MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

Era impossível não se apaixonar por Dona Luiza.

Conheci Dona Luiza no ano de 1955, quando fui cursar o então chamado “Admissão ao Ginásio” na Escola Agrícola Gustavo Dutra em São Vicente, Mato Grosso, a 90 quilômetros de Cuiabá, hoje IFMT. O regime era de internato, e a Escola, então pertencente ao Ministério da Agricultura, preparava seus alunos para as atividades agrícolas e pecuárias naquele grande sertão perdido de meu Deus.

Dona Luiza era neta de escravos. Teve pouca educação formal. Trabalhava como lavadeira de roupas para a própria escola, cuidando da roupa de cama e dos uniformes dos alunos, e também fazia seus “bicos” lavando roupas para o pessoal da vila que circundava as instalações da escola – funcionários, professores e suas famílias, principalmente. Era casada com o sr. Laurentino, um mulato forte como um touro, e mantinham uma pequena lavoura onde plantavam milho, mandioca e feijão, além de laranja e abacaxi. Tiveram uns cinco filhos, se não me falha o bestunto.

Dona Luiza vivia em uma casa simples, mas cheia de paz e harmonia, e o terreno da casa era cercado por inúmeros pés de mamão, abacate, jaca e, principalmente, de velhas mangueiras que produziam mangas de vários tipos: bourbon, rosa, espada, etc.

No final do ano as mangueiras ficavam salpicadas de amarelo e vermelho e só quem viveu no sítio conhece o cheiro daquelas frutas quando maduras. Aquilo era uma festa da natureza.

Em um daqueles longínquos dias perdidos no passado, três moleques desassombrados, o Arnaldo, o “Anta” e este que escreve a vossuncê, resolveram desapropriar alguns abacaxis da plantação da Dona Luiza. E estávamos em plena e arretada atividade roubatória quando Arnaldo, o mais sacudido de todos, me fez um sinal e mostrou, vindo certeira na minha direção, Dona Luiza mancando, apoiada em seu cajado e olhando fixamente para este potencial condenado à morte por espancamento. Tentamos, mas já era impossível se esconder dela.

Antevendo a chuva de bordoadas que imaginava receber, já fui encomendando minh’alma a Deus, e tive que obedecer ao gesto da Dona Luiza me mandando ir ao seu encontro.

Chegando perto, ela pegou afetuosamente minha mão com a sua, cheia de calos, e disse com a voz mais doce e suave deste mundo:

– Meu filho, vocês estão roubando os abacaxis errados. Esses daí não são bons, são ananás, abacaxis brancos. Chame os seus colegas e venham comigo para que eu mostre os abacaxis de verdade, os amarelos, esses sim os que vocês devem roubar; são aqueles ali, perto da varanda, e são muito mais gostosos. Mas não precisam se esconder, pois tenho várias deles que o Laurentino pegou hoje cedo, bem amarelinhos e maduros, e que já estão cortados.

Além dos abacaxis, ela nos deu mangas e serviu-nos um delicioso café com biscoitos de milho que só ela sabia fazer. Perguntou sobre nossas famílias e o que queríamos ser na vida quando adultos. Contou-nos histórias de seus antepassados, escravos em uma fazenda de café perto de Cuiabá. Falou-nos sobre sua imensa alegria quando teve, já mocinha, o primeiro par de sapatos. Garantiu que sempre que quiséssemos abacaxis ou mangas poderíamos ir até a sua casa que ela nos daria tantos quantos desejássemos.

Era impossível não se apaixonar por Dona Luiza.

Na graduação do curso Ginasial, em 1959, Dona Luiza foi minha madrinha de formatura.

Soube que se encantou poucos anos depois, e garanto que o céu ficou muito mais lindo e cheio de paz quando ela chegou.

8 pensou em “DONA LUIZA

  1. Pois é mestre! Uma lição além do “admissão”, uma lição que lhe admitiu ser o cara que você é. Bravo e duvido que outro tenha tido uma madrinha tão exemplar.

    • Grande Maurício: pois é, por uma atividade incorreta conheci a Dona Luiza, uma das melhores professoras da vida que conheci neste mundo. Espero até hoje ser perdoado por ela. Se encontrar-me com ela no mundo espiritual vou dar-lhe o maior e mais apertado abraço que alguém já deu.
      Tenha um bom final de semana.

  2. Magnovaldo…

    Essa sua história me fez lembrar de minha madrinha, Dona Margarida Capreata, na na longínqua Poconé, terra de meu pai. “Xá Magá” como era conhecida tinha um quintal desses em que nós, tudo moleque safado íamos roubar manga, goiaba, jabuticaba, abacaxi, siriguela, que é é conhecido como “jacote”… sendo que ela, com seu coração imenso, se a gente pedisse, ela franqueava o quintal de sua chácara para que pudéssemos até ficar enganchado no pé da fruta e comêssemos o quanto podíamos aguentar.
    Isso sem fala nos doces maravilhosos que ela fazia. Lembro-me que a última vez que a vi, ela me deu uma compota de doce de caju que já guardava há 12 anos para dar a “seu menino”. O menino dela era eu. Foi minha madrinha quando tinha onze anos… voltei a vê-la e já tinha 26 anos. Doce delicioso, feito com amor. Encantou-se já tem uns 20 anos, mas ainda me lembro das peripécias de varar cerca de arame farpado para roubar frutas no quintal dela.

    • Grande e Poderoso Roque:
      Muito linda sua história. Acho que sempre tivemos alguns pontos em nossa meninice e juventude que são inesquecíveis e que nos deixam muita saudade. Apesar da vida dura, muitas coisas foram doces.
      Poconé também faz parte de minha vida de antanho.
      Um grande abraço e um bom final de semana.

  3. MAGNOVALDO SANTOS,

    Suas crônicas são maravilhosas, recordando um passado de pura serenidade e um presente mais ou menos, com o homem menos mais.

    • Prezado Cícero: suas palavras adoçam mais a revisão de minha jornada nesta vida. Gratíssimo
      Tenha um bom final de semana.

  4. Moçada,

    Todos nós tivemos, durante a infância ou depois dela, contatos maravilhosos com pessoas das mais diversas características de pele, de olhos, de cabelos, etc.

    Quando é depois, aparecem uns imbecis querendo nos impingir o rótulo de racista, homofóbico, preconceituoso, etc.

    No fundo, todos nós somos um pouco isso aí. Ao mesmo tempo em que todos nós tivemos amizades maravilhosas com pessoas de pele mais escura que a nossa, pessoas gay, pessoas de origens consideradas “inferiores”, sem que isso tivesse feito a mínima diferença.

    Nós somos paradoxos ambulantes!

    • Adonis: sábias são suas palavras. A vida nos ensina muita coisa, faz-nos abandonar alguns paradoxos e adquirir outros. Você tem razão. Somos todos paradoxos ambulantes.
      Tenha um bom final de semana.

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