DESEQUILÍBRIOS

O Plano Real atingiu a maioridade. Foi implantado em 1994 com objetivos específicos. Promover reformas, combater a hiperinflação, estabilizar a economia. Desde 1980, o Brasil esperneava, sem saber como domar a fera. Em 1980, a economia rodopiava, sem encontrar o Norte. Em março de 1990, a inflação festejava 80%.

Crise é que não faltou no país. Foi uma atrás da outra. Em 1979, rolaram muitos desacertos. Foi aí que o país se sentiu iluminado para implantar reforma, com o propósito de resolver sérios problemas. Antes, foram lançados cinco novos programas de estabilização da moeda. Cruzado, Bresser, Verão, Collor I e Collor II. Todos fracassados. Foi um troca troca do nome da moeda corrente que chateou. A do Plano Real foi a décima terceira reforma.

Uma das bandeiras do Plano foi disparar petardos contra o descontrole fiscal que bagunçava a ordem econômica. Infelizmente, situação ainda pendente, que reforça a continuidade das reformas.

Por ser dependente das importações de produtos industrializados para cobrir a fraquíssima produção industrial nacional, o país acumulou déficits comercial. O infortúnio veio da Era Vargas. Faminto de recursos financeiros, o Brasil não tinha outro caminho, senão pedir empréstimos aos países ricos.

Foi daí que surgiu a necessidade de se pensar em sonhos desenvolvimentistas. A primeira ideia incrementou o processo de industrialização do país. Juscelino Kubitschek seguiu a dica estabelecendo um Plano de Metas.

O Plano exigia financiamentos externos para dar suporte a três esquemas. Todos de extrema necessidade. Substituição de importação, industrialização pesada e dívida externa.

Lamentavelmente, a herança contabilizada foi desinteressante. Passou longe do esperado. A inflação do início da década de 90, registrou 6.800%. Em 1993, baixou para 2000%. Pura doideira.

A desigualdade social também impactou, os bancos se desregulamentaram, o Estado perdeu poder econômico. O que sobrou foi um retrato desbotado do Brasil que inspirava adotar uma rigorosa política de austeridade. Tentaram esconder a verdade sobre uma das piores crises econômicas da história brasileira. Não adiantava mais esconder o segredo de ninguém porque a crise política veio para arrebentar a boca do balão. Inspirando os seguidores da doutrina liberalista, seguir os conselhos do neoliberalismo.

A corrente já estava montada. O Plano Real saiu da fornalha, prontinho, centrado em três fases. Ajuste Fiscal, Desindexação e, sobretudo, a Âncora Nacional, o miolo da moeda oficial, o Real.

Logo de cara o governo tomou algumas decisões. Aumentou os impostos federais para equilibrar as contas públicas, reduziu gastos, fez privatizações, promoveu a abertura econômica do país, procedeu nas reformas bancárias.

Planejado para evitar o efeito sanfona, engorda, emagrece, dos planos anteriores, o Plano seguiu em frente. Pulou muitas barreiras até atingir a fase adulta. Neste ano, o Plano Real completou 26, anos. Apesar de alguns tropeços, o Plano pode comemorar alguns efeitos positivos. O controle da inflação e a estabilização econômica.

Mas, embora não comentem, o Plano Real cometeu erros. Elevou exageradamente a taxa de juros. A economia reduziu o ritmo, o desemprego cresceu, o consumo e a renda caíram. O poder de compra do brasileiro foi abaixo.

Outro reflexo negativo do Plano, foi alterar a taxa sobre os ganhos de capital. Ao mexer em casa de marimbondo, empinou os juros bancários, encareceu o custo dos empréstimos, encurralou o projeto de financiar o desenvolvimento econômico.

No entanto, mesmo com falhas, o Plano Real foi além. Sem pensar nas consequências, achou de congelar o patrimônio contábil dos bancos brasileiros. A solução para as instituições financeiras foi desviar a atenção sobre os empréstimos e praticamente se dedicar à negociação de serviços. A cobrança de tarifas foi excelente medida para as casas bancárias. Os balanços salpicaram receitas para os bancos, a cada balanço.

Outra pisada de bola do Plano foi usar a média de preços dos últimos três meses em URV-Unidade Real de Valor. A intenção era corrigir os preços na nova moeda criada, o Real. Mas, não se lembraram de ajustar os ativos e passivos dos ganhos e perdas com a inflação. O erro foi tão grosseiro que acabou desestabilizando os preços de maneira geral no país.

Como prevaleceu a ideia de que a moeda, no caso o Real devia ser forte, igual a cotação do dólar, o Brasil se requebrou, sem querer, com os juros nominais. Por esse pecado, então, o Brasil paga juros a mais no exterior.

O pior de tudo é o fato do Plano Real ter dominado a fera, a hiperinflação, mas não eliminou o monstro, a inflação persistente que, embora pequena, endoida o cabeção do brasileiro.

Pensando em dar o pulo do gato, em 1993, o governo tomou outras medidas agressivas.

O índice oficial da inflação em 2019 ficou em 4,31%, superando o índice da meta traçada pelo governo que era de 4,25%.

Um dos grandes defeitos do Plano Real foi não segurar o crescimento sustentado do país. Uma hora a economia cresce, noutra, entra em recessão profunda.

Os pontos fortes do Plano Real são notórios. Formalizou o mercado de trabalho, o país tornou-se credor FMI, antes era apenas devedor, abrandou a desigualdade social e, por enquanto, tornou-se um destino certo para os investimentos internacionais.

2 pensou em “DESEQUILÍBRIOS

  1. Iván el Terrible
    Traçando no papel o plano real que mostrou ao Brasil FHC.
    Por incrível que pareça o grande plano do governo Itamar ainda hoje não deixa o Brasil cair no abismo, apesar de viver de 2003 a 2018 sempre se equilibrando na borda…
    Abraço grande

    • Caro e Incontestável Sancho Pança está muito claro em todas as suas participações nesta corajosa gazeta que você não “perde o livro de lembranças”. Sempre ligadão, detona precisas opiniões sobre os mais diversos assuntos. Prova de sua competência literária. Gostei da excelente dica “de 2003 a 2018 sempre se equilibrando na borda” para complementar o foco do meu texto acima. Valeu, demais, cara. Aquele abraço.

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