galeno, Odair José e Roberto Muller são ícones que encantam gerações com melodias simples e repletas de criatividade. A bem da verdade, o Pingo de Ouro do Brasil que também é conhecido como o Lord do Brega, sempre se apresentava em seus shows, impecavelmente bem vestido de terno e gravatas vistosas. A música ENTRE ESPUMAS é nostalgia pura por ser uma composição real, um testamento autêntico que fala da nossa vida no nosso cotidiano. É por essa e outras e os versos de Entre Espumas que o brega é chique…

16 pensou em “ENTRE ESPUMAS, ROBERTO MULLER, VIVE HOJE EM CADEIRA DE RODAS

  1. Caro Altamir,

    O tempo é inexorável para qualquer ser vivo. Não tem boquinha!

    Roberto Muller foi um dos maiores intérpretes do cancioneiro denominado preconceituosamente de brega pelos bambambãs dos carangas, da patota do Leblon, mas que precisa ser reconhecido, hoje, como a fase mais criativa da MPB.

    Transformar dor-de-cotovelo em versos inspirativos só para quem tinha talento. E essa turma dos mullers tinha.

    Tanto e quanto repentistas populares, que criavam pérolas ao vivo e em cores nas quebradas do Nordeste e morreram no ostracismo por não pertencerem a uma casta alta? Assim mesmos foram esses animadores de cabarés.

    Seu artigo faz justiça a esse ícone do brega cult.

  2. Altamir e Adônis, parabéns pela grandeza de vocês . Como membro antigo da família fubana ,fiquei muito feliz ao ver uma reconciliação que se julgava impossível .. Um grande abraço companheiros.

  3. Pingback: A PAZ ENTRE DOIS IRMÃOS FUBÂNICOS | JORNAL DA BESTA FUBANA

  4. 1 – O artigo de Altamir (alías, os artigos), sempre abordando a saga de cantores que marcaram época, cuja mídia sempre foi a boca do povo, o gosto do povão.

    2 – Os últimos artigos do Altamir, trás mensagens de ícones esquecidos da MPB, dita brega, mas, prenhes de conteúdos e significados para um público imenso e bem definido.

    3 – Na qualidade de maçom, informo que a loja a qual pertenço, presta auxílio ao nosso querido cantor e ídolo, com doações de fraldas descartáveis. O gasto é grande e contínuo. Dona Dagmar já tentou de tudo pra conseguir fraldas pelo SUS, mas sempre encontrou obstáculos até hoje.

    4 – Fica aqui a dica de quem se dispuser em ajudar o querido Roberto Muller: Doação de fraldas descartáveis.

    5 – Parabéns á grandeza de dois emblemáticos colunistas bestafubanenses, Altamir e Adonis (A & A), pela paz selada, levados pela justiça da grandeza espiritual de ambos. “Se estás, portanto, para fazer a tua oferta diante do altar e te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti,
    deixa lá a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; só então vem fazer a tua oferta.
    A oferta foi a paz! Da paz conciliatória.

    6 – Tal acontecimento merecia, parafraseando Roberto Muller, ser comemorado entre ESPUMAS.

    .

  5. Nos anos 80, eu sempre estava no apartamento de minha tia e madrinha, a senhora Marina Carlos. Ela residia à época, no Edifício Guatanamo, apartamento 104. Em frente ao edifício onde essa querida tia residia, havia um onde residia o senhor Roberto Müller. Eu o conheci pessoalmente, porque eu era amigo de um dos filhos dele, o Ribamar (inclusive se alguém souber o paradeiro dele, agradeceria se me avisassem). Sempre o via e sempre que estava com a turma que ia para a praia, íamos ao apartamento dele esperar o Ribamar. Isso foi no ano de 82 e se repetiu em 83. Boas recordações e uma pena saber que o senhor Müller se encontra dessa maneira.

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