GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

Eu morei no bairro de Boa Viagem na década de 1980, sempre passava por perto do Edificio Holiday e via aquela beleza não preservada da arquitetura modernista. Construído nos anos 50, quando o bairro ainda tinha muitas casas de veraneio de quem morava no Centro do Recife e queria ficar o final de semana na bela praia, com grandes ondas na maré cheia e piscinas naturais na maré baixa. Antes da chegada dos edifícios, Boa Viagem já tinha pequenos prédios e muitas casas.

Casa Navio, demolida no anos 80

O empresário rubro-negro Adelmar da Costa Carvalho (dá nome ao estádio da Ilha do Retiro), viajou no navio Queen Elizabeth e gostou tanto, que mandou construir uma casa com o formato do famoso navio, tinha até cabine de comando. A casa foi demolida e deu lugar a um moderno edifício. Outra casa imponente na beira-mar levou mais sorte, o castelinho, que deu lugar a dois espigões, só que no seu quintal, e a casa é o salão de festa do condomínio.

Castelinho, “escondido” na frente de dois espigões

Nos anos 50 foram construídos três grandes prédios: California, Acaiaca e Holiday. O Acaiaca na beira mar, foi adquirido por muitas famílias de aposentados que queriam uma vida mais tranquila, longe do barulhento centro, Os apartamentos do California foram vendidos para serem usados como casa de praia, e numa época que não existiam motéis, passaram a preencher essa lacuna. O California tinha uma boate no seu térreo e a frequência não convencional afugentou as famílias tradicionais, mas nos anos 90 o condomínio implantou umas normas rígidas de entrada e saída na portaria, o que fez com que o prédio voltasse a ser residencial, mas o Holiday não levou a mesma sorte.

Perspectiva do projeto arquitetônico do Edificio Holiday de 1955

Esse edifício foi um dos primeiros arranha-céus construídos em Boa Viagem, foi usado sempre para fins não nobres, os primeiros proprietários usavam para encontros casuais fora do casamento e assim esse gigante viveu seus 60 anos de vida, como ponto de referência de prostituição. O Holiday era presença constante nas páginas policiais, roubos, tráfico de drogas e assassinatos eram os temas, e os preços dos apartamentos caiam drasticamente, atraindo pessoas de baixa renda, sem condições financeiras de manter os altos custos de manutenções e reformas. O prédio foi se deteriorando a ponto de ser considerado pelo corpo de bombeiros, o local que oferecia mais riscos aos seus moradores, houve até CPI para interditar toda a edificação. Para se ter uma ideia a que ponto chegou, kitnet no edifício era oferecido por menos de trinta mil reais, em um local onde um apartamento de três quartos passa facilmente de um milhão.

Imobiliária oferece kitnet por um preço bem convidativo

Ligações clandestinas de água e luz, colunas e vigas com as ferragens expostas e corroídas, elevadores sem portas e muitas reclamações fizeram com que a justiça mandasse desocupar todo o prédio por questão de segurança, e assim foi feito. O futuro é incerto, poderá ficar interditado por tempo indeterminado ou reformado pelo poder público, mas o mais provável é que seja demolido e dê lugar a mais duas torres da Moura Dubeux, onde cada metro quadrado é quase o mesmo preço de todo o apartamento do atual Holiday.

Em 22 de março de 2019 eu fui dar minha corrida na praia e ver a desocupação do prédio

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