MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

Em um dia 27, sexta-feira de manhã de um mês de 31 dias num ano da década de 1970 que já se perdeu no passado, minha secretária na G.M. em São José dos Campos recebeu uma ligação do gerente do Bamerindus, querendo falar comigo com urgência. O Bamerindus era o Banco pelo qual recebíamos nossos salários, bem como as devoluções do Imposto de Renda – vosmecê se lembra-se do Fundo 157? – e pagávamos as nossas contas de luz e água.

Claro, para um cabra que estava iniciando sua família, com filhos ainda miudos, contando cada centavo gasto, a vida não estava nada fácil. A inflação da época também comia solta qualquer sobra de dinheiro. Eu estava pulando o portão da cerca para economizar a dobradiça da cancela.

A primeira coisa que me veio à cabeça foi que algum cheque voador pré-datado havia escorregado pela cidade, algo que já tinha precedente. Gerentes de banco só ligam para Clientes quando precisam cobrir o rombo na conta. As tripas deram um nó arretado, uma vez que ainda era sexta-feira e o salário só cairia na próxima segunda-feira no final do dia para poder ser sacado na terça. Fiz de conta que estava pelo meio da fábrica, inalcançável.

Juntei meus talões de cheque e conferi todos os números pelo menos três vezes. Tudo indicava que meu saldo era realmente de 6 Cruzeiros, o dinheiro de plantão no Brasil daquele tempo, algo que dava para comprar algo como seis pães na padaria.

Às 2 da tarde o gerente ligou de novo. Precisava falar comigo urgentemente.

Escondi-me entre as máquinas da fábrica e instruí minha secretária a dizer que estava em uma reunião muitíssimo importante – ou qualquer outra desculpa que todas as secretárias comumente dão (aliás, no Brasil, assim que um sujeito é promovido a Sub-Assessor do Assistente do Vice a primeira coisa que faz é contratar uma secretária para atender o telefone e dizer que o chefe está em reunião).

Não havia celulares na década de 1970, para minha sorte. A essa altura minha cabeça rodava para descobrir onde estava o erro, mas não consegui chegar a nenhuma conclusão.

O dia terminou.

Deixei o trabalho por volta das 19 horas. Cheguei em casa escoiceando as paredes. Fui logo avisado que o gerente do Bamerindus havia por lá passado às 17 horas, dizendo que estava desde a manhã me procurando, era importante, e deixou seu cartão de visitas com um pedido para que eu ligasse sem falta logo cedo na segunda-feira. Vixe, pensei, dei o maior rombo lá na baixa da égua!

Passei uns dias de cão. Nem pão fui comprar com medo de ser derrubado no chão e castrado por algum zeloso funcionário do Banco devidamente armado com uma tesoura, posto de tocaia na esquina. Nada de sair de casa, matutando e sofrendo. As crianças ficaram sem o passeio de fim de semana e quase me denunciaram ao Conselho Tutelar por sofrimento indevido, provocado pela opressão paterna.

Apesar de minhas fervorosas orações, o deus Cronos não conseguiu abolir a segunda-feira, e ela finalmente chegou. Antes de ir para o trabalho fui ao Banco para encarar a fera. Assim que me apresentei à recepcionista ela arregalou os olhos:

– Ora, ora, o senhor é então o sr. Magnovaldo? Sabe, estivemos à sua procura toda a sexta-feira. O gerente precisa muito falar consigo.

E lá veio o gerente todo sacudido e que, para minha surpresa, estava com um sorriso que mal cabia na cara, me convidando a sentar e mandando uma mocinha servir-me um café, incumbência que ela cumpriu com maestria.

– Sr. Magnovaldo, estive tentando encontrar-lhe desde sexta-feira. Chegou seu cheque para aplicação no Fundo 157, um valor respeitável (dava quase 2 salários meus), e queremos que o senhor aplique esse valor no nosso Fundo Bamerindus 157, já que estamos em uma campanha para arrecadar o valor de 5 milhões de cruzeiros até o fim deste mês. Isso para nós é uma meta muito importante. Se o senhor aplicar conosco, vamos dar-lhe como agradecimento e recompensa um cheque especial com um limite de 3 salários seus, imediatamente.

Senti-me parecido como cachorro de pobre morador de rua – quando alguém quer fazer um carinho ele foge, pensando que vai levar pancada.

Pois eu digo a vosmecê que senti no fundo dos meus intestinos como eu era o perfeito exemplo do idiota! Tive vontade de morder o cotovelo.

8 pensou em “DIAS DE CÃO

  1. Sr. Magnovaldo,

    A pediu pediu para dizer que com seu “causo” de hoje quase mordeu os cotovelos também.
    Mandou beijos estraladaços.
    Muito em breve estará por aqui ao vivo e a cores.
    Sou Ana Paula, filha da Schirley.

  2. Prezada Paula: agradeça à sua querida mãe Schirley, “A Inspiração”, pelo comentário.
    Se você estiver no mesmo caminho dela, será dona de um brilhante futuro.
    Beijão, bom final de semana.
    Magnovaldo

  3. Parabéns pelo excelente texto, grande cronista Magnovaldo Santos!

    Graças a Deus, houve uma surpresa boa, e um final feliz, depois dos dias de cão que você passou, sem saber qual a urgência do gerente do banco em lhe falar.

    Dependendo do nosso momento financeiro, nada de bom vem a nossa cabeça, diante de uma “convocação” dessa.

    Sua comparação foi ótima:

    “Senti-me parecido como cachorro de pobre morador de rua – quando alguém quer fazer um carinho ele foge, pensando que vai levar pancada.”

    Você era feliz e não sabia!!! Teve razão de ter tido vontade de morder o cotovelo!!! rsrs

    Grande abraço e um excelente final de semana!

  4. Pois é, Violante. É engraçado como, em função de uma vida dura, sempre esperamos pelo pior. Quando o telefone toca de madrugada, você demora a atender e a outra pessoa desliga você sempre espera que seja uma notícia ruim – e, às vezes, foi apenas um engano.
    Grato pelas suas gentis palavras.
    Tenha um bom final de semana junto aos seus queridos.
    Abraços,
    Magnovaldo.

  5. Magnovaldo, esqueci de comentar: tem um gerente do banco do Brasil pedindo teu contato. Disse que na próxima sexta estará no Cabaré pra falar como você. Se ainda tiver fundo, parece que ele quer botar a mão

  6. Imagino que o fundo o qual ele quer botar a mão não seja o meu anatômico, cousa absolutamente fora de cogitação!
    Se minha suposição for verdadeira, não há problema algum: pode passar-lhe meu e-mail. Só me avisa o nome do cavalheiro para que eu possa saber e não destine sua mensagem à caixa de SPAM, ok?
    Um abraço, bom final de semana.
    Magnovaldo

  7. Meu estimado cronista, já sofri as berças, tal qual vosmecê, e de graça! Não havia motivos!

    Os motivos do sofrimento estava na minha cabeça, que não admitia estripulias com as coisas alheias.

    O meu não era aplicação, mas contratos dos outros. E sempre que alguém me procurava para eu procurá-lo, imediatamente surgiam dúvidas e perguntas mirabolantes na minha cabeça. Será que eu errei na elaboração de tal o tais contratos?

    (nessas horas papai estava sempre presente, espiritualmente!)

    Quando, a contra gosto, eu procurava o inquilino era para ele me dá os parabéns porque as informações que eu lhe passava estavam corretas e não as que ele imaginava ser.

    E eu ficava a me perguntar: a honestidade é uma dádiva, mas a gente sofre pra burro!

    Parabéns, estimado cronista por mais esse petardo.

    Abraçaço com ótimo início de semana.

    • Pois é, Ciço, meu bom compadre:
      É impressionante como os honestos sofrem. Como digo, cachorro de pobre foge de um carinho, porque está acostumado a levar pancada e passar fome, fora as mordidas das pulgas.
      Também tenho a sensação de que sempre há um anjo protetor em nossas vidas.
      Tenha um bom dia.
      Abraços,
      Magnovaldo

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