ADONIS OLIVEIRA - LÍNGUA FERINA

Já foi dito, há muito tempo, que a vida se resume a…”Viver…Morrer…e, nesse meio tempo, tentar ser uma pessoa minimamente decente!” A maioria das pessoas, infelizmente, parece não ter consciência bem clara disso.

É bastante compreensível, já que esse percurso, segundo a brilhante definição de W. Somerset Maughan, é como “Caminhar no fio da navalha”.

Foi para auxiliar as pessoas nesse caminho tão árduo e difícil que, desde o início da humanidade, inúmeras tentativas no sentido de elencar e balizar as atitudes “decentes” foram praticadas por reis, filósofos, profetas e pessoas dos mais diversos tipos.

A primeira “Declaração” conhecida, completa e minuciosa, das obrigações e punições que se aplicavam aos súditos de um reino, foram as leis do rei da Babilônia, Hamurabi, do século XVIII a.c. Nela, estavam inscritas uma série de normas básicas para uma saudável convivência humana: Respeitar e honrar o pai e a mãe, não roubar, não matar, não cobiçar as coisas alheias e, muito especialmente, não cobiçar a mulher alheia, e por aí vai…

Com estas normas, ao mesmo tempo em que era reduzido o espaço para que pessoas pouco civilizadas dessem livre vazão a seus instintos mais primitivos, ao mesmo tempo se assegurava uma série de direitos universais: O direito à propriedade privada, à vida, a proteção contra o estupro e o adultério, o direito a uma velhice honrada, dentre outros. Compreensivelmente, Hamurabi julgou por bem dar-lhe uma alegada origem divina, de modo a desmontar qualquer possibilidade futura de contestação por parte dos mais rebeldes do grupo por ele liderado.

Vejam o que diz o prólogo deste código: “Quando o alto Anu, Rei de Anunaki e Bel, Senhor da Terra e dos Céus, determinador dos destinos do mundo, entregou o governo de toda humanidade a Marduk… quando foi pronunciado o alto nome da Babilônia; quando ele a fez famosa no mundo e nela estabeleceu um duradouro reino cujos alicerces tinham a firmeza do céu e da terra – por esse tempo de Anu e Bel me chamaram, a mim, Hamurabi, o excelso príncipe, o adorador dos deuses, para implantar a justiça na terra, para destruir os maus e o mal, para prevenir a opressão do fraco pelo forte… para iluminar o mundo e propiciar o bem-estar do povo”. Foi nessa época que se estabeleceu o princípio: “Não faça aos outros o que não queres que façam a ti.”

Ao final do código, estando o sábio rei bem consciente de que tinha realizado uma obra valiosa para o progresso de seu povo, pôde o mesmo jactar-se de ter realizado uma grande obra: “As justas leis que Hamurabi, o sábio rei, estabeleceu e (com as quais) deu base estável ao governo … Eu sou o governador guardião … Em meu seio trago o povo das terras de Sumer e Acad; … em minha sabedoria eu os refreio, para que o forte não oprima o fraco e para que seja feita justiça à viúva e ao órfão … Que cada homem oprimido compareça diante de mim, como rei que sou da justiça”.

O grande legislador seguinte foi Moisés.

Ao conduzir seu povo de volta à Terra Prometida, e depois de passar 40 anos perambulando pelo deserto da Península do Sinai, constatou o mesmo que havia uma degradação muito grande nos costumes de sua tribo. Assim, dirigiu-se sozinho para o alto do Monte Sinai e, ao retornar, trouxe consigo o decálogo. Segundo o mesmo, estas leis teriam sido ditadas para si pelo próprio Deus. Isto foi por volta do ano 1250 a.c.

Durante os milênios seguintes, com a expansão acelerada do cristianismo, bastou a alegada origem divina das leis de Moisés para que a maior parte da humanidade se submetesse graciosamente às suas determinações. Isto só veio a mudar entre os séculos XVII e XVIII, com a chegada de uma geração de filósofos que consideravam a “Razão” como sendo a guia suprema de todos os homens, como se os homens fossem animais racionais.

É nessa época que surge a ideia de Direitos Humanos “Naturais”, e não com origem divina, mesmo tendo sido acrescentado à primeira redação da “Declaration des Droits de L´Homme e du Citoyen”, de 4 de outubro de 1789, em plena revolução francesa, que a redigiam “en présence du suprême législateur de l’univers”. Este adendo só foi acrescentado ao texto em 20 de outubro de 1789, o que já demonstra a divisão existente entre os racionalistas (ou iluministas), e os adeptos do “Supremo Arquiteto do Universo”.

Grande parte dos artigos desta declaração tiveram sua origem nas ideias de filósofo Jean Jacques Rousseau, nascido em Genebra em 28 de junho de 1712, e morto em 1778; especialmente aquelas que diziam respeito a um hipotético “Contrato Social” que existiria entre o cidadão e a sociedade da qual este mesmo faria parte.

Na realidade, estas ideias chegaram aí através da tradução da Declaração de Independência Americana, de 4 de julho de 1776, especialmente o seu preâmbulo. Esta tradução foi feita pelo próprio embaixador americano, Thomas Jefferson, o qual tinha sido o grande inspirador da mesma e era grande adepto das ideias de Rousseau. A influência americana era tão forte na assembleia francesa que redigiu a Declaração dos Direitos Humanos que havia até uma ala, composta por 13 deputados que era apodada de “Os Americanos”. Estes haviam participado diretamente da Guerra de Independência, enviados que foram pelo rei Luiz XVI a fim de ajudar aos americanos na sua luta pela libertação do domínio inglês.

Na declaração americana, os redatores seguidamente apelam ao “Grande Julgador do Universo”, à “Divina Providência”, ou mesmo ao “Criador” dos seres humanos. Até aí, nada de novo, portanto. Só que as ideias do otimista e messiânico Rousseau possuíam um potencial de desagregação social muitíssimo maior.

Quando vemos alguns basbaques esquerdistas vomitando platitudes deste jaez, sinto como se o cadáver insepulto de Rousseau estivesse redivivo, na minha frente, tentando me empurrar essas idiotices goela abaixo. O danado é que foram exatamente essas mesmas idiotices que levaram centenas de milhões de seres humanos à morte.

O problema maior dessa estória toda se deu quando partiram em busca da eliminação da fundamentação religiosa Judaico-Cristã e da criação de uma “Sociedade Laica”, seja lá isso o que for. A partir daí a discussão passou a ser se os direitos elencados seriam “Direitos Naturais”(?), como se uma entidade abstrata denominada “A Natureza” tivesse alguma coisa a ver com essa encrenca toda, ou se seria um “Direito Positivo”, com embasamento, portanto, apenas numa leitura pragmática da realidade dos fatos como eles são, eliminando-se, portanto, toda e qualquer referência a uma possível influência divina nesta questão.

Ao fim da 2ª Guerra Mundial, em 1945, Eleanor Roosevelt, viúva do falecido presidente americano Franklin Delano Roosevelt, foi nomeada embaixadora dos Estados Unidos na recém-criada O.N.U. Era o coroamento da campanha por ela promovida ao longo de muitos anos. Nessa posição, a mesma liderou a adoção de uma Declaração Universal dos Direitos Humanos, o que veio finalmente a acontecer em 10 de dezembro de 1948.

Traumatizados com o colossal volume de atrocidades praticados nas duas grandes guerras anteriores, procurou-se uma maneira de pôr freio aos excessos comumente praticados pelos estados sobre os indivíduos.

Lendo desapaixonadamente o texto original da ONU, é uma bela declaração de intenções. Pena que não funciona!

Primeiro, pretendia-se que a Declaração fosse “Universal” (bem modesto, não?). Assim, evitou-se qualquer menção a Deus, de modo a não ferir a suscetibilidade de ninguém, já que as ideias a este respeito podem variar desde as mais simples, até as mais malucas possíveis e imagináveis. Este foi um grande erro!

Depois, a turma do “Materialismo Dialético”, em 1966, se apossou da ideia e começou o desastre: Incluíram na lista uma série de difusos “Direitos Sociais”, todos a serem supridos pelo Estado. Só não foi indicado quem seria o otário que deveria bancar essa esbórnia estatal. Incluíram direitos relativos a questões de procriação e das mulheres, deformando grotescamente um documento que iniciava dizendo que “Todos humanos nascem iguais”.

Ao final, transformaram um documento extremamente coerente em uma nova “Religião Laica”, onde foram sacralizados “Direitos Humanos” (sic) carregados de ideologias marxistas para servirem de trampolim à implantação da Nova Ordem Mundial. Tornou-se inclusive justificativa para novas guerras e intervenções externas em países soberanos. Até Cortes Internacionais de justiça já foram criadas, todas devidamente “aparelhadas” pelos partidários do ideário dos Jacobinos e produzindo sentenças a todo vapor.

Quem estiver interessado em conhecer como se pavimenta a estrada para a tomada do poder pelos “comunas”, dê uma olhada no endereço abaixo. Vejam que, na condenação, não há nem menção pelo TERRORISMO, ou pelos inúmeros assassinatos praticados pelas “vítimas”. NEM PENSAR!!! Eram apenas crianças inocentes, em um lindo convescote patrocinado por Cuba, lá no bucólico interior do Araguaia, e que o Exército Brasileiro foi lá e trucidou por maldade. (Clique aqui para ler)

Interessante também é a quantidade de picaretas que fazem dessa estória meio de vida às nossas custas. Detalharei melhor na próxima semana.

11 pensou em “DIREITOS HUMANOS

  1. Adônis, além do exemplo clássico de silogismo (“todos os homens são mortais, os gregos são homens, logo os gregos são mortais”), gosto da resposta do Tavares, personagem do Chico Anysio, quando chamado de escroto: “Sou, mas quem não é”. Abraço do JCS.

  2. Excelente, Adônis:

    Mais uma aula de história que não aparece nos anais oficiais dos governos esquerdopatas!

    Parabéns professor!

  3. Valha-nos Deus! 124 páginas! E em letrinha miúda.
    Leio não!
    ***
    Sempre cutuco os marxistas dizendo que ele foi um contador que aprendeu a escrever enrolado.
    Toda tese do marxismo parte da simples auditoria que ele fez entre o que era recebido pelo empregado e o que era recebido pelo patrão.
    O resto é linguagem.
    Dar nome aos bois.
    Até sua tese de que as contradições inerentes ao capitalismo levaria ao colapso do sistema não se confirmou, até hoje.
    Enquanto teoria politico-econômica não permite previsões, logo é falsa.
    ***
    Quanto aos “direitos” eles só serão seus se nenhum ente conseguir tirá-los de você.
    As leis são favores, de acordo com esse axioma.
    ***
    É por isso que, tendo atingido a idade ritual, aceitei Sânias.
    O que se tem com o Sânias não pode ser tirado.
    Namaste.
    ***

  4. Na verdade é bem simples, mesmo: “Não faça aos outros o que não queres que façam a ti.”

    Só que hoje em dia ninguém admite ser obrigado a fazer algo pelos outros, mas todos acham normal que os outros sejam obrigados a fazer tudo por eles.

      • “Interessante também é a quantidade de picaretas que fazem dessa estória meio de vida às nossas custas.” Adônis deixando recado explícito ao trouxas pagadores de impostos neste Brasil varonil.

        E é aí que vai minha crítica ao tal Bolsonaro: Porrrra, Bolsonaro!! Privatiza a porra toda. Siga o exemplo norte-americano. ESTATAL só serve como TETA para viciados mamadores do leitinho da vaca governamental. mande para o espaço Petrobrás, eletrobrás, BB, Caixa e demais tranqueiras. A Vale (a Vale foi privatizada no dia 6 de maio de 1997) e a Telebras (privatização da Telebrás ocorreu por meio de leilão em 29 de julho de 1998 na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro) foram privatizadas e só os trambiqueiros sentiram falta.

        • Caro Sancho,

          Concordo integralmente contigo. Só que o rombo é bem mais embaixo (ou acima) e muito pior do que imaginamos.

          Aguarde meu próximo capítulo…

          • Você, o Berto, e o Maurino quando entram em um assunto me inflam o orgulho que possuo de ser um palpiteiro fubânico, porque me fazem lembrar meu velho pai, pois entram sem meias palavras, sem politicamente correto, sem frescura, sem querer agradar e acabam agradando e muito aos que ganham seu tempo ao ler o que os señores escrevem. Vi nascer o JBF e assisti a entrada de cada um dos senhores nesta gazeta escrota, que hoje é o maior e melhor, e único verdadeiro democrático, INSTRUMENTO de comunicação e notícia neste nosso Brasil.

  5. Este seu artigo, comprova o que eu disse para o Berto , num comentário
    anterior sobre as qualidades dos articulista deste jornal , do qual
    eu me orgulho de ser um modesto leitor e comentarista.
    Não existe na Internet outro espaço com redatores com a capacidade intelectual
    dos articulistas da BF. Se existe eu ainda não encontrei.
    A sua modéstia , meu prezado Adonis, em classificar este gigantesco
    artigo como ” meu pequeno artigo ” é proporcional à sua grande
    inteligência, cultura e conhecimento, como tem sempre demonstrado.
    Só posso classificar este trabalho como magistral e não sei como
    registrar para o seu autor , o prazer intelectual que o seu artigo me proporcionou.
    Sou um grande devorador de livros , portanto sei reconhecer uma
    obra maior e dificilmente encontro algo que me surpreende qualitativamente.
    Obrigado meu Caro articulista por esta aula de história.

    O próximo capitulo, certamente será muito esclarecedor.

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