RODRIGO CONSTANTINO

Às vezes fico com a nítida sensação de que estamos todos falando de dois países distintos, apesar do mesmo nome. Quando leio certas reportagens ou editoriais nos jornais brasileiros, fico na dúvida se estão se referindo ao Brasil que conheço e acompanho de perto. Pois se for o mesmo país, há algo muito esquisito na forma como cada um observa, filtra e apreende os fatos.

Vejamos o editorial do Estadão de ontem. Uma peça contra Bolsonaro, claro. Mais uma. Até aí, tudo bem. O jornal tem feito escancarada oposição ao atual governo. Mas daí a fazer alertas sobre um suposto risco de “desobediência civil” sem uma só contextualização sobre os arbítrios do Poder Judiciário vai uma longa distância. Diz o editorial:

O líder do governo na Câmara, Ricardo Barros, disse que “vai chegar uma hora” em que as decisões judiciais não serão cumpridas pelo Executivo. […] A declaração do deputado Ricardo Barros, como a do próprio Bolsonaro antes dele, constitui ameaça explícita de desobediência civil. É um padrão bolsonarista. Esse desafio à ordem constitucional, de clara natureza golpista, é parte do processo de deterioração da democracia deflagrado por Bolsonaro desde sua posse. Ao avisarem que não pretendem acatar ordens judiciais, a não ser as que considerem “fundamentadas”, os bolsonaristas expõem com clareza sua estratégia de desmoralizar as instituições da República para submetê-las a seus propósitos liberticidas.

O editorial parece escrito em Nárnia, na Suíça, em outro país qualquer que não o Brasil, onde o Poder Judiciário tem sido o primeiro a desmoralizar as instituições da República ao promover um ativismo abjeto e rasgar a Constituição com enorme frequência. Comparem com a análise precisa do experiente jornalista J.R. Guzzo, em coluna na Gazeta do Povo, que abre colocando logo os pingos nos is:

O Supremo Tribunal Federal, quando se deixa de lado os não-me-toques usados para “proteger as instituições”, e se fala em português claro, funciona cada vez mais abertamente como o principal protetor do crime no Brasil — e tem cada vez menos interesse em disfarçar o que está fazendo. O ministro Edson Fachin proibiu os voos de helicóptero da polícia sobre as favelas do Rio de Janeiro; o único direito que ficou garantido, no caso, foi o dos criminosos, que agora estão protegidos de ações policiais capazes de revelar suas posições no território que ocupam.

O ministro Marco Aurélio soltou um dos maiores traficantes de droga do país; o homem fugiu no ato, e nunca mais foi encontrado. O ministro Gilmar Mendes não pode ver um ladrão do erário sem sacar do bolso um alvará de soltura. Agora é a vez da ministra Rosa Weber, que deu ao governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), um dos políticos brasileiros mais enrolados com suspeitas de corrupção no uso de verbas públicas no combate à Covid-19, o privilégio de não ser interrogado nesse picadeiro de circo que “investiga” a pandemia no Brasil.

Qualquer pessoa minimamente séria e atenta já percebeu que é a atual composição do nosso STF que mais ameaça nossos pilares republicanos, sempre frágeis. Vale o arbítrio, o voluntarismo, o casuísmo. Mas quem só pensa em derrubar Bolsonaro passa pano até para essa suprema ameaça, enquanto tenta levar a sério uma CPI circense com a relatoria de Renan Calheiros. Para atingir Bolsonaro, vale tudo, pelo visto. Nossa imprensa em geral é cúmplice desse establishment podre.

É como lembrou Leandro Ruschel: Enquanto a extrema-imprensa denuncia o ‘golpe’ que Bolsonaro estaria preparando, os presidentes dos maiores partidos brasileiros se reuniam em conferência com membros do Partido Comunista Chinês sobre ‘governança’, aprendendo um ‘novo modelo de democracia'”. Ruschel acrescentou: “Se em público eles já fazem conferência desse tipo, imagina o que não está rolando nos bastidores”.

Eis o que está cristalino para a parte do povo que enxerga com mais clareza os fatos, por não sofrer de patologia antibolsonarista ou de abstinência de roubalheira petista: o “sistema” quer expelir Bolsonaro custe o que custar. E por isso criam uma narrativa de ameaça fascista fantasma vindo do atual governo, enquanto resgatam monstros do pântano como Renan Calheiros e mesmo Lula.

Guzzo conclui: “É óbvio que o STF está agindo e vai agir como aliado vital dessa gente. Faz todo o sentido que seja assim. Sua missão, seu objetivo e seus interesses são os mesmos — governar o país sem a necessidade de ganhar eleições . Vão fazer qualquer coisa para continuar assim”.

1 pensou em “EM NÁRNIA HÁ ESTADO DE DIREITO, TALVEZ, MAS NO BRASIL?

  1. Constantino citou o Estadão e Guzzo com visões completamente antagônicas quanto ao funcionamento da Justiça no Brasil.

    Eu fico me perguntando: Guzzo ainda escreve no Estadão?

    Se sim, ele está de parabéns, pois não molda seus comentários pelo editorial do seu pagador. Se não, o Estadão cada vez mais se torna o contrário daquilo que já foi. Um jornal Conservador.

    Euclides da Cunha, que já foi jornalista do Estadão, deve se revirar no túmulo.

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