JOSÉ NARCELIO - AO PÉ DA LETRA

É começar o programa eleitoral obrigatório, na televisão, e vermos verbalizados rosários de promessas e propostas estapafúrdias que, além de não convencer nem aos mais incautos dos eleitores, também não causam crises de riso. Talvez, de choro, pela falta de criatividade dos absurdos propostos e prometidos.

Uma vez por outra surgem, na política brasileira, situações que funcionam como válvulas de escape da indignação do eleitor. Quer seja pelo descrédito nos candidatos, quer seja pela falta de opções confiáveis em quem sufragar os votos. Daí as catarses populares manifestadas em votos de protesto, em casos como os efeitos Cacareco, Macaco Tião, Enéas, Clodovil, Tiririca… E outros tantos Brasil afora.

O mais emblemático de todos os efeitos citados acima, foi a do rinoceronte fêmea Cacareco. A dita rinoceronte pertencia ao zoológico do Rio de Janeiro e estava cedida ao zoo de São Paulo. O jornalista Itaboraí Martins, em protesto contra o baixo nível dos concorrentes à edilidade de São Paulo, capital, em 1959, lançou o nome de Cacareco que obteve 100 mil votos – o partido mais votado não passou dos 95 mil.

Em 1988, foi a vez do grupo humorístico Casseta & Planeta lançar o chimpanzé do zoológico do Estado, candidato à Prefeitura do Rio de Janeiro. O macaco Tião ficou em terceiro lugar na disputa com 400 mil votos. Tião não era nada simpático, e se divertia lançando suas fezes nos visitantes que o procuravam no zoológico. Morreu em 1996, e o prefeito da cidade, César Maia, decretou luto oficial.

O efeito Enéas Carneiro – “Meu nome é Enéas!” – foi um fenomenal exemplo de voto de protesto que o elegeu como o deputado federal mais votado do país, em 2002, pelo PRONA paulista. Os mais de 1,5 milhão de votos alçaram à Alta Câmara, além de Enéas, outros cinco candidatos. Um deles, com apenas 275 votos.

Em 2006, Clodovil Hernandez tornou-se o deputado federal mais votado do país com quase 500 mil votos. Nas eleições de 2010, pelo voto de protesto ou sentimento de descaso com o Congresso Nacional, Francisco Everaldo Oliveira Silva – o palhaço Tiririca – se elegeu com mais de 1,3 milhão de votos e arrastou consigo mais quatro candidatos a deputados de seu partido.

O Rio Grande do Norte também conviveu com uma dessas candidaturas. Aconteceu em 2004. Diante de candidatos fortes, numa onda de protesto, um grupo de eleitores lançou o nome de Miguel Joaquim da Silva, o Miguel Mossoró, para disputar a prefeitura de Natal.

Miguel era sargento reformado do Exército Brasileiro que, induzido pelo entusiasmo grotesco de seus apoiadores, aceitou a convocação, partiu para a luta e obteve a terceira colocação no pleito, com 67 mil votos. O que caracterizou a campanha do mossoroense foram as propostas e promessas mirabolantes. Eis algumas delas:

a) fornecer leite encanado para a população de Natal;

b) construir no bairro Ponta Negra, teleférico ligando o Morro do Careca a Via Costeira;

c) instituir tempo integral nas escolas municipais e premiar os 100 melhores alunos com viagens à Disneylândia;

d) construir escada rolante de acesso ao bairro Mãe Luiza;

e) “Mãozada no turismo sexual” – turista que viesse para Natal a fim de fumar maconha, cheirar cocaína e prostituir nossas garotas, levaria mãozada do próprio Miguel Mossoró.

O carro chefe dessas propostas foi a construção da Ponte Natal – Fernando de Noronha, com 380 quilômetros de extensão. Tal qual Zé Limeira – o Poeta do Absurdo -, a singularidade das promessas de Miguel Mossoró, continham uma certa pureza nas quais o eleitor fingia acreditar.

Miguel concorreu à Câmara Federal, a deputado estadual e a vereador de Mossoró sem nunca obter um mandato. Faleceu em 2015, aos 76 anos de idade.

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