MAGNOVALDO BEZERRA - EXCRESCÊNCIAS

A vida e a responsabilidade profissional nem sempre têm seu lado bonito ou divertido. Nossas decisões sempre são baseadas no que imaginamos ser a realidade dos fatos. Mas, na verdade, nunca sabemos o que se passa no coração das pessoas.

Em plena crise econômica da década de 1980, coroada com o tremendo erro que foi o Plano Cruzado do governo José Sarney, a economia brasileira entrou em colapso.

A empresa para a qual eu trabalhava em São Paulo resolveu demitir 10% de sua força de trabalho. Não havia outra opção. Entre as áreas sob responsabilidade direta de meu colega J. L. estava a Ferramentaria, com uma equipe de 10 excelentes profissionais. Já tinha havido um corte de pessoal anteriormente, e os 10 homens que ainda estavam trabalhando eram os melhores que restaram.

Bem, ordens são ordens, e meu amigo teve que demitir um deles – os 10% requeridos –, mas… quem?

Pediu minha opinião, já que eu era bem mais experiente que ele, para estabelecer um critério. Olhando a ficha de cada um, percebi que nove eram casados e um era solteiro e, portanto, foi este o escolhido para sair, já que, pelo menos, não tinha uma família para sustentar.

Pedro era seu nome. Um rapaz bem apessoado, mineiro, simpático, com seus 26 anos de idade, muito educado, trabalhador exemplar e tão competente como seus outros nove colegas. Era o mais jovem dos dez. Nada havia que desabonasse a sua reputação pessoal ou profissional.

Pedro foi chamado à sala de reuniões e o avisamos de sua dispensa. Foram explicadas as razões e também lhe foi entregue uma carta de recomendação com excelentes elogios ao seu desempenho profissional, o que certamente lhe ajudaria a encontrar uma boa colocação em futuro próximo.

Evidentemente ficou triste com a demissão, mas reconheceu a justeza do critério e deixou claro que não levaria nenhuma mágoa do tempo em que trabalhou na empresa. Entretanto, Pedro fez uma pergunta que nos deixou embaraçados:

– Vocês sabem porque sou solteiro?

– Não, mas seguramente essa foi uma opção pessoal exclusiva sua.

– Não é bem assim. Em verdade, não foram nem são poucas as moças que me desejam como marido. Não sou mulherengo, sou honesto e trabalhador, não bebo, não fumo, nunca usei drogas, não jogo, tenho um bom físico, uma boa saúde e uma excelente reputação como ser humano. Mas há algo que talvez vocês não saibam: meu pai é um alcoólatra, tem um comportamento deplorável, não gosta de trabalhar, e também ninguém lhe dá emprego devido ao seu mau caráter. Vivia pelas ruas e quando chegava bêbado em casa muitas vezes batia na minha mãe. Já foi preso duas vezes por violência doméstica. Minha mãe era costureira e com seu trabalho sustentou e conseguiu dar educação aos dois filhos, minha irmã e eu. Há pouco mais de um ano, em uma noite que voltou muito bêbado da rua, deu tanta pancada em minha mãe que ela teve alguns de seus dedos quebrados e com isso não pode mais costurar. Esse foi o motivo da sua segunda prisão, e está na cadeia até hoje. Minha irmã conseguiu terminar o curso técnico de desenho industrial e foi trabalhar numa construtora na região do ABC paulista. Um dia estava dentro do elevador de carga de um prédio em construção e o cabo do elevador se quebrou com o peso excessivo, despencando do sexto andar do prédio. Caiu junto com a carga e hoje vive em uma cadeira de rodas. Não me casei porque nunca restou tempo nem dinheiro para mim. Sou o único sustento delas. Sou mais casado que alguns de meus colegas. Entendo o critério de vocês e respeito sinceramente a decisão de me escolherem para a degola. Agradeço muito a carta de apresentação. Que Deus os abençoe.

Saiu da sala com a cabeça baixa e os olhos marejados.

Nunca mais tive notícias de Pedro.

9 pensou em “DEMISSÃO NA FERRAMENTARIA

  1. Querida Shirley, “A Inspiradora”:
    Pois eu afirmo e reafirmo a vossuncê que a história do Pedro até hoje marca minha mente. Felizmente não houve nenhum outro caso em que me tive como injusto. Certamente algo de errado já fiz na vida, mas nunca voluntariamente.
    Um grande abraço para você e seus queridos, desejando um par de meias quentinhas para esquentar os dedões dos pés.
    Bom final de semana.
    Magnovaldo

  2. Estimado Big Smile,

    São situações delicadas como essa que me fazem com que eu ame mais ainda meus semelhantes e, sempre que posso, os ajudo integralmente.

    Infelizmente a vida é madrasta para alguns, e a história comovente e tocante de Pedro não foge à regra!

    Mestre Magnovaldo, você rememorou um fato sem torná-lo melodramático. Verdadeiro roteiro de um filme realista.

    Parabéns pela narrativa.

    Abraçaço com ótimo final de semana.

    • Ciço, meu bom compadre: seus comentários são a mais pura realidade da vida.
      Obrigado pelos seus comentários. São eles que também me fazem sentir que não vivo na solidão da humanidade.
      Tenha um excelente final de semana junto aos seus queridos. Que Deus os abençoe a todos.
      Abração,
      Magnovaldo

  3. Decisão justa (critério utilizado foi correto), consequência prática injusta (por desconhecimento pontual do caso). Após o relato de Pedro, ficaria também, fosse eu protagonista do relato, com os olhos marejados.

    • É isso, meu gurú. Seu comentário é uma condensação do que muitas vezes nos brinda a vida. Até hoje a história do Pedro me toca. Tenho o sentimento de que fiz o melhor que pude, dentro das circunstâncias que eram de meu conhecimento.
      Tenha um excelente final de semana.
      Abraços,
      Magnovaldo

  4. Magnovaldo, gosto muito dos seus textos. Sempre cheios de humor e humanidade. Este, particularmente, nos lembra, mais uma vez, que não devemos comprar um livro pela capa, por mais atraente que ela seja. A realidade, para além da nossa percepção, sempre pode nos surpreender, como bem demonstrado no relato com que você nos brindou. Um abraço fraterno de um fubânico cabarelista como tu.

    .

    • Meu caro Brother Hélio:
      Agradeço de coração seus comentários. O que você afirma é a mais pura verdade, às vezes compramos o livro pela capa – e às vezes repetimos a dose. Também vale mostrar o outro lado da vida, não apenas o lado bom, divertido. Como sempre procurei sorrir até das dificuldades da vida, muita gente pensa que ela é formada apenas de coisas alegres, ou que somos uns eternos gozadores. Como dizia um professor que eu prezava muito, “quem vê as pingas que eu bebo não vê os tombos que levo”.
      Tenha um domingo cheio de paz e harmonia e uma nova semana com muita saúde e prosperidade.
      Um abraço,
      Magnovaldo

  5. Parabéns pela emocionante crônica, prezado Magnovaldo

    Esse caso deve ter lhe marcado para o resto da vida. Ainda bem que não teve um final trágico..

    Segundo o brocado latino “DURA LEX SED LEX” – a lei é dura, mas é a lei.. Infelizmente, a lei é fria, mas é a lei.

    Uma ótima semana!

  6. Pois é, Violante, musa das letras bonitas:
    Realmente a história de Pedro me marcou muito.
    Depois que saí daquela empresa somente procurei (e encontrei, graças a Deus) posições em que não tivesse subordinados. Inclusive, quando fui convidado a trabalhar nos Estados Unidos uma de minhas exigências era que não tivesse ninguém sob meu comando. Dessa maneira, trabalhei como consultor de Engenharia Industrial e, apesar de ter pessoas que me assessoravam, sempre fiz questão de que hierarquicamente não estivessem subordinados à minha pessoa.
    Grato pelo seu gentil comentário.
    Tenha uma semana maravilhosa junto aos seus queridos.
    Abraços,
    Magnovaldo

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