MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

Sempre afirmei que a defesa do ex-presidente Lula, feita de forma irracional por diversos políticos, tinha por objetivo primeiro salvar mandatos próprios. Em Pernambuco, por exemplo, dois candidatos a governo se esforçavam para mostrar a população que era o preferido do ex-presidente. Insisto em dizer que isso continua vivo na cabeça de cada um desses políticos. Sem o apelo de Lula eles não possuem votos suficientes. Gleisi desistiu do senado, embora a PF continuasse “fungando no seu cangote”, para obter 230 mil votos (pode? No Paraná?) e tentar garantir foro privilegiado. Muitos outros, como Lindbergh Farias, perderam o posto.

No meu entender Lula, hoje, se assemelha em tudo por tudo ao famoso Quincas Berro D´Água retratado genialmente por Jorge Amado. Um funcionário público que um dia passa a viver de farras e de cachaça e numa venda vê um copo que acreditava ser cachaça, mas quando vai tomar dá um berro “Águaaaaaaaa” e daí seu apelido. Morto, os amigos de farra chegam ao velório e acreditaram que ele estava sorrindo. Os caras pegam Quincas, defunto, e vão de bar em bar para uma noitada. Isso é Lula. Um morto-vivo carregado num andor por um grupo, bem reduzido, de pessoas que vivem no seu entorno acreditando no milagre da multiplicação dos votos. Pessoas com interesses próprios que fazem, cegamente, o que ele ordenar. Haddad, por exemplo, é o caixão deste Quincas.

Escuta-se, bem baixinho, as queixas de integrantes do PT às decisões de Lula. Nenhum tem coragem de falar publicamente sobre a necessidade de o partido reconhecer os erros porque isso não passa na cabeça de Lula que já declarou, após sua soltura, que o “PT não vai fazer autocrítica.”Ou seja, pedir desculpas e reorganizar as ideias, nem pensar! Para ele o PT não errou. Ele não errou. Os três tesoureiros presos não erraram. Dirceu, Palocci, Dilma e etc. não erraram. Quem errou foi Sérgio Moro. Foi a força tarefa da Lava Jato que desbaratou a quadrilha que roubava descaradamente este país. Quem errou foi o STF, acovardado, que levou 580 dias para lhe tirar da cadeia e está demorando muito a anular sua condenação para lhe capacitar a ser candidato em 2022.

O efeito Lula se dilui no tempo, muito disso devido ao discurso não renovado pela evolução. Antes valia a pena inflamar a massa prometendo combate a corrupção. Hoje, o partido está impregnado como o grande responsável pela corrupção no Brasil por dois grandes escândalos: mensalão e petrolão, pescado pela Lava Jato com o envolvimento de outros países da America Latina como Peru (cinco ex-presidentes presos e um suicídio), Paraguai (ex-presidente considerado foragido), Argentina (Cristina Kirchenner), e vai por aí. Era importante inflamar a massa com promessas de geração de empregos, mas como fazer isso agora se eles próprios geraram 13 milhões de desempregados no país? Não consigo entender como as pessoas esquecem os indicadores econômicos do governo Dilma! E o que mais me choca é ver professores de economia defender um desgoverno tão grande.

Além de disso, as preferências de votos do PT sempre ficaram em torno dos 33% – 35% e a costura para vitória agregava gregos e troianos. De Renan Calheiros, que levava parte do MDB (Henrique Alves, Jucá, etc.) para o governo, até Pedro Correia, que levava o PP. No resto ficavam os partidos de esquerda menores que elegem representantes graças ao coeficiente eleitoral. Resta a Lula procurar abrigos nesses partidos e se aliar novamente com Renan, Valdemar da Costa Neto, Roberto Jefferson, para citar alguns e ir para rua falar em combate a corrupção. Terá coragem?

Provavelmente, porque por um projeto de poder ele se aliou a Paulo Maluf. A guerra declarada com Ciro Gomes vai produzir das duas uma: o PDT se alia ao PT e Ciro busca outro caminho para sua peregrinação ou PDT busca inovar num discurso que nunca fez e Ciro fica em 3º ou 4º lugar na disputa eleitoral. Ele promete que em 2022 será sua última disputa. Isso é um sinal de que o discurso da esquerda não tem mais crédito. Não acredito que ninguém de esquerda seja capaz de obter votos da maioria desse país.

O resumo da ópera é simples: Lula, como líder, já não tem mais esse reconhecimento. Os aplausos recebidos de alguns políticos internacionais vieram pelo que ele foi e não pelo que é. As pessoas que estão a sua volta já perceberam que o caixão de Quincas é bem pesado e, dentro em breve, estarão acendendo vela para outro defunto. Cabe a ele decidir o momento de parar.

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