MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Uma relação de emprego pode ser vista sob dois pontos de vista completamente diferentes. No primeiro, é um negócio fechado de comum acordo entre duas pessoas adultas e responsáveis por si mesmas. De um lado, um empresário que precisa que determinado serviço seja feito. De outro, um empregado disposto a fazer o serviço em troca de um pagamento. Os dois lados chegam a um consenso, elaboram um contrato especificando os termos, e todos ficam felizes. Como se dizia antigamente, “o que é combinado não é caro para ninguém”.

O outro ponto de vista parte de princípios completamente diferentes. Seus defensores acreditam que um emprego é, antes de tudo, um “direito”, que deve vir acompanhado do maior número possível de “benefícios”. Saúde, educação, transporte, moradia, filhos e mais alguma coisa devem ser uma preocupação e uma responsabilidade não de cada pessoa, mas de seu empregador. É este quem deve arcar com as consequências das escolhas e decisões dos empregados.

Os defensores deste segundo ponto de vista costumam defender que alguns devem ganhar mais, mas detestam a idéia de alguém ganhar menos. Reclamam da desigualdade, e defendem que todos são “iguais” e todos merecem ganhar a mesma coisa. Ao mesmo tempo, acham que o salário não deve ser determinado pelo que cada um produz, mas pelas “necessidades”, e daí o salário deve ser maior para quem tem mais filhos, ou sustenta os pais, ou mora na favela, ou usa óculos, ou outra coisa qualquer. É ilógico, claro, mas em um país onde não se ensina matemática nas escolas, não é surpresa as pessoas acharem que A pode ser maior que B sem que B seja menor que A.

Não é preciso dizer que o primeiro ponto de vista combina com o livre mercado: cada um ganha de acordo com o que produz, e todos são livres para buscar o que acham melhor para si mesmos. O segundo ponto de vista combina com socialismos e intervencionismos, e é difícil de analisar porque não se baseia na lógica. Sempre que escuto um defensor do comunismo dizendo “de cada um segundo sua capacidade, para cada um segundo sua necessidade”, fico pensando quem, e com que parâmetros, vai determinar qual a capacidade e qual a necessidade de cada um. Conheci na Internet um ferrenho defensor desta teoria, que morava em uma cobertura de frente para o mar em Fortaleza. Como não é fisicamente possível que todas as pessoas do planeta morem em coberturas de frente para o mar, perguntei a ele várias vezes qual critério seria usado, caso suas propostas de igualdade universal fossem implantadas, para determinar quais pessoas teriam esse direito. Infelizmente, ele nunca me respondeu.

Uma das desigualdades “da moda” é a suposta diferença salarial entre homens e mulheres. Jornalistas, sendo jornalistas, fuçam pesquisas e trabalhos acadêmicos para encontrar o número mais escandaloso e estampá-lo em manchetes bombásticas.

Será que a tal desigualdade existe? Tenho cá comigo três argumentos que dizem que não:

1 – Se fosse encontrada uma empresa onde esta disparidade fosse comprovada, alguém duvida que as redes sociais fariam um grande escândalo, com passeatas, manifestações, pedidos de boicote e talvez algumas depredações? Se até hoje nunca aconteceu, deve ser porque nunca encontraram, e garanto que não foi por falta de procurar.

2 – Se fosse verdade, os índices de desemprego para as mulheres deveriam ser significativamente menores que para os homens. Afinal, os empregadores não são capitalistas malvados que só buscam o lucro? Porque então contratariam mão-de-obra mais cara (os homens) se poderiam contratar uma mulher para a mesma função e pagar menos?

3 – Várias leis brasileiras impõem a igualdade salarial. Uma mulher que ganhasse menos que um colega homem só precisaria contratar um advogado trabalhista (e são muitos) para receber via Justiça do Trabalho um bom dinheiro.

Mas existem pesquisas que dizem que o salário médio das mulheres é menor que o dos homens? Sim, existem. Por que? Porque estão falando de atividades diferentes. Se existem pesquisas que mostrem desigualdade salarial entre os sexos na mesma função, eu desconheço. Mas é um fato que, estatisticamente, homens e mulheres fazem escolhas diferentes no que diz respeito à sua vida profissional (e pessoal também, porque não?). Basta olhar as pesquisas para constatar que muito mais mulheres que homens dizem colocar outras prioridades acima do salário (satisfação pessoal, ambiente agradável, horário flexível, etc). Vendo pelo outro lado: é maior o número de homens que aceitam abrir mão dessas vantagens em troca de um salário maior.

Nos níveis mais altos, os salários são definidos pelas qualidades individuais. Não há um salário padrão para gerentes, diretores, planejadores, analistas; no máximo um valor inicial médio que serve de referência. Daí para cima, o salário varia de acordo com o valor que cada um produz. Empresas sempre querem os melhores funcionários, e pagam por isso. Achar que empresas se dão ao luxo de desperdiçar bons empregados por machismo (ou outro preconceito qualquer) é no mínimo ingênuo – e no máximo, uma mentira consciente e intencional.

Nas funções inferiores, o processo é mais coletivo que individual. Nesta área, o maior causador da desigualdade salarial entre homens e mulheres é a legislação. Ao criar “direitos” para as mulheres, a lei cria “obrigações” para as empresas que custam caro. Podendo escolher entre pagar mais caro e se incomodar mais ou pagar mais barato e se incomodar menos, muitas empresas (mesquinhas, gananciosas, etc, etc, etc) preferem contratar homens. Havendo menos vagas para as mulheres, pela inevitável lei da oferta e procura, o salário médio cairá. Além disso, a oferta de empregos já é naturalmente menor para as mulheres por excluir uma gama de atividades penosas e perigosas, que vão de carregar e descarregar caminhões a escavar túneis.

As pesquisas, estas mesmas que os indignados usam ao gritar suas supostas “denúncias”, mostram claramente, para quem souber examiná-las de forma lúcida, que diferenças salariais são consequência de decisões pessoais. Uma pessoa que se dedica a fazer algo que é valorizado, e se torna competente nisso, certamente ganhará bem. Um pessoa que resolve fazer o que gosta, não se importando se isso é valorizado ou não pelos outros, provavelmente irá ganhar menos. Algumas pessoas certamente dirão que não é “justo” que uma pessoa ganhe menos por fazer algo que ninguém quer. Infelizmente, por mais que alguns gritem até perder o fôlego que o direito A ou B “é possível, basta querer”, a realidade costuma mostrar o contrário.

4 pensou em “DESIGUALDADES

  1. Bertoluci desenhando: Uma pessoa que se dedica a fazer algo que é valorizado, e se torna competente nisso, certamente ganhará bem (exemplo: jogadores de futebol de grandes times europeus). Um pessoa que resolve fazer o que gosta, não se importando se isso é valorizado ou não pelos outros, provavelmente irá ganhar menos (nós colunistas fubânicos, que recebemos apenas um salário mínimo mensal).

    Abração, grande amigo.

    • Perfeitas colocações, BERTOLUCI.

      Imagine o perrengue que passei ao contestar durante uma pós- graduação em direto e processo do trabalho, onde tinha uma “cadeira” de “direito sindical”. Típicamente e absurdamente socialista.

      Onde a instrutora me dizia: “Dr., eu so estou ministrando o conteúdo do programa” . Ante os embates e contestações reduziram 70% do conteúdo.

      A OAB é do PT.

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