DOIS DESTINOS

Durante a Segunda Guerra Mundial (1942), instalou-se no Rio Grande do Norte a maior base militar norte-americana, fora dos Estados Unidos. Natal, que contava aproximadamente com 55.000 habitantes, recebeu o acréscimo de cerca de 10 mil pessoas, incluindo soldados americanos. Esse fato provocou na cidade uma mudança brusca de hábitos e costumes.

Natal tornou-se “americanizada”, absorvendo novos hábitos e costumes, como a Coca-cola, o Cuba-libre (Rum com Coca-cola) chicletes, o hábito da mulher fumar e beber abertamente, o foxtrote e outros ritmos musicais.

Dois bairros tradicionais de Natal foram os mais atingidos por essas mudanças. O primeiro foi o Bairro da Cidade Alta, o mais antigo de Natal. O outro foi o Bairro da Ribeira, que se tornou o mais frequentado pelos americanos, em razão do Grande Hotel, ponto de encontro de políticos, e pela sua vida boêmia. O Grande Hotel foi até usado como moradia por soldados norte-americanos.

Inaugurado em 1939, o Grande Hotel foi construído em função dos frequentes pousos de hidroaviões de empresas aéreas, que utilizavam o estuário do Rio Potengi em Natal como escala em viagens entre a Europa e a América do Sul. Havia a necessidade de um hotel mais moderno e amplo, para acomodar viajantes especiais.

Após um curto período, no qual a ocupação ficou escassa, o Grande Hotel foi arrendado ao empresário Theodorico Bezerra, que já possuía cinco pequenos hotéis e entendia do ramo em evidência.

A economia local passou por uma grande transformação. O custo de vida aumentou, e o dólar virou moeda corrente no lugar do mil -réis. Muita gente fez fortuna e os americanos foram muito enganados por pessoas inescrupulosas, no comércio de Natal. Chegaram a comprar coruja por papagaio e urubu por pássaro raro. Havia o preço para vender a americano e o preço para vender ao nativo.

Em meados do século XIX, o Bairro da Ribeira elevou sua importância comercial em Natal. Nesse local foi construído o Porto da cidade, a principal porta de entrada e saída de mercadorias e pessoas.

Um dos maiores ícones da prostituição em Natal foi a paraibana Maria Oliveira Barros, conhecida como “Maria Boa”, figura que entrou para a história. Seu luxuoso Cabaré se consagrou em Natal.

As prostitutas que lá trabalhavam eram bonitas, diferenciadas e selecionadas pela proprietária. Eram obrigadas a se submeter a exames de saúde preventivos, regularmente, para evitar doenças venéreas. Nessa época as prostitutas eram também obrigadas a apresentar o “Love Card”, para exercer a profissão.

Recatada e discreta, Maria Boa era autodidata e gostava de ler. Não frequentava eventos sociais, nem tampouco tinha amigas dentro da sociedade natalense. Chegou a Natal na década de 1940 e se dizia empresária. Nasceu em 24.06.1920, e foi proprietária do Cabaré, que se tornou passagem obrigatória, dentro da iniciação sexual da vida dos homens natalenses.

Ao chegar a Natal, Maria Oliveira Barros demonstrou grande visão nos negócios, e inaugurou sua casa de prazeres, no período em que reinava na cidade ampla prosperidade, advinda da fixação da base militar americana em Parnamirim. Aproveitando o fluxo de soldados e grandes personalidades políticas registrados na época, Maria Boa fazia questão de ostentar glamour em seu estabelecimento.

Tornou-se uma “grande dama” de negócios em Natal, e fazia questão de se manter longe de olhos indiscretos.

A boa qualidade dos serviços, prestados em seu Cabaré, era uma das exigências de Maria Boa. Podia-se sentir sua interferência desde a escolha das profissionais, à arquitetura do ambiente da casa.

Respeitada por suas atitudes extremamente discretas, era olhada com respeito por onde passava. Sua companhia significava status para quem tivesse a honra de desfrutá-la. Por trás da suntuosidade do seu estabelecimento “comercial”, reinava a figura discreta e influentemente poderosa de Maria Oliveira Barros, que avalizava títulos nos bancos para alguns figurões locais.

Segundo os historiadores, Maria Boa tinha cultura geral e, além de irradiar simpatia, também se interessava por livros e cinema. Nessa época (décadas de 40 a 50), Natal era muito influenciada pelas películas de Hollywood, algumas trazidas pelo próprio Exército Norte-Americano. A jovem foi fortemente influenciada pela moda americana, que observava nos filmes.

O Cabaré de Maria Boa era um casarão luxuoso, localizado no bairro da Cidade Alta. Seu quadro de profissionais era constituído de “moças” de grande beleza, aparentemente finas e com certo nível cultural. Seus conhecimentos eram proporcionados pela própria Maria Boa, em aulas que eram realizadas uma vez por semana.

Uma peculiaridade desse famoso Cabaré é que, bem antes de se falar em “turismo sexual”, ele já era uma referência turística na cidade. Alguns viajantes, que chegavam a Natal, eram frequentemente convidados a conhecer as admiráveis moças de Maria Boa.

Havia uma grande preocupação por parte de Maria Boa, com tudo o que dizia respeito às “moças” que trabalhavam em sua casa. Ao saírem à rua, vestiam roupas recatadas, longe da vulgaridade. A empresária não permitia que saíssem de casa desarrumadas. Muito discreta em seus hábitos, isso transparecia em suas relações comerciais e em seu Cabaré.

Mesmo com toda a discrição mantida por Maria Boa e no seu “estabelecimento comercial”, certa vez, este foi alvo de um abaixo assinado, produzido por alguns moradores adjacentes ao local, com o intuito de fechar o estabelecimento. Tal ação foi refutada por outros vizinhos que não se sentiam incomodados com a presença do cabaré. O caso foi levado à Justiça e Maria Oliveira Barros ganhou a causa, garantindo a permanência do prostíbulo. Contudo, a presença do cabaré continuava incomodando uma pequena parcela dos vizinhos do estabelecimento, caracterizando, assim, seu permanente caráter marginal na sociedade.

Enquanto o Cabaré de Maria Boa, na Cidade Alta, esbanjava luxo e riqueza, as prostitutas que habitavam o Beco da Quarentena, no decadente Bairro da Ribeira, se consumiam em pobreza e miséria. O lugar era frequentado por homens de baixo poder aquisitivo. Alguns eram de conduta duvidosa e briguentos. Esses homens frequentavam o Beco da Quarentena, porque lá os prostíbulos eram mais baratos e a boemia era popular. Ali se encontravam prostitutas, cafetões e gigolôs, que serviam de inspiração aos poetas e escritores.

Com relação aos destinos diferentes, das prostitutas do extinto “Cabaré de Maria Boa”, e daquelas que habitavam o “Beco da Quarentena”, vem-nos à memoria antigos versos de um poeta anônimo:

“Até nas flores se encontra a diferença da sorte; há umas que enfeitam a vida, e outras que enfeitam a morte.”

6 pensou em “DOIS DESTINOS

  1. Violante,

    Uma crônica muito bem escrita sobre Natal, no período da Segunda Guerra Mundial (1942), que sofreu mudanças de hábitos e costumes pela instalação da maior base militar norte-americana, fora dos Estados Unidos. Uma figura que entrou para a história de Natal não tinha estudos, não frequentava os eventos sociais, nem tampouco tinha amigas dentro da sociedade natalense daquela época. Pelo contrário. A paraibana Maria de Oliveira Barros , ou, simplesmente Maria Boa, era a proprietária do cabaré que se tornou passagem obrigatória dentro da iniciação sexual da vida dos homens natalenses. Maria Boa pertenceu a um tempo diferente de prostituição. Não existia drogas nem músicas de mau gosto da atualidade. Tempo em que as “putas” ouviam histórias e contavam as delas. Tempo em que sucessâo de acontecimenos as levaram para ali. Um simples desvio de conduta, ao estilo do que houve com Maria Boa, foi transformado em destino.

    Saudações fraternas,

    Aristeu

  2. Sancho, um eterno simpatizante da causa, certamente frequentaria o Cabaré de Maria Boa, mas (fretíssimo mas), quando o frete estivesse minguado, iria dar uma “forcinha” para as garotas programáticas e simpáticas que habitavam o Beco da Quarentena (nome propício para os tempos atuais). Quem foi que disse que “tudo vale a pena quando a ama não é pequena?”
    Abração sanchiano para Violante, uma cronista de mão cheia e coração imenso.
    E termino deixando afetuoso abraço no Aristeu, um fubânico de quatro costados.

    • Obrigada pelo comentário gentil, prezado Sancho Pança! Não vivenciei essa época, mas sei muito sobre o assunto, pelos livros e pelos depoimentos de pessoas da minha família, que na época (1942 a 1945) eram jovens e, juntamente com amigos e amigas, tiveram oportunidade de fazer amizade com os americanos.
      Apesar da Guerra, segundo os historiadores, foi um tempo de grande evolução de costumes em Natal, na época, uma pacata província.

      Grande abraço!

  3. Obrigada pelo gratificante comentário, prezado Aristeu! O tema do meu texto é inesgotável. A “pista” construída pelos americanos, do Aeroporto de Parnamirim para Natal, ainda existe. Natal é pura história. O assunto é empolgante. Não vivenciei esse período, mas, no Rio Grande do Norte, existe uma vasta literatura sobre o assunto. Houve uma verdadeira revolução dos costumes. Muitas jovens natalenses se casaram com soldados americanos. Minha tia Carmen Pimentel, que morreu há dez anos, já com 94 anos, falava muito sobre o tempo da Guerra, Dizia que foi o período mais feliz da vida dela e das amigas. rsrsrs…

    Um abraço e uma ótima semana!

    Violante

  4. Belíssima crônica, Violante.

    As história dos norte-americanos em Natal, se confunde com as do Recife.
    Recife sediou a Quarta Frota Americana.
    Por aqui, dentre as marcas deixadas pelos norte-americanos, destaca-se o famoso Cassino Americano. O prédio existe até hoje onde funciona um restaurante.

    O nome do cassino fundado em 1943 é em referencia ao militares americanos que por aqui aportaram durante a Segunda Guerra, e era frequentado principalmente pelos militares americanos que vieram morar na cidade. Diz a lenda que a inauguração contou com a presença da então primeira-dama dos Estados Unidos, Eleanor Roosevelt.

    Não à toa que os prostíbulos do bairro do Pina (nas proximidades do cassino), rivalizavam com a zona do Porto.

    Natal, Recife e seus canteiros de flores

    • Obrigada pela gentileza do comentário, prezado Marcos André M.Cavalcanti!

      Por sua localização estratégica, facilitando deslocamentos para África e Europa, Natal foi base de tropas norte-americanas durante a Segunda Guerra Mundial
      Está prevista, em Natal, a inauguração de um Complexo Cultural da Rampa, museu que contará um pouco sobre a aviação e a participação de Natal no conflito mundial.
      A Rampa é uma antiga estação de passageiros e de transporte de correspondências, utilizada como base para receber hidroaviões. Seu posicionamento privilegiado a tornou de imenso valor durante a Segunda Guerra, quando veio a se tornar a primeira base a operar missões da guerra na América do Sul.

      Uma ótima semana!
      Muita Saúde e Paz!

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