CARLOS IVAN - ENQUANTO ISSO

A recessão não pede licença para agir. Chega descaradamente, de cara lavada, com o propósito de atormentar. Invadir a economia com segundas intenções, sem dar satisfações.

O retrocesso, realmente pinta e borda. Por onde passa, destroça. Deixa rastros de destruição, acumula graves consequências. Torra a paciência da população.

A meta da recessão é provocar desequilíbrios de toda espécie. Envergar a atividade produtiva, comprimir a produção, desempregar, elevar os preços no mercado, inflacionando, abater a renda familiar, restringir o consumo, reajustar tarifas de serviços indispensáveis, como água, energia e transporte.

O pior de tudo é que a recessão afugenta os investimentos, principalmente os provenientes do estrangeiro. Bate forte no poder de compra do consumidor que, sem reação, parte para o endividamento, na tentativa de encontrar saída para a crise. Mas, atabalhoado, de repente o cidadão se vê envolvido nos efeitos da crise. Paralisado completamente.

Todo mundo renega a recessão. Os empresários, espremidos pela crise forçada, deixam de lucrar com a queda de produção na fábrica e no comércio. E a redução de venda. O empresariado sofre com o fechamento de negócios de exportação e importação e com a ociosidade castigando o ramo industrial e comercial. Causada pela fuga de demanda.

O consumidor, viciado em compras, de repente, ver o mundo se fechar diante de si, com a limitação do crédito e a cobrança de juros altos na praça. Fatores que automaticamente implicam na desmotivação de comprar. Até o trabalhador, indefeso, estrebucha, diante da queda do salário, da falta de vagas na praça e da opções de consumo.

Não é difícil se constatar a presença da recessão numa economia. Basta analisar o PIB do país. Caso o PIB apresente queda na sua composição por dois trimestres seguidos, não tem escapatória. A economia experimenta recessão. No entanto, se o PIB crescer devagar, lentamente, a economia apenas enfrenta um período de estagnação econômica. Sem penetrar em recessão, ainda.

No Brasil, os sintomas de recessão começaram a rolar a partir de 2012. Foi quando as lojas passaram a desocupar espaços, fechar unidades nas cidades e nos shopping centers. O fechamento de lojas geralmente começa devagar, porém, com a passagem do tempo e com a explosão de problemas, a situação vai piorando.

Em 2016, enquanto 19 shoppings foram inaugurados, mais de 18 mil lojas encerraram as atividades, baixaram as portas em decorrência da queda de vendas. Causando demissão em massa.

No ano passado, decepcionadas com a falta de vendas, muitas empresas resolveram fechar lojas ou decretar a falência no ramo varejista. Decisão ruim para os governos que sentiram a queda na arrecadação de impostos.

Neste ano, embora a economia demonstrasse leves sinais de recuperação, todavia, dos 522 shoppings em funcionamento no país, muitos sofrem turbulência. São obrigados a desocupar espaços. Apesar de vários empreendedores ousados optarem por inaugurar novos malls. Acreditando na pujança da economia que sinaliza dar o pulo do gato, paulatinamente.

Nos Estados Unidos, em decorrência do consumidor mudar de hábitos com o avanço tecnológico, que seca o varejo tradicional, costuma repetir as mesmas franquias e as arquiteturas, tem muitos malls fechando as portas. Encerrando as atividades. Substituídos pelo avanço do comércio eletrônico em efervescência ou por outros tipos de comércio mais abertos.

Segundo os registros, as perspectivas brasileiras não são tão alentadoras quanto se planeja. Em 2017, conforme divulgou o IBGE, a economia cresceu apenas 1%. As causas do baixo índice de desenvolvimento foram a fraca taxa de investimentos, a falta de planejamento para o curto prazo e o adiamento das reformas, tão cobradas pelos especialistas. Aliás, os analistas apontam que, enquanto a taxa de investimentos não crescer, o país vai demorar para esquecer esta fase, classificada como o pior momento desde 1996.

Se não fosse a greve dos caminhoneiros, o Brasil alimentava o doce sonho de recuperação econômica. Pelo menos, até então, alguns índices apontavam para a pretendida retomada.

A taxa de desemprego registrou leve queda. Os juros e a inflação despencaram. A construção civil começou a sentir confiança no mercado. A arrecadação pública cresceu, embora momentaneamente. O setor industrial projetou novas metas estimulantes. O comércio previu abrir novas lojas. O agronegócio, dependendo da safra deste ano e de melhora no crédito agrícola, promete a repetição do período anterior, que foi beleza. E o investimento direto estava começando a se comportar de maneira estimulante.

Mas, com a pandemia do Covid 19 as previsões emborcaram. Os projetos tornaram-se desanimadores. Ainda mais, diante dos constantes tiroteios trocados entre o Ministério da Saúde e a Presidência da República que só contribuem para piorar a situação. Complicar o panorama. Colocar o país noutra enrascada. De difícil saída.

O Banco Mundial projeta queda de 5% do PIB. Os economistas recomendam devotamento, humildade e confiança às lideranças políticas para enfrentar as incertezas, travar consciente desafios, a fim de priorizar vidas.

Como o pior só deve acontecer entre maio e junho, na opinião de analistas, quando o pico do Covi-19 se registrar no país. Como tentativa de contornar o problema, o Congresso promulgou a PEC-Proposta de Emenda à Constituição, criando o Orçamento de Guerra.

A finalidade da medida é criar um paredão fiscal, financeiro e de contratações para aguentar os trancos da pandemia. Facilitar os gastos públicos. Evitar que os gastos emergenciais, durante o estado de calamidade pública no país, contaminem o orçamento geral da União.

Porém, um fato desperta atenção. Perdido em burocracia, o governo atrasa a entrega dos recursos ao mercado. Não ameniza a liquidez de empresas, não afasta a possiblidade de estimular a inadimplência.

Deixe uma resposta