CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

Na charge de Wilson Santos, o poeta Edvaldo e esse colunista. Estande da Editora Bagaço/2005

Em 1939 nascia na cidade de Paulista – (PE) um dos poetas mais autênticos que aquela cidade teve o privilégio de acolher e eu tive o privilégio de conhecer, embora seus ascendentes tenham sido paraibanos e só tenha deixado um livro publicado: MEMBI – FLAUTA DE OSSO. Edição Bagaço: 2005. Não sei se houve outras publicações e com quem está o seu acervo poético não publicado.

Arteiro, artista, pintor, artesão, sempre esteve ligado às cores, formas, sons e nas horas mais inspirativas o poeta entrava em ação para versificar poemas líricos, lúdicos, românticos, irônicos, com a naturalidade peculiar que só os grandes poetas e repentistas possuem. Tudo desenhado à caneta!

Durante muitos anos o poeta e artesão Edvaldo Bronzeado manteve seu Atelier no bairro de Engenho do Meio, perto do gigantesco e inútil prédio da SUDENE, onde atuava como design gráfico, fazendo embalagens, logomarcas, artes visuais e afins.

Entre um e outro desenho para caixa de perfume, saco de pipoca, capa de LP, ele fazia soneto, balada, samba, cordel, letras de músicas e jingles para propagandas de qualquer produto e promoções de candidatos à politicagem. Tudo no melhor sem-estilo, esmero, escola que dominava com maestria.

Por volta dos anos noventa, o poeta Edvaldo Bronzeado acordou-se virado no penteio de barrão e indignado com a ação dos poderosos do Poder Público que lhe queriam infernizar a vida no atelier, gravou nas pilastras do viaduto que separa o bairro de Engenho do Meio ao campus da Universidade Federal de Pernambuco o poema de protesto: NATIVO.

Nesse mesmo dia passava por ali um estudante de Direito da UFPE chamado Joca de Oliveira, poeta de Ribeirão, e, antes que a chuva batesse e apagasse aquela pérola, transpôs para uma caderneta a lápis e a guardou a sete chaves durante anos.

Durante mais de quinze anos o poeta Edvaldo Bronzeado era um enigma para nós e, como o mestre Orlando Tejo em busca de Canindé para conseguir o dinheiro para cobrir-lhe o cheque, nunca perdemos a oportunidade de encontrar aquele poeta que escreveu no muro do viaduto aquela poesia de resistência.

Uns treze anos depois, no início dos anos dois mil, ouvindo o Programa Supermanhã, apresentado por Geraldo Freire e o médico-radialista Fernando Freitas, tive o privilégio de ouvir Fernando Freitas chamar o poeta Edvaldo Bronzeado para declamar suas poesias no programa ao vivo e, feliz com aquela “descoberta”, me pus a procurar o grande poeta que para mim até aquele instante, era uma lenda viva! Liguei para a Rádio Jornal e a produção me passou o telefone da casa do bardo bronzeado!

E mais uma vez invocando Orlando Tejo, saí à cata do poeta até então desconhecido, e o encontrei no Centro da cidade na companhia do Sociólogo das Putas e dos Cabarés, o mestre Liêdo Maranhão, figura inesquecível, indescritível, de uma simplicidade ímpar. Sempre de bem consigo mesmo.

Ali estava eu junto daquele poeta-monstro do sentimento, da alma, do teatro, dono de um estilo de poesia altamente lírica, mesmo quando protestando contra as inconveniências da vida e do relacionamento do Homem com a Natureza, e, ainda da exploração do homem pelo próprio homem.

Polivalente, conhecedor das manhas e dos artifícios da retórica, ali estava eu diante de dois monstros sagrados da Literatura: um, o poeta nativo, lírico, romântico; o outro, o Sociólogo das Putas.

Na primeira conversa que tive com o poeta Edvaldo Bronzeado ele se espantou quando lhe falei sobre o poema NATIVO que havíamos copiado das pilastras do viaduto que separa a SUDENE da UFPE. E ele ficou extasiado em saber sobre a nossa admiração pela sua poesia.

A partir daquele momento e ao longo de mais de quinze anos de amizades, com meu estímulo, entusiasmo e impulsão, o Poeta Edvaldo Bronzeado criou coragem e começou uma peregrinação incansável à valorização e ao reconhecimento e publicação de suas poesias. Sua primeira incursão foi no jornal Poesia Descalça do grupo da Várzea, editado pelo poeta Joca de Oliveira, que lhe copiou o poema Nativo do viaduto que separa a UFPE e a SUDENE e o também poeta, romancista e professor de química da UFPE, Wilson Vieira, autor dos romances “Ditirambo” e “Pinguelo.”

Em 2005 o encontro feliz da vida de traje sociabilíssimo e com um gorro branco cobrindo a careca, na estante da Editora Bagaço no Centro de Convenções, com o seu livro de estreia: MEMBI – Flauta de Osso, editado pela Bagaço, de bem consigo mesmo e com a vida!

Devido à correria da vida, passei a me encontrar pouco com o Poeta. Mas quando isso acontecia era uma festa para nós. Uma das últimas vezes que eu o vi estava abatido com problemas familiares. Dizia não se acostumar com os modismos desrespeitosos do lar. Tentei demovê-lo dizendo que pensasse sempre como Dom Helder Câmara quando se referia aos jovens: Deixem-nos viverem à sua maneira! As trombetas da vida os ensinarão a encontrar o certo ou o errado!

Não sei se publicou mais livros pela Editora Bagaço. O que sei dizer é que duas semanas antes de se encantar, em 2013, por um enfarte fulminante, me encontrei com ele na Livraria Cultura acompanhado do seu violão Giannini, onde damos altas gargalhas de amor à VIDA!

É essa a boa recordação que carrego dentro de mim do poeta de NATIVO, o homem que viveu para a simplicidade da vida. Um gigante de poeta, mas sem estrelismo!

NATIVO – Edvaldo Bronzeado

Eu sou tão daqui
Quanto a paquevira,
O piriri,
E a macambira.

E daqui se eu saio
A carroça vira.
Porco vira paio.
Essa joça gira.

Vivo aqui assim
Mais o mangangá,
Uruçu-mirim,
O aripuá.
O papa-capim,
Capim-jaraguá.

Sou desse lugar
Mais o capilé,
Mais o midubim,
Mais o catolé.

Esse dedo aqui
Piranha comeu
Brinco pastori,
Carnavá, Mateu.

O zabumba afrouxa
Se eu deixo a dansa
Se apaga a tocha
Isso aqui balança
Lama vira rocha
Corda desentrança.

Durmo no chuá
Que faz o riacho
Eu noutro ligar
Sei que seco e racho.

Lavo coisa ruim
No ariaxé
Curo farnesim
Com cachaça e mé.

Tenho uma mulé
Que gosta de mim.
Como jacaré
Cará, surubim.
Tenho um pangaré
Quatro curumim.

A respeito do poema NATIVO, este colunista informa que a segunda estrofe tem uma curiosidade a ser esclarecida ao leitor. Onde se lê:

E daqui se eu saio
A carroça vira.
PORCO VIRA PAIO.
Essa joça gira.

O poeta Edvaldo Bronzeado havia grafado por mais de quinze anos no poema NATIVO a seguinte estrofe:

E daqui se eu saio
A carroça vira.
ISSO VIRA PAIO.
Essa joça gira.

Antes de publicar o livro, ele fez a mudança na estrofe. Segundo ele me disse, deu mais afinidade ao verso.

Edvaldo Bronzeado, o mestre que será sempre eterno nas minhas lembranças.

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