MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Sim, ela está de volta. A temida. A amaldiçoada. A indesejada das gentes. A inflação.

Mas o que é a tal da inflação? Como eu já disse em outros pitacos, em termos de economia é algo muito simples, mas quando se mistura outras coisas no meio a coisa pode ficar bem complicada.

A lei da oferta e procura é um dos fundamentos mais básicos da economia: determina o preço de tudo, inclusive do dinheiro (talvez seja melhor dizer “das moedas”). Só que ao contrário dos demais bens e serviços cuja oferta é sempre limitada porque produzi-los exige trabalho, as moedas são criadas do nada e portanto não há limites para sua oferta. E qual a consequência disso?

Por exemplo: se a quantidade de tomate disponível nos mercados aumentar, o preço diminui. Mas ninguém vai gostar menos de tomate por causa disso. Isso significa que a variação na oferta não afeta a demanda. Mas no caso do dinheiro, a coisa é pior: quando o governo aumenta a quantidade de moeda, aumenta a oferta. Mas isso faz com que as pessoas percam a confiança e não queiram mais essa moeda, trocando-a por dólares, euros, ouro ou qualquer outra coisa que conseguirem. Ou seja, a inflação aumenta a oferta e ao mesmo tempo diminui a demanda. Por isso que o valor da moeda desaba.

E de quem é a culpa? Repito: em termos de economia, é simples, desde que não se misture ideologia ou política:

A culpa não é do capitalismo

Basta constatar que os países normalmente lembrados quando se fala em capitalismo não têm inflação: Suíça, por exemplo, ou Estados Unidos (que nem é mais tão bom exemplo assim). Capitalismo tem a ver com liberdade de comércio, e quando existe liberdade o preço de tudo, incluindo o dinheiro, tende a se estabilizar em um valor de “consenso” determinado pelo equilíbrio entre oferta e procura.

A culpa não é do neo-liberalismo

Nem do liberalismo sem neo. O Brasil não tem e nunca teve liberalismo. No Brasil, o governo controla o preço dos combustíveis, da energia elétrica, do gás de cozinha, dos remédios, das escolas, dos planos de saúde, do transporte público, dos pedágios. Existe tabela de frete rodoviário. E o restante da economia está sujeito às ameaças de um monte de órgãos do governo que “requisitam explicações” e ameaçam com processos qualquer um que faça algo que eles não gostam. Perdoem a pobreza da comparação, mas culpar o liberalismo por algo no Brasil é como culpar as praias em Minas Gerais ou a neve no Maranhão.

A culpa não é dos empresários malvados

A reclamação do momento não é o preço dos alimentos? Mas não estamos celebrando recordes de produção agrícola? Então algo está errado. Seria normal esperar aumentos no setor industrial, que foi fortemente afetado pelo “lock-down”. Mas vegetais não deixaram de crescer por causa da COVID, não há falta de produto; é que na verdade os alimentos não ficaram mais caros, é nosso dinheiro que está valendo menos.

Mas explicando de forma mais geral: existe o dogma de que os empresários aumentam os preços sempre que sentem vontade. Qualquer um que já tentou empreender sabe que isso é uma tolice. No livre mercado, os preços tendem a cair, não subir, por causa de uma coisa chamada concorrência. Neste pitaco de fevereiro (clique aqui para ler) eu mostrei que desde o início do Plano Real, os preços de mercado subiram 440% enquanto os preços que o governo “controla” para “proteger o consumidor” subiram 850%. Além disso, há quem acredite que a subida de um preço faz todos os outros subirem. É o contrário: Mesmo que exista um empresário, ou grupo de empresários, com poder suficiente para subir arbitrariamente os preços de determinado produto, o que vai acontecer é: se o produto não é essencial (em economês: demanda elástica), sua venda vai cair. Se as pessoas precisam desse produto (em economês, demanda inelástica), elas vão diminuir o consumo de outros produtos para compensar a despesa, e isso força o preço dos outros produtos para baixo, não para cima. Não há fundamento econômico para achar que aumento de preço causa inflação (a menos que o governo se meta, é claro).

Para deixar bem claro: aumento de preço de UM produto específico, seja causado por seca, enchente, guerra ou qualquer outro motivo, não é inflação. Inflação é aumento da oferta monetária e causa aumento de TODOS os preços.

A culpa não é dos outros países

Sim, este ano nossas exportações agrícolas foram grandes. E daí? Os políticos e os economistas do governo não vivem repetindo que dólar alto é bom para a economia porque estimula as exportações? Foi exatamente o que aconteceu: o valor da nossa moeda desabou e estamos exportando como nunca. Não era para estar dando certo? Sinceramente, caro leitor: essa idéia de que moeda fraca fortalece a economia e o mercado interno me parece tão irracional que eu custo a acreditar que existem adultos que acreditem nela.

A culpa não é do Trump

Vi bastante gente pelos facebook da vida falando que “o Trump subiu o dólar”. Bobagem, não foi o dólar que subiu, foi o real que baixou, e não foi o Trump que mandou (nem precisaria). Aliás, a inflação do dólar também está aumentando, porque o governo dos EUA também está fabricando dinheiro aos montes esse ano. A última vez que o dólar esteve fraco, entre 2005 e 2010, foi ótimo para o Brasil, mas dessa vez provavelmente vamos perder a chance.

A culpa não é do COVID

As consequências econômicas de uma situação como a do COVID – fábricas sem produzir, comércio fechado, empresas falindo – são recessivas: tendem a causar diminuição nos preços, não aumento. Lógica básica: se está todo mundo sem dinheiro, como os preços vão subir? Inúmeros casos históricos mostram que se o governo não interferisse absolutamente nada na economia durante a pandemia, teríamos uma recessão, que causaria uma redução generalizada de preços, que impulsionaria a recuperação assim que a quarentena acabasse. Quer um exemplo? Estados Unidos em 1920, explicado num pitaco que escrevi em janeiro deste ano (clique aqui para ler). Com o governo interferindo, o que seria uma crise curta vira uma crise sem data para acabar.

Sim, a culpa é do governo

Não há como fugir da conclusão: inflação é causada pelo dono do dinheiro, ou seja, o governo. Por qualquer lado que se olhe, há um conceito econômico básico que mostra isso.

Pelo lado da moeda, basta olhar o gráfico abaixo, fornecido pelo Banco Central, para ver a quantidade de dinheiro que foi “fabricada” neste ano. Como falei no início, a definição básica de inflação é o aumento da quantidade de dinheiro. O governo “inunda” o mercado com dinheiro surgido do nada, o valor deste dinheiro cai, o que faz o preço de todo o resto subir – arroz, óleo de soja, dólar.

O gráfico mostra a evolução da base monetária, que é um termo em economês para a quantidade de dinheiro existente. Estão vendo a subida brusca no lado direito do gráfico? É o ano de 2020. Saltamos de 306 bilhões em março para 423 bilhões em julho (ainda não temos os números de agosto). É um aumento de 40% em quatro meses. Estão vendo que não há nenhuma subida parecida no restante do gráfico? Falando com todas as letras (sei que certos fãs vão reclamar e me xingar): nem FHC, nem Lula, nem Dilma, nem Temer fizeram o que o governo Bolsonaro esta fazendo em termos de inflação.

Olhando pelo lado do equilíbrio produção-consumo: a quarentena afetou fortemente a produção, ou seja, a oferta. Nosso governo, ao invés de corrigir a oferta (por exemplo, facilitando as importações) preferiu estimular a demanda, distribuindo dinheiro. Ou seja, ao invés de buscar o reequilíbrio, demanda e oferta foram empurradas ainda mais longe uma da outra. Imagine um zôo onde há uma certa quantidade de macacos e uma certa quantidade de bananas. Aí um gênio sugere diminuir a quantidade de bananas e ao mesmo tempo aumentar a quantidade de macacos. Alguém duvida que vai dar problema?

Outro fator em que até os economistas estatizantes modernos concordam: taxa de juros. Quem assistia TV em 1992 talvez lembre que um dos primeiros discursos de Itamar Franco quando virou presidente foi falar que iria baixar os juros. Alguém da área econômica deve tê-lo chamado num canto e explicado, e em pouco tempo ele parou de falar no assunto. Já a nossa equipe econômica atual parece que não sabe disso, porque forçou os juros para muito abaixo da realidade (para dar uma ideia, a taxa real de juros fixada pelo nosso governo é menor que a da Suíça). Consequência óbvia, prevista e confirmada tanto na teoria quanto na prática: queda do câmbio e aumento de preços.

Nas últimas décadas, nosso país evoluiu um pouquinho (não muito) em termos de funcionamento institucional. Não chegamos a ter câmbio fixo, o que significaria uma moeda forte e estável, mas o Banco Central chegou a estar próximo de sua função de “guardião da moeda”, que exige independência de pressões políticas. Infelizmente voltamos a piorar, e o Banco Central voltou a atuar como “puxadinho” do Ministério da Fazenda. “Inflação” e “subida do dólar” são na prática sinônimos, já que sempre andam juntos, e confirmam uma antiga frase: “Em país mal governado, o câmbio flutuante não flutua, afunda”.

Conclusão

Inflação existe desde que existem governos controlando a moeda. Surtos inflacionários aconteceram no Império Romano, na Idade Média, na Revolução Francesa, e se tornaram rotina no século XX, quando quase todos os governos do mundo adotaram a prática de ser os donos do dinheiro. No mundo de hoje, falar contra o “direito” dos governos de destruir as economias do povo, como eu estou fazendo, é pregar no deserto. O que podemos fazer é entender do que se trata para tentar se proteger. Se você tem alguns trocados guardados, compre ouro.

14 pensou em “ELA VOLTOU

  1. “Inflação existe desde que existem governos controlando a moeda”. Errado, caro Marcelo.

    Há uma Lei mais antiga do que a existência das moedas e governos. Esta Lei é mais imutável que a Lei da Gravidade.

    É a “Lei da oferta e procura”. É esta lei que diz se haverá inflação ou deflação em uma troca econômica. É muito complexa para dizer que o governo é o culpado pelo atual estado de aumento de produtos, especialmente os agrícolas. Dizer que nada tem a ver com nada a não ser a política governamental é uma falácia argumentativa.

    Mesmo com este atual desarranjo de preços, a quantas anda a inflação anual?

    • Escreve João Francisco: É muito complexo para dizer que o governo é o culpado pelo atual estado de aumento de produtos, especialmente os agrícolas. Dizer que nada tem a ver com nada a não ser a política governamental é uma falácia argumentativa.

      Confesso minha total incompetência no que rege à política econômica, pois dizem que números, se colocados à parede e ameaçados, confessam tudo que o “torturador de números” desejar.

      Gostaria que nossos analistas entrassem no mérito e argumentassem sobre o questionamento do João.

    • Tudo errado, João.

      Você quer me “ensinar” a lei da oferta e procura, que está no terceiro parágrafo do texto? Ou acha que a lei da oferta e procura contradiz a existência da inflação? Não entendi a lógica.

      Você está fazendo exatamente o que o governo quer: confundindo causa (inflação) e consequência (aumento de preços). Como se costuma dizer, é como achar que a causa da doença é a febre – o que serve de trampolim para alguns acharem que a causa da doença é o termômetro.

      Você pergunta qual a inflação anual? Está no gráfico que eu postei (na verdade, para ser mais rigoroso, eu deveria ter usado o M1 ao invés da base monetária, mas dá na mesma: a disparada dos últimos meses é igual). Este gráfico mostra o quanto o governo INFLOU (por isso o nome) a quantidade de dinheiro.

      Mas algo me diz que na verdade você está chamando de inflação coisas como IGPM e IPCA, que como o nome já diz, são índices de PREÇOS. E, assim como o PIB de que falei duas semanas atrás, são índices calculados pelo governo e costumam confessar aquilo que o torturador quer, como disse o Sancho.

      Aliás, me responda uma coisa: você mesmo citou “o atual estado de aumento de produtos, especialmente os agrícolas”. Mas segundo o governo o IPCA continua baixo. Isso não parece estranho? Se os preços estão subindo e o índice de preços não se mexe, talvez esse índice não seja tão exato ou confiável assim.

      Então fica assim, João: inflação é inflação, preço é preço. Se o preço do tomate subiu por causa do aumento da demanda ou diminuição da oferta, isso não afeta o preço do cimento, do iPhone ou do ingresso do cinema (ou afeta para baixo, como expliquei no texto). Lei da oferta e da procura, simples.

      Quando o governo fabrica dinheiro, ocorre inflação, cujo EFEITO é o aumento de todos os preços EM RELAÇÃO à moeda inflada.

      É um pouco frustrante passar uma tarde pesquisando e trabalhando em um texto, explicando ponto por ponto e mostrando a lógica de cada argumento, para alguém chegar e chamar tudo de falácia, com a única coisa que se aproxima de um argumento sendo “a lei da oferta e procura é muito complexa”.

      • Escreve Bertoluci: É um pouco frustrante passar uma tarde pesquisando e trabalhando em um texto…

        Discordo, pois a posição antagônica é a “bola rolada” e colocada na “cara do gol” para o autor dar o arremate final e fazer o golaço…

        Que venham novos fubânicos, tão brilhantes quanto, concordar ou discordar do autor que pesquisou e trabalhou o texto…

        Nada melhor que um bom embate para elucidar dúvidas… Uma pena não possuir Sancho suficiente intelecto na área de exatas para “argumentar com propriedade” sobre o assunto.

        Nenhuma das vozes que gritam em meu cérebro arriscam qualquer coisa mais agressiva do que círculos e triângulos perfeitos, de números compostos de unidades perfeitamente iguais entre si, de números irracionais que não têm fim…

        • Pois é, Sancho, mas às vezes a coisa parece aqueles jogos da nossa infância onde o time do dono da bola tinha que ganhar sempre, senão ele levava a bola embora.

          Eu adoro debater idéias (por que outro motivo eu estaria escrevendo aqui?). Mas depois de matutar e caprichar para apresentar as idéias bem arrumadinhas, com argumentos, com sequência lógica, com dados, ouvir de volta “Não gostei. Vou chamar de falácia” não é bem um debate.

          Mas, como você disse, que venham novas opiniões, novos argumentos e novas idéias.

      • Marcelo, eu não sei quanto tempo v. pesquisou para descobrir que o IPCA e o IGPM são manipulados de acordo com a vontade do governo de turno. Assim como você estudou para concluir que o Produto Interno Bruto de um país não reflete a economia do país.

        Eu não sou profissional da economia. Só sei que em um baile, se tiver muitos homens e poucas mulheres, estas ficarão inflacionadas e os rapazes terão que “pagar mais caro” pelo “produto mulher” (se alguma mulher se ofender com a comparação inverta a coisa) Isto é a Lei da oferta e da procura.

        Os índices de inflação são um retrato da economia de um país, regem contratos, reajustes e dá a confiabilidade no investimento. Se houver manipulação, alguem investiria em um país assim? Alguém ainda acredita na Argentina ou na Venezuela?

        • Você está no caminho certo. Só falta você entender que se o dono do salão distribuir cinco mil papeizinhos dizendo “este papel dá direito a dançar com uma parceira a noite toda”, mas não existirem cinco mil mulheres no salão, os tais papeizinhos não vão valer nada.

          Quanto à sua fé nos índices:

          “Os índices de inflação são um retrato da economia de um país…”
          E um retrato pode ser mais fiel ou mais enganador, dependendo das intenções do fotógrafo ou pintor.

          “…regem contratos…”
          Porque o governo obriga

          “…reajustes…”
          Porque o governo obriga

          “…e dá a confiabilidade no investimento.”
          Só alguém muito inocente planeja investimentos baseando-se em índices oficiais. Converse com alguém que já tenha investido.

          “Se houver manipulação, alguem investiria em um país assim?”
          De novo, você está no caminho certo para entender porque desde 22 de abril de 1500 somos sempre o país do futuro, mas o tal futuro nunca chega no presente.

          Reiterando: nunca neguei a lei da oferta e da procura (ao contrário de gente que acha que ela deveria ser “regulada” pelo governo). Mas meu artigo fala sobre INFLAÇÃO. Os efeitos da inflação sobre os preços se devem exatamente devido à lei da oferta e da procura. Me parece que você está dizendo que o aumento de preço de um produto específico por um desequilíbrio oferta-demanda qualquer é que é inflação.

          Metáfora de futebol: se eu digo que “jogar com volante de contenção” não é bom, mas eu e você temos conceitos diferentes do que é um volante de contenção, a conversa não chega em lugar nenhum.

          Se você acha que inflação significa simplesmente aumento de preços, sempre e por qualquer motivo, então me diga que nome você dá quando o governo aumenta drasticamente a emissão de moeda, porque é disso que eu estou falando.

  2. Eu vou meter por conta da minha formação. A oferta de moeda é vertical significando que o volume de dinheiro é dado. Aumento na oferta de moeda diminui a taxa de juros, estamos com taxa de 3%ao ano, porque o mercado de títulos cai e o consumo aumenta, logo surge a inflação de demanda. Os custos de produção tornam-se mais caros e vem a inflação de custos, onde o aumento dos custos é repassado para o preço. O governo não cria moedas. Ele altera o oferta via operações de open market, comprando e vendendo títulos , toda quarta feira. Quem cria “moedas são os bancos comerciais ou bancos múltiplos com carteira comercial” por conta do multiplicador bancário. Esse multiplicador é o inverso do depósito compulsório. Se o depósito for 50%, isto é, de cada real depositado em conta corrente, R$ 0,50 deve ser entregue ao BC, então cada real depositado é multiplicado por 2. Até o ano passado o depósito compulsório era 33% e em 27.06.2019, Guedes reduziu pra 31% injetando 80 bilhões na economia. Isso ia aumentar o crédito e o consumo, fazendo a economia crescer. Ocorre que veio a pandemia e o risco aumentou porque as pessoas ficaram sem emprego. Então, a culpa da inflação é a alta da demanda e dos custos. Guedes tem razão quando coloca o aumento do consumo como responsável, pelo seguinte:
    1 – a apreciação do dólar frente ao real tornou nosso produto barato e os produtores preferem ganhar mais de modo que a oferta doméstica diminui.
    3- no caso do arroz a área plantada diminuiu quase 60%
    3) houve aumento no consumo porque o auxílio emergencial favoreceu pessoas que alocam sua renda em bens de primeira necessidade
    5 – enquanto o dólar estiver nesse patamar teremos problemas. Combustível é atrelado ao dólar e a produção no Brasil anda de caminhão.

    • Estava aguardando sua participação, Maurício. Como você sabe, eu não tenho formação nenhuma e pitaqueio só de metido que sou. Mas quanto mais estudo, mais me convenço que a economia “mainstream” (pode chamar de keynesiana se quiser) é uma mistura de fé cega em dogmas com malabarismos matemáticos parecidos com aqueles que “provam” que vacina causa autismo.

      Meus pitacos, ponto a ponto:

      – Se aumento na oferta de moeda diminui os juros (e os economistas não vêem nenhuma desvantagem no aumento, só vantagens) então nenhum governo do mundo precisaria pagar juros: era só aumentar a oferta de moeda até os juros ficarem ínfimos, e de quebra ganhariam “aumento de crédito e consumo, fazendo a economia crescer”.

      – Se os juros diminuem com a oferta de moeda, porque os juros são fixados pelo governo em uma pomposa reunião do COPOM, que é para o jornalismo econômico tipo um OSCAR ou Olimpíada? Não era para ser um processo automático?

      – “o consumo aumenta, logo surge a inflação de demanda.”
      Quando a demanda cresce estimulada pela criação de dinheiro e crédito, eu prefiro chamar “aumento de demanda”, justamente para não confundir causa e consequência; é importante lembrar que cavalo-marinho não é um tipo de cavalo e peixe-boi não é um tipo de peixe.

      – “Os custos de produção tornam-se mais caros e vem a inflação de custos”
      Se aumento do consumo leva a aumento da produção, o custo de produção tende a cair (por economia de escala e outras coisas). Sim, o maior consumo de matéria-prima causará aumento do seu preço, mas a matéria-prima é só uma parte do custo do produto. Se o aumento de consumo causasse inflação, os países desenvolvidos estariam permanentemente em inflação, porque estão sempre consumindo mais, e os países pobres estariam livres do problema, porque não consomem. A prática mostra o contrário.

      – Repito que minha impressão sobre todo esse palavreado é que ele serve apenas para esconder a culpa dos governos, que são os que destroem a moeda via inflação. É como você dar um tiro no peito de um sujeito, mas dizer que ele morreu de “fluxo sanguíneo insuficiente devido à interrupção da atividade cárdio-respiratória”. Tecnicamente está correto, mas fica óbvia a intenção de esconder alguma coisa, concorda?

      – Quem cria moeda é o Banco Central, ao comprar títulos dos bancos. Os bancos criam “dinheiro eletrônico” do nada – mas obedecendo às regras do governo – e podem emprestar este dinheiro para seus clientes ou para o Tesouro, em troca de títulos. Este “dinheiro eletrônico” não é exatamente moeda, é um crédito que pode ser bom ou não. Quando o banco cria créditos e repassa para o BACEN, recebe moeda boa em troca.

      – A quantidade de crédito, ou dinheiro virtual, que os bancos podem criar não é necessariamente vinculada ao depósito compulsório; a relação entre os dois é aquela que o governo determina. Se o governo estipular um compulsório de 50% mas ao mesmo tempo disser que os bancos podem operar com 1000% de alavancagem, ele pode. Só o que impede isso é o juízo do Ministro da Economia, supondo que ele tenha algum.

      – A diferença entre um e outro: quando o banco usa seu dinheiro virtual para comprar títulos do tesouro e vende estes títulos para o BC, o banco passou a estar com reais de verdade na mão (ele pode pedir este dinheiro para o BC em cédulas de 200, se quiser). Quando o banco cria dinheiro virtual para emprestar para o Marcelo, ele criou um crédito e um débito em seu balanço, e assumiu um risco. Se o Marcelo der um calote, o banco ficou com um débito sem crédito, e vai ter que transferir isso para a conta dos prejuízos (estou falando em termos contábeis). Não houve criação de dinheiro na economia: o Marcelo ganhou dinheiro e o banco perdeu (é quase como se o Marcelo tivesse simplesmente assaltado o banco). Houve transferência de dinheiro, mas não houve aumento na quantidade total de dinheiro na economia. Esse aumento, repito, só o Banco Central faz.

      – “Guedes tem razão quando coloca o aumento do consumo como responsável”
      Sim, o Guedes deu o tiro, mas o culpado pela morte da vítima foi o coração dela que parou de bater.

      – “a apreciação do dólar frente ao real tornou nosso produto barato”
      E o dólar apreciou assim, do nada? Apreciou porque o governo aumentou a oferta de reais e desequilibrou oferta e demanda. E como eu disse no artigo, desequilibra as duas pontas: aumenta a oferta (porque aumentou a quantidade) e diminui a demanda (os investidores querem se livrar dos reais o quanto antes). O câmbio é sempre um dos primeiros a refletir a inflação. Os preços ao consumidor geralmente são os últimos, porque cada etapa da cadeia produtiva tenta absorver parte dos aumentos porque sabe que simplesmente repassar para o preço impacta nas vendas.

      – “houve aumento no consumo porque o auxílio emergencial…”
      Sim, e sempre que há aumento no consumo originado não em aumento de produção e eficiência, mas em crédito criado pelo governo (aka inflação), existe aumento generalizado de preços e tendência a formação de bolhas (EUA 1920, EUA 1929, Encilhamento e Plano Cruzado no Brasil, etc, etc. Meu próximo pitaco será sobre isso)

      – “enquanto o dólar estiver nesse patamar teremos problemas. Combustível é atrelado ao dólar”
      Combustível no Brasil é atrelado ao que o governo quiser, a Dilma mostrou isso muito bem. Mas os economistas não dizem sempre que dólar valorizado é bom porque estimula a exportação e melhora a balança comercial? Não chamavam o Ciro Gomes de gênio na última eleição porque ele dizia que ia colocar o dólar em cinco reais (estava menos de quatro). Não era para nossa exportação estar “impulsionando a economia”? Não dizem que real forte é ruim? O Guedes não estava, no ano passado (quando ninguém falava em covid-19) dando entrevistas deixando claro que para ele o dólar subir ou não não fazia menor diferença?

      – Me desculpe por incluir você nessa, mas enquanto existir essa troca de favores entre o mundo acadêmico e o governo, as coisas não tem chance de melhorar. Por troca de favores, entenda: o governo dá bilhões para as universidades manterem os lautos salários de seus economistas, e em troca os economistas escrevem infinitos textos, artigos, livros, teses, compêndios, todos garantindo que a culpa da inflação é do tomate, do xuxu, do petróleo, de todo mundo menos do governo.

      (caramba, ficou maior que a coluna)

      • Marcelo, vou complementar algumas coisa visto que você esperou um comentário meu:
        1) não adianta aumentar a oferta de moeda para zerar a taxa de juros. Taxa de juros baixa, cai na armadilha da liquidez e a política monetária fica incapaz de melhorar a economia. Acho que estamos vendo isso. Taxa de 2% ao ano e a economia patinando.
        2) O dinheiro que o governo dá às universidades não é de livre e espontânea vontade, mas constitucional. Ainda assim tivemos verbas cortadas, tivemos contingenciamento, etc. Eu sempre defendi a participação da iniciativa privada no financiamento de pesquisas e já falei o que fiz como secretário da fundação de apoio. O governo propôs o Future-se e participei de vários seminários explicando o programa, seus impactos, e me coloquei contra o fato da universidade contratar uma OS quando tem uma fundação.
        3) Eu tenho formação e economia e defendo o uso da ciência econômica para explicar as pessoas os impactos de mudanças no cenário. Por que os preços estão altos, por que o dólar subiu, etc. Faço isso no sentido de desvincular a Economia da Ideologia. Eu analiso números e falo sobre eles.
        4) Gostaria muito que eu tivesse bilhões dado pelo governo, mas só conto com meu salário. Faço um projeto de pesquisa para o governo e não recebo bolsa. Tinha uma equipe de 5 estudantes que solicitei bolsa e não foi aprovado. Então, desenvolvo minha pesquisa sozinho, sem receber um centavo se quer. Tenho um cartão com R$ 20 mil para custeio, gastei R$ 210,00 para comprar material de consumo.
        5) Sou alocado no departamento de Contábeis e Atuariais. Com a suspensão das aulas presenciais estamos dando aula remota. O departamento de economia não disponibilizou professores de micro e macroeconomia para o curso de ciência política e um professor de lá me ligou perguntando se eu poderia assumir uma dessas disciplinas para não prejudicar os alunos. Assumi as duas. Além de três outras no meu curso de atuariais.
        6) Opino sobre textos de economia, seus, de Adônis ou de Carlos Ivan, porque vejo que há conceitos que precisam ser bem definidos para não criar outras interpretações. Dizer que o governo é responsável pela inflação porque cria moedas é um equivoco. Quem criar meios de pagamentos são os bancos. O governo cria cédulas, como fez com a de R$ 200,00, mas a Suíça também oferta moeda e a inflação é 0,1% ao ano. Então seu comentário é um sofisma.
        5) Com relação ao dólar, lógico que aumenta exportações porque, escrevi isso em 2017 e um candidato a governador aqui usou nas suas palestras, seria uma forma de aumentar o PIB visto que o consumo estava estagnado pelo achatamento de renda e pelo desemprego alto, o investimento caindo pela taxa de juros alta, na época, pelo desemprego e pelas incertezas e os gastos do governo pela PEC do teto. Sobra exportações líquidas. Entretanto, não se pode desprezar a oferta doméstica cai e os custos de produção em alguns setores aumentam. Se essa situação perdurar, vamos ter problemas mais graves com o nível de preços e isso pode se reverter num período mais longo de desemprego.
        7) Minha linha de raciocínio segue a otimização dinâmica e não estática. Ao invés de determinar no início do mês qual a quantidade produzida que vai maximizar lucro, eu traço uma trajetória onde o lucro vai ser máximo em cada instante. Acho que o governo pode reduzir sua participação, entendo que algumas coisas precisam ser mudadas, mas como economista eu não conheço nenhum programa melhor do que o de Guedes, desde o período da redemocratização. Acho que Perso Arida e a turma do Real fizeram um modelo de estabilização que já está aí com seus 26 anos.
        8) Sobre o empréstimo do banco que “Marcelo” deu calote. Você continua errado. O dinheiro que o banco emprestou não foi colocado no colchão. Basta esse dinheiro ter entrado na conta corrente de alguém para multiplicar. O BC não pode emitir moeda quando quiser. Bresser Pereira sugeriu isso recentemente e eu fiz uma crítica pública a ideia dizendo que haveria pressão inflacionária por conta do câmbio e emitir moeda seria apagar o fogo com gasolina.
        No mais, entendo que seu comentário teve um objetivo, no entanto, os fundamentos não estão todos de acordo com a teoria. Tem muita gente que defende gastos do governo e na minha aula de ontem eu fiz um exercício com os alunos: se o governo aumentar os gastos, vai aumentar o produto, e a renda aumenta. Aumentando a renda, aumenta a arrecadação do governo. Então, valeria a pena aumentar gastos. Mas, eu uso Matemática, Marcelo, para respaldar minhas posições. Você pode discordar delas, mas não acho prudente discordar da matemática. Seguindo esse raciocínio eu mostrei, matematicamente, que aumento nos gastos do governo vão reduzir o superávit (no nosso caso, aumentar o déficit) independe do que valor que for a propensão marginal a consumir e da alíquota do imposto de renda.

        • 1. Concordo, oferta de moeda não garante juro menor. Vc que disse no comentário anterior “Aumento na oferta de moeda diminui a taxa de juros”.

          2,4,5. Concordo. Mas vc acha que a sua postura é regra ou exceção no universo das universidades públicas brasileiras?

          6. Conceito bem definido pela legislação: O governo cria moeda através do Banco Central usando os bancos como intermediários. Bancos não poderiam expandir seus empréstimos indefinidamente se não tivessem o BACEN comprando títulos.

          6a. Desculpe a rudeza, mas sofisma é comparar a moeda brasileira com a suíça. A base monetária (ou o M1) da Suíça cresceram 40% este ano? O governo da Suíça emite moeda e mantém sua oferta estável, o governo do Brasil emite moeda em volume exponencialmente crescente. Percebe a diferença?

          5(b). Aumentar a exportação através de desvalorização cambial é uma falsa solução; é como uma empresa aumentar as vendas fazendo liquidação. O resultado é sempre esse que estamos vendo: quando a desvalorização começa, é anunciada como uma panacéia que vai aumentar empregos, estimular a economia, resolver tudo. O que acontece é que o preço de tudo aumenta e às vezes até falta produto. Aumentar exportação é ótimo se for baseado em produtividade e competitividade, não em desvalorização cambial. Além disso, a desvalorização cambial é apresentada como algo proposital, que o governo fez porque é bom, quando na verdade é apenas consequência da inflação, que o governo faz não porque quer mas porque não têm outra saída para pagar as contas sempre deficitárias.

          7. O Real “estabilizado” vale seis vezes menos do que valia em 95, os preços controlados pelo governo já subiram quase 1000% e o programa do Guedes eu não sei qual é, porque ele fala que quer privatizar e o chefe dele desmente. Pode parecer heresia, mas o Meirelles comandou nossa economia muito melhor do que a equipe atual (é verdade que o ambiente internacional era mais favorável, mas mesmo assim).

          8. Sobre o tal “multiplicador” nem vou falar para não perder o amigo. Mas você concorda que se o Marcelo empresta dinheiro do Bradesco e não paga, o Marcelo ganhou e o Bradesco perdeu?

          9. O BC pode emitir moeda sempre que o seu presidente e o ministro da fazenda quiserem, e é isso que ele vem fazendo. Não sei o nome exato do papel que o Campos Neto assina autorizando, mas é o BACEN que cria dinheiro e entrega para os bancos em troca de títulos do tesouro. Recentemente tentaram dar uma pedalada e autorizar que ele pudesse aceitar títulos privados, o que aí sim seria jogar gasolina no fogo.

          Aliás, não sei se estou entendendo sua posição: você diz que se o BC emitir moeda “haveria pressão inflacionária por conta do câmbio” e “emitir moeda seria apagar o fogo com gasolina”. Ora, é exatamente o que eu estou falando. Será que você acha que isso *NÃO* está acontecendo? Você está falando que não está havendo pressão inflacionária quando a base monetária sobe 40% e a desvalorização da moeda é a pior da América do Sul depois da Venezuela e da Argentina?

          10. A matemática é perfeita em si mesma, mas ela pode representar ou não a realidade. Afirmar que “governo gastar mais” = “aumenta o produto” = “aumenta a renda” não tem nada de matemática. Isso é uma afirmação que pode ou não ser verdadeira.

          Eu sei que “governo gastar mais é bom para a economia” é considerado uma certeza tão indiscutível quanto o teorema de Pitágoras para a maioria absoluta do meio político, econômico, acadêmico e filosófico. Eu não concordo e isso não é discordar da matemática. É discordar de um conceito bastante subjetivo e difícil de demonstrar na prática. Afinal, se é tão simples, porque países como o Brasil, onde o governo sempre foi enorme e sempre gastou muito, não são potências econômicas? Porque os países que não inflacionam a moeda e cujos governos não têm déficit são ricos? Porque todas as hiperinflações do mundo começaram com o governo gastando mais do que arrecada?

          Se é possível usar a matemática para analisar a economia, porque todos os governos do mundo não cobram o “valor ótimo” de impostos, praticam o “valor ótimo” de investimentos, definem o “valor ótimo” da taxa de juros? Porque isso é como achar que se medirmos uma série de parâmetros dos jogadores de um time podemos determinar “matematicamente” se o time vai ganhar ou perder o próximo jogo.

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