MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Em decisão recente, nossa suprema corte determinou que as regras da constituição não são “taxativas”, e sim “exemplificativas”. Alexandre de Moraes, que é um dos mais ativos na construção de argumentos desse tipo, junto com Roberto Barroso, disse em seu voto:

“Limitar as possibilidades de atuação do Estado mediante interpretação literal da atual redação do art. 149, § 2º, III, da CF não me parece a melhor exegese para a consecução dos desígnios constitucionais de viabilizar a promoção do desenvolvimento das micro e pequenas empresas”.

Tirando as exegeses, consecuções e outras palavras difíceis que só refletem a arrogância e a intenção de colocar-se acima do restante da sociedade, o que o ministro disse é que não acha que o governo deve obedecer à constituição “literalmente”. Ele prefere que o governo (e sem dúvida ele está pensando nos três poderes, não em um só) faça o que der na telha, desde que possa dizer que está buscando os “desígnios constitucionais”. Em outras palavras, eles podem fazer tudo, desde que jurem que as intenções são boas. E aquilo que você acha que a lei garante, na verdade é apenas um exemplo, que pode ou não ser válido, dependendo de como o governo enxergue os tais desígnios.

Isso não começou ontem. É apenas o resultado de décadas, para não dizer séculos, de um povo que sempre se ajoelhou voluntariamente diante do poder, ansioso por receber um benefíciozinho. Que sempre aceitou calado os desmandos e humilhações das “autoridades”. Que sempre teve repulsa a uma sociedade de iguais e amor por uma sociedade dividida em classes.

Já estamos no ponto em que mudar de direção será muito difícil. Os poderosos usarão o poder que receberam para tornar-se ainda mais absolutos.

* * *

Sobre o batido tema da economia, da inflação e do preço do arroz, gostei dessa frase de Solange Srour, do banco Credit Suisse:

“A história é repleta de casos de países que se endividam, quebram e se recuperam. A cada crise, é comum a narrativa de que as velhas regras de análise não se aplicam ao momento em questão, que é visto como diferente dos desastres anteriores.”

A crise que se aproxima é igualzinha às outras: governo gasta mais do que pode, emite dívida, fabrica dinheiro, inflação sobe, governo fabrica mais dinheiro, aumenta imposto, economia desacelera, governo diz que a culpa é dos outros, não dele.

A desculpa do momento é dizer “A culpa é do covid, e a crise afetou todos os países, não só nós”. Só que nem todos os países viram sua moeda enfraquecer da mesma forma, como podemos ver no gráfico abaixo (Argentina e Venezuela não aparecem porque sua taxa de câmbio é só uma ficção).

7 pensou em “DOIS PITAQUINHOS PARA ENCERRAR A SEMANA

  1. Prezado Marcelo, estamos em um caminho sem volta com este atual STF, “alguém” precisa dar um “freio de arrumação” neste cabaré, não podemos aceitar “interpretações pessoais, tem que ir a plenário e cassar pelo menos dois com a aposentadoria do “madona”, talvez a coisa possa mudar.

    • Quem pode enquadrar o STF é o Senado. Só que metade (ou mais) dos senadores está com o rabo preso e quem julga os senadores é o STF. Daí fica essa putaria que está ai.

      • Marcos e Marcelo,

        A julga B e B julga A… “freio de arrumação” impossível…

        A expressão é usada muito sertão afora e sua origem remete aos caminhões paus-de-arara, onde o freada repentina e brusca serve para ajustar, ou melhor, organizar tudo que está dentro dele, ou seja, o freio de arrumação serve para arrumar tudo que está solto de maneira rápida e bruscamente.

        • Aqui em Curitiba se usava a expressão para os ônibus.

          Antigamente, os passageiros entravam no busum (curitibanês para ônibus) pela porta traseira, passavam pelo cobrador e saíam pela porta da frente.

          Mas o povo costumava ficar parado no meio do caminho, mesmo quando havia lugar mais para a frente. Aí quando parava no ponto ninguém conseguia entrar porque a traseira estava cheia. Era aí que o cobrador gritava para o motorista dar um freio de arrumação: todo mundo ia para a frente e a traseira do ônibus ficava livre para receber novos passageiros.

  2. Caro Marcelo,

    Qualquer país que tenha mais de metade da população em idade de trabalhar sendo sustentada pelo governo, enquanto a outra metade é composta primordialmente por pessoas QUE TRABALHAM PARA O GOVERNO e, para acabar de lascar, recebem salários de marajás indianos,
    UMA MERDA DESSA NÃO PODE DAR CERTO NUNCA!!!!!

    Quem é que vai pagar por essa esbórnia?

    • Aqui é uma terra em que se plantando tudo dá, já disse o escrivão Caminha.

      Vamos viver às custas da soja, do milho, do boi e do minério de ferro, enquanto der…..

      • Essa é também a minha visão. Estamos comendo do nosso patrimônio natural.
        Dilapidamos totalmente nosso capital social e o capital físico, por falta de investimentos, está degradando aceleradamente.

        Quem viver, prepare-se para ver “O formidável enterro de nossa última quimera”

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