GOIANO BRAGA HORTA - ARCO, TARCO E VERVA

Manoel Araújo Pantaleão dos Guimarães Horta, conhecido como Manézim Araújo, vivia entre Aimorés, Mutum, Manhuaçu, Manhumirim, Tombos, Caratinga, Carangola, Muriaé e outras cidades do interior de Minas, apresentando-se em festas de casamento e de aniversário, boates das zonas boêmias, pequenos teatros e até circos, recitando poemas de autores ilustres para platéias emocionadas, que levava dos risos às lágrimas por sua oratória declamativa ora alegre, ora dramática.

Um dia, em uma dessas cidades, encerrou sua apresentação recitando com êxtase, na casa do prefeito, que comemorava seus cinqüenta anos de casamento, o poema Deus, de Casimiro de Abreu, homenageando o feliz e religioso casal:

Eu me lembro! Eu me lembro! – Era pequeno
E brincava na praia; o mar bramia,
E, erguendo o dorso altivo, sacudia,
A branca espuma para o céu sereno.

E eu disse a minha mãe nesse momento:
“Que dura orquestra! Que furor insano!
Que pode haver de maior do que o oceano
Ou que seja mais forte do que o vento?”

Minha mãe a sorrir, olhou pros céus
E respondeu: – Um ser que nós não vemos,
É maior do que o mar que nós tememos,
Mais forte que o tufão, meu filho, é Deus.

Mal Manézim terminou, sob lágrimas e aplausos, o dono da casa veio a ele e lhe pediu: um amigo, muito culto, que vivia na França, havia vertido essa poesia para o Francês, e gostaria de apresentá-la para o os convidados.

Manézim ficou emocionado, sim, sim, gostaria muito de ver isso, nunca ouvira nada nessa língua e queria aproveitar a bela oportunidade.

Pois, o sujeito apresentou sua versão francesa e Manézim ouviu extasiado. E observou como a platéia adorou ouvir um poema em Francês, mesmo sem entender nada do que estava sendo dito.

Manézim compreendeu que era a musicalidade da língua e a intensidade declamatória do recitador que produziam tal resultado.

Excitado, tão logo findou a recitação, correu à procura de papel e lápis e foi escrever o que ouvira.

Ele não sabia nada de Francês, sequer terminara o primário, mas tinha ouvido e memória prodigiosos.

Assim, ele juntou sons do Francês com as palavras originais do poema em Português, e a partir dali “Dieu” passou a ser “Diê” e tornou-se o carro-chefe de suas apresentações poéticas.

E recitava:

Diê

Je malambre, je malambre, êté peti
Ê blanqué sur la plage, la mer bramé
Ê ergam le dorse altive sacudé
La blanche esquime pur le ciel serréin

Ê je di a ma mérre dans ce moman
Que dure oquétre, que furrêur insan
Que peute avoir maior que locean
U que çoate plu forte que le van?

Ma mérre a surrir olhêu pru cél ê rêpondê
É an cér que nói non vemo
É plu gran qui u marr qui nói tememo
Plu forte queo tufon, mon fiss, é Diê!

Todos acompanhavam de olhos arregalados a beleza e a musicalidade do idioma de Victor Hugo e aplaudiam por minutos seguidos, por vezes tendo Manézim que repetir o poema.

E foi assim mesmo que ele escreveu o que achou ter compreendido: Uma das fãs de Manézim, Rosinha, ia aos céus quando o via iluminado no palco, falando tanta beleza. E foi ela mesma, Rosinha, que trabalhava como arrumadeira no Hotel da Ponte, de Lajinha, que encontrou Diê em um papel na mesinha de cabeceira do quarto de Manézim e copiou, encantada.

Felizmente, não apareceu por ali por aquelas bandas alguém que soubesse mais que dizer bonjour, para macular o esplendoroso sucesso de Manézim Araújo recitando Diê.

Quem quiser vê-lo, pode se preparar. Suas novas apresentações serão mês que vem, em Reduto, Chalé, Matipó e Ipanema.

22 pensou em “DIÊ

  1. Brinca de poema o poeta Goianô Bragô Hortô e encanta Sanchô, um idiota, que por tudo se encanta, mas (poético mas), que não se cansa de repetir poetas maiores, que diziam: “tudo valer a pena se a alma não é pequena”.
    Gigantesca alma “bragortina” carrega esse moço da fria Petrópolis, que usa sua genialidade para aquecer corações, fubânicos ou não.

    Beijunda procê, parisino. Até que a boa bala, da boa espingarda, neste bom direitista que vos ama, nos separe.

    Impossível não te amar…

    • Meu querido Xupinrúfelo Xanço, nada deve separar esta mistura homogênea que somos nós os esquerdistas cachorros pachorrentos e os direitistas dignos e honrados do Jornal da Besta Fubana cujo único objetivo é tornar nossa amizade firme e duradoura, apesar das tentativas de Adônis de sabotar isso chamando as pessoas de meu chapa em vez de meu querido. Beijo no teu privilegiado cérebro.

      • Que porra é essa, Goiano?

        Eu cá, queto no meu canto, sem mexer com ninguém, e vens tu dizer que eu chamo alguém de “Meu Chapa”?

        Para com isso! Meu chapa um caralho!

        Eu gosto mesmo é de uma boa polêmica contigo, daquelas que tu escreves uns 39 comentários recheados de estatísticas mil, malucas até dizer basta e que ninguém verifica a autenticidade, pois estão todos cagando e andando solenemente para essas numeralhadas todas que tu alinhas.

        Prepare para ver uma grande baixa na sua adega assim que o dólar recuar um pouquinho. Vou invadi-la e confiscá-la em apoio à Revolução Proletária. O máximo que te concederei será poder dar algumas goladas nos teus finíssimos vinhos também, e falar montes de merda depois de devidamente embriagado.

        • Adônis, meu chapa, não dá para ter vinhos finos com o dólar a quase seis reais e o euro a quase sete, fico catando aqueles chilenos mais baratinhos e uns europeus de quinta linha… tá difícil. Ainda bem que nós temos boas cachaças e cervejas agradáveis, caso contrário estaríamos nadando no seco rsrsrs
          Quando o dólar recuar um montão, aí sim, vamos poder encher de vinho na adega rsrsrs de novo

  2. Titre : L’âme du vin
    Poète : Charles Baudelaire (1821-1867)
    Recueil : Les fleurs du mal (1857).

    Un soir, l’âme du vin chantait dans les bouteilles :
    ” Homme, vers toi je pousse, ô cher déshérité,
    Sous ma prison de verre et mes cires vermeilles,
    Un chant plein de lumière et de fraternité !

    Je sais combien il faut, sur la colline en flamme,
    De peine, de sueur et de soleil cuisant
    Pour engendrer ma vie et pour me donner l’âme ;
    Mais je ne serai point ingrat ni malfaisant,

    Car j’éprouve une joie immense quand je tombe
    Dans le gosier d’un homme usé par ses travaux,
    Et sa chaude poitrine est une douce tombe
    Où je me plais bien mieux que dans mes froids caveaux.

    Entends-tu retentir les refrains des dimanches
    Et l’espoir qui gazouille en mon sein palpitant ?
    Les coudes sur la table et retroussant tes manches,
    Tu me glorifieras et tu seras content ;

    J’allumerai les yeux de ta femme ravie ;
    A ton fils je rendrai sa force et ses couleurs
    Et serai pour ce frêle athlète de la vie
    L’huile qui raffermit les muscles des lutteurs.

    En toi je tomberai, végétale ambroisie,
    Grain précieux jeté par l’éternel Semeur,
    Pour que de notre amour naisse la poésie
    Qui jaillira vers Dieu comme une rare fleur ! ”

    Charles Baudelaire.

    Igual Manezin só o google para me dizer o que significa este poema, mas, com certeza, a Flor de Lis (símbolo da França), Miguel e Joana censurarão e censuraram o poeta.

    Óh! Cette enfant terrible!
    .

  3. Excelente, Goiano.

    Mil bestafubanenses te tolerará à esquerda, e dez mil à tua direita, mas tu não, tu serás o poeta da vez. Fecha a conta e passa a régua!

    De coração, Parabéns!!!

    .

  4. Boa Goiano. Mas eu como.matuto Véio do interior ainda vou esperar para ver se vc não tem uma recaída . Até com o covid isto vem acontecendo. Abs

  5. Parabéns pela excelente postagem, prezado Goiano! Adorei a leitura da versão francesa, do poema “Deus”, feita pelo amigo de Manézim.

    Lembrei-me da história de um caixeiro-viajante, que chegou á casa do comerciante Chico Brito,, em Natal, fingindo-se de gringo e perguntou:

    -Monsieur Britô está?

    A mulher de Chico Brito, muito exibida, respondeu:

    “Non, “monsiê”. Britô almoçou, tomou bondê e foi Ribeirá” (Ribeira é um bairro de Natal)

    Abraço!

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