MAGNOVALDO BEZERRA - EXCRESCÊNCIAS

No dia 11 do mês de agosto, é comemorado no Brasil o Dia do Advogado. A escolha dessa data remete ao dia em que foram instituídas, no ano de 1827, as duas primeiras faculdades de Direito do Brasil, a saber: a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, e a Faculdade de Direito de Olinda, em Pernambuco – que foi transferida para a cidade de Recife em 1854.

A grande celebração estudantil daquela data, pelo menos em São Paulo, é o “Dia da Pindura” – que deveria ser chamado de “Dia do Pendura” – , quando os estudantes de Direito vão comer em algum restaurante e mandam “pendurar” a conta, que será paga assim que o Brasil virar uma democracia.

Tal safadeza, iniciada na década de 1930 pelos estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, foi logo copiado por safardanas de diversas outras faculdades, tornando-se uma praga para os restaurantes. Alguns não atendem jovens nesse dia, ou somente lhes servem macarrão barato e refrescos. Alguns donos de restaurante chamavam a Polícia quando não recebiam o pagamento pela refeição, mas assim que os jovens chegavam à Delegacia o Delegado fazia o B.O. e os soltava em seguida – afinal, os Delegados também já tinham sido estudantes de Direito um dia e eram simpáticos à nobre e sacudida causa.

Na Escola Politécnica da USP uma variante dessa tradição, menos danosa aos usos e costumes da sociedade, era posta em prática: havia a “Semana do Politécnico”, comemorada na Semana da Pátria – a Escola foi oficialmente fundada em 24 de Agosto de 1893, e implementada em 1º. de Setembro, como resultado da consolidação da Lei Estadual nº 191. Tal semana, também chamada de “Semana do Saco Cheio”, é uma temporada de descanso para os professores e estudantes, e era aproveitada pelo Grêmio Politécnico para solicitar aos restaurantes, cinemas, teatros, parques de diversão, etc., comidas, bebidas, ou entradas gratuitas para os estudantes. Na verdade, era uma semana inteira de “pindura”.

Acontece que um desses brindes atendidos foi uma entrada gratuita para o Cine Eldorado, perto da Praça da República, seguramente o cinema mais sofisticado e caro de São Paulo na década de 1960.

O ingresso constou de um ingresso normal com um carimbo do Cine Eldorado no verso, com os dizeres: “Válido para quatro pessoas” e a assinatura de um dos donos.

O único problema era que nós éramos em cinco, todos duros, que não tinham dinheiro para comprar um ingresso normal para o Cine Eldorado para assistir “A Noviça Rebelde”, o sucesso daquele ano de 1965.

Nisso meu colega Kazunobu Wagatsuma, queridamente conhecido como Kazuo, um japa afeito às safadezas da vida, mais mentiroso que aquele descondenado, mas com uma impecável cara de japonês sério, sossegou nossos espíritos:

– Deixem comigo. Vamos entrar todos os cinco.

E foi isso que se assucedeu.

Nós, os outros quatro, entramos junto com o Kazuo, que mostrou o ingresso com o carimbo “Válido para quatro pessoas”, e afirmou ao moço que recolhia os ingressos:

– São esses quatro aí!

O porteiro viu os quatro, murmurou “Sim, senhor, tudo bem!”, mas a pulga da dúvida mordeu sua orelha.

Enquanto coçava a cabeça para entender o que estava acontecendo, todos nós já estávamos perdidos no meio das confortáveis poltronas do cine Eldorado.

E, diga-se de passagem, a Julie Andrews estava divina, como certamente confirmaria meu bom compadre Ciço Tavares, proprietário de um cabedal prenhe de conhecimentos cinematográficos.

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