ENRASCADAS

A política monetária brasileira é complexa. Tem hora que dá certo. Tem momentos que desalinha. O resultado, se positivo ou negativo, depende da forma como o governo usa este importante instrumento para monitorar o desenvolvimento da estrutura financeira do país.

Não tem exceção, todos os países empregam a política monetária para administrar a economia. A política monetária é a diretriz mais indicada para estabelecer a relação entre renda, emprego e a competividade brasileira no mercado externo. Funciona como uma balança para dimensionar a variação do que acontece no setor interno, a respeito do emprego/desemprego e também para revelar a performance do país no setor externo.

Por ser uma economia modesta, sem impor privilégio na competitividade internacional, no período entre 1980 e 2000, o Brasil obteve poucos resultados positivos. Do total das exportações, cerca de 70% da pauta de vendas externas eram constituídas de bens com baixa complexidade. Foram vendidos bens primários diversificados em produtos agrícolas, minérios e energéticos. Os produtos exportados não passavam de bens industriais básicos.

Por sua vez, as importações concentravam-se na compra de máquinas e de insumos químicos para serem transformados em novos produtos. Como a década de 80 foi atacada por grave crise, e muitas turbulências no mercado externo, o resultado foi desanimador.

Pintou estagnação econômica, paralização do PIB, elevação do endividamento externo e inflação elevada. Com queda na renda familiar e crescimento da taxa de pobreza. Por produzir efeitos negativos, 1980 ficou conhecido como a “década perdida”. Apesar da Fundação Getúlio Vargas ter registrado em 1,6% a taxa de crescimento econômico.

Nos anos 90, o país viveu nova tendência. Depois de anos de regime militar, aconteceram as eleições diretas. O Presidente eleito, Fernando Collor, foi enérgico. Mas, pisou na bola. Tomou medidas radicais. Mudou a moeda. Confiscou depósitos bancários. Alterou a correção monetária. Enxugou a máquina administrativa. Extinguiu ministérios. Privatizou estatais. Demitiu servidores públicos. Congelou preços e salários. A trajetória governamental foi tão truncada que o governo Collor acabou em impeachment.

O decepcionante desempenho em matéria de inovação nos anos 90 esbarrou em três entraves, responsáveis para distanciar a economia brasileira da competição no mercado globalizado. Os baixos investimentos e o corte de verbas em áreas especificas, como a educação deixaram a tecnologia capenga, ultrapassada em relação ao avanço no mundo.

O esquecimento em acionar a política de desenvolvimento, capaz de acelerar a evolução industrial e tecnológica, amoleceu o ânimo dos investimentos. Esfriou o empreendedorismo.

A impureza que jogou as transformações básicas contra a parede no Brasil, que aconteciam sistematicamente no mundo, nos campos da privatização, da liberalização do comércio e até na constituição acionárias de importantes empresas estrangeiras, tem um nome bem conhecido da população. O chamado déficit público que tem a mania de inadvertidamente cortar gastos em áreas estritamente fundamentais. Educação, pesquisa e desenvolvimento.

Quando implantaram o Plano Real, em 1994, a política macroeconômica tinha a finalidade de estabilizar os preços e abrir espaço para as reformas estruturais. Na época, as taxas de juros eram vergonhosamente altas. Tão exorbitantes que sobrevalorizou a taxa de câmbio.

Todavia, como o comércio não aguentou o baque, a salvação foram as commodities que imediatamente ganharam projeção no cenário internacional, devido aos preços competitivos, sobretudo no preço das matérias primas e de insumos agrícolas. Os negócios produziram bons resultados especialmente nos setores industriais de baixo valor agregado de áreas como minerais não metálicos, mineração, papel, polpa, aço e metalurgia.

O deslize da história foi a perda de oportunidade do país para renegociar a dívida externa. A tática na época rolava sob a seguinte estratégia. Dívida não é para ser paga, mas, simplesmente rolada para a frente. Tal como realizou o México em 1982.

Mas, apesar de tudo, o país tirou boas lições dessa engrenada. Começou a introduzir a automação dos bancos, fomentar a exploração do petróleo, incrementar o setor de aeronáutica e inclusive cair de cara na modernização das telecomunicações que andavam bem atrasadas.

A mancada foi que embora o país tenha alcançado a estabilidade de preços, realizado a mudança da moeda, confiscado depósitos bancários, alterado a sistemática da correção monetária, enxugado a máquina administrativa e promovido o congelamento de preços e de salários, acabou balançando na estrutura da estabilidade econômica.

Mas, pelo andar da carruagem, a década de 2000 não mostra a tão esperada desenvoltura. Pelo menos nas projeções do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da FGV, no período entre 2011 a 2020, o crescimento médio do Brasil deve ser muito baixo. Desestimulante.

Faz tempo, as condições macroeconômicas do país têm piorado. Desde 2014, os sucessivos déficits nas contas públicas causam transtornos internos. A dívida do país aumenta abafa o ritmo de crescimento. A consequência é trazer mais desarrumação. Derrubar o PIB, adiar a recuperação.

Em dois anos, o PIB, preguiçoso, só cresceu 1,1%. Para 2019, a previsão dos analistas também não é boa. Por conta dos seguidos recuos, possivelmente o Produto Interno Bruto feche em torno de 2,2%. E olhe, lá.

Em 2018, a greve dos caminhoneiros e as incertezas eleitorais repercutiram negativamente. Até hoje, a economia se ressente dos ataques indiretos. Por outro lado, o baque da Argentina, grande parceiro comercial do Brasil, travou a retomada da economia. A desaceleração mundial também ajudou a acochar a enrascada.

A esperança para se livrar das embrulhadas recai nas reformas. A Trabalhista, a Previdenciária, a Tributária, a Orçamentária, a Administrativa, a Política e, sobretudo, a Reforma Econômica. Todas imprescindíveis.

Algumas em andamento, outras, no entanto, permanecem preguiçosamente enveredando no caminho da concepção. Engavetadas. Para deixar o tempo correr e o povo terminar esquecendo da utilidade delas para o bem do país. E não cobrar pela negligência.

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