MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

O prefeito de uma pequena e isolada cidade estava muito feliz. Os dados mostravam que no ano anterior, um quarto dos moradores tinha reformado ou reconstruído sua casa. Com efeito, bastava caminhar pela cidade para notar que havia menos casas velhas e feias, e mais casas novas e bonitas.

A alegria do prefeito foi estragada pela visita de uma comissão de estudiosos, representantes de ONG´s e um alto comissário das Nações Unidas. A comissão disse ao prefeito que, pelos índices oficiais, sua cidade estava despencando no ranking. O prefeito saiu da reunião encucado. Que estatística maluca era aquela que dizia que a cidade estava pior, quando as melhoras estavam tão visíveis?

Naquela mesma noite, um terremoto chacoalhou a região. O prefeito saiu de casa e viu, apavorado, que a cidade havia sido destruída. A maior parte das casas havia desabado, algumas poucas ainda tinham uma ou duas paredes em pé. Enquanto vagava pelas ruas, o prefeito encontrou-se com a comitiva, que saía do que restava do único hotel da cidade. Completamente desorientado, o prefeito ouviu o chefe da comissão dizer:

“Meus parabéns, prefeito! O senhor é um homem sortudo! Nossa opinião desfavorável foi corrigida por este capricho da natureza. Agora, os índices estão muito próximos da perfeição, e sua cidade é um exemplo para o mundo!”

Por incrível que pareça, idéias como estas existem, bem como o tal índice: chama-se “Indice Gini”, ou “Coeficiente de Desigualdade”. Segundo este conceito, se três pessoas moram em uma rua, e as três ganham casas novas, sendo uma delas melhor que as outras duas, o índice piora. Por outro lado, se as três pessoas perderem tudo que tem, o índice não apenas melhora como atinge seu valor máximo.

Claro que se pode dizer que o índice é apenas uma ferramenta matemática, que deve ser analisado juntamente com outros dados, etc, etc. Mas, na prática, o índice é usado da forma que nosso hipotético prefeito testemunhou: é melhor todos serem iguais na pobreza do que todos serem ricos, mas alguns serem mais ricos que outros. Como o progresso, quase sempre, começa pequeno e se espalha aos poucos, os “adoradores de Gini” são quase sempre inimigos do progresso.

Os avanços tecnológicos das últimas décadas tem reduzido a pobreza em todo o mundo de uma forma inédita na história. Segundo o Banco Mundial, 85% da população mundial vivia em “extrema pobreza” em 1800. O índice caiu para 70% por volta de 1900, atingiu 50% em 1966 e em 2017 era de apenas 9%, mesmo com a população tendo triplicado nas últimas sete décadas. Para os políticos e intelectuais cuja carreira depende do populismo, a bandeira da “pobreza” está rapidamente se tornando inútil. Sua substituta é a bandeira da “desigualdade”.

Qualquer pessoa suficientemente cética sabe que é mais fácil conquistar pessoas usando a emoção do que a lógica, e que as emoções “negativas” são ainda melhores. Que fazem então os sedentos por poder? Vão direto aos instintos básicos: a inveja e a cobiça, que não se chamam Pecados Capitais à toa.

Todos conhecem o método: se os mais pobres são os que mais se beneficiam do progresso e da liberdade econômica, não importa: importa que o Neymar ou o Bill Gates ou a Lady Gaga são “ricos demais”. Não importa que um pobre na favela tenha arranjado um emprego, comprado um carro usado, trocado seu barraco feito de tábuas velhas por uma casa de tijolos: importa é que os donos do Wal-Mart ou do Google ganham X vezes mais do que ele. Não importa que um pai possa comprar um computador para seu filho e com isso dar a ele a chance de aprender o que quiser, de uma forma que ele, pai, nunca sonhou: importa é reclamar que em alguma loja de Paris existe algo que o pobre pai nunca vai poder comprar.

A Amazon, maior empresa de comércio on-line do mundo, permitiu a milhares de pessoas no mundo virarem empreendedores, produzindo algo e vendendo através da plataforma Amazon. O Google dá a qualquer pessoa do mundo (exceto as cubanas e norte-coreanas) acesso a uma quantidade quase inimaginável de informação (e de graça!). Mas para alguns é intolerável que seus donos sejam ricos: eles não conseguem perceber que Jeff Bezos e Larry Page não ficaram ricos tirando dos outros, mas sim oferecendo aos outros algo que eles não tinham.

A indústria do entretenimento é uma prova óbvia da redução da pobreza: pessoas não gastariam dinheiro com diversão se não tivessem suas necessidades básicas atendidas. Além disso, é uma grande geradora de empregos e de oportunidades para milhões de pessoas. Novamente, alguns se mostram ofendidos ao saber que as grandes celebridades desta indústria (esportes, música, cinema) ganham muito.

É óbvio que a tal “igualdade” que muitos pedem (exigem, na verdade) é materialmente impossível: como a Apple faria para produzir sete bilhões de iPhones? De onde tirar bilhões de Ferraris para que todos tenham o mesmo “direito” de ter uma Ferrari? Provavelmente é uma vontade que sequer existe: eu com certeza não quero ter uma Ferrari, e não me preocupa nada saber que tem gente que tem dez ou vinte delas. Um dos conceitos básicos da economia diz que o preço de algo depende da relação entre oferta e procura, e é natural e inevitável que existam coisas que não existam em quantidade suficiente para que todos possam ter.

As consequências desta mentalidade aparecem em uma juventude infeliz e ressentida, que é incapaz de apreciar a felicidade porque é obcecada em tentar destruir qualquer pessoa que seja “mais feliz” que alguma outra. Levada às últimas consequências, a ideologia da desigualdade diz que todas as pessoas devem ser tão infelizes quanto a pessoa mais infeliz do mundo.

P.S. Embora eu tenha evitado, neste texto, associar a falácia da desigualdade a um determinado lado político, é óbvio que você, leitor, percebeu que eu estava falando da esquerda. Talvez seja interessante saber que o Coeficiente de Gini, que a esquerda adora citar, foi desenvolvido por Corrado Gini (1884-1965), matemático e sociólogo italiano. Gini apoiou o governo de Mussolini (publicou em 1927 um artigo intitulado As Bases Científicas do Fascismo) e fundou em 1944 o Movimento Unionista Italiano, que pregava a união de “todos os países democráticos” sob um governo mundial. Coincidência?

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