ADONIS OLIVEIRA - LÍNGUA FERINA

Pernambuco possuiu, ao longo de todo o século XIX, algo como 900 engenhos de açúcar produzindo.

Eram engenhos conhecidos com “Banguê”: primitivos e de baixíssima produtividade. Mesmo assim, representavam uma potência econômica descomunal quando comparado com as demais províncias do Brasil no 2º império. Foi essa potência que sustentou a imensa e inútil corte imperial durante todo século XIX. As transferências financeiras realizadas por Pernambuco para o Rio de Janeiro eram imensas e constantes, mesmo após a queda dramática verificada no preço do açúcar com a concorrência das Antilhas Holandesas. Hoje, só restou desse período a opulência das ruinas de belíssimas mansões, testemunhas mudas de um passado de riquezas que não volta mais. Na ausência da sustentação econômica dada pelo açúcar, seu processo de decadência foi inevitável.

Foi para fazer frente a esta decadência econômica que alguns Senhores de Engenho da região, extremamente insatisfeitos com os rumos dados à nação pelo Governo Imperial, sempre cobrando vorazmente altos impostos e levando imensas fortunas para serem usufruídas no sul do país, associados a lideranças militares nordestinas, também insatisfeitas com os rumos do império desde o retorno da Guerra do Paraguai, que se derrubou a monarquia e se proclamou a República. O sonho de Bernardo Vieira de Melo, em 1711, e dos revolucionários pernambucanos de 1817, 1822 e 1845 fora finalmente realizado em 1889.

A prova dessa associação insólita é a sucessão de marechais alagoanos no comando da nação, juntamente com o fato de um dos primeiros decretos do novo governo ter sido exatamente a autorização do aval da nação para o empréstimo a ser dado a um grupo de privilegiados senhores de engenho para a aquisição de modernos equipamentos açucareiros à centenária empresa francesa Fives Lille. Tal decreto foi assinado no dia 19 de novembro de 1889, juntamente com o decreto instituindo a nova bandeira da nossa nação. Por aí se tem a prioridade dada ao assunto pelo Marechal. Foram “Vitórias de Pirro”: O “Revival” das usinas e a República!

Com a implantação dos “Engenhos Centrais”, como eram conhecidas as modernas usinas de açúcar, deu-se um imenso salto de produtividade. As novas e modernas máquinas conseguiam extrair cerca de 65 Kg de açúcar por tonelada de cana, enquanto os modestos engenhos Banguê só retiravam cerca de 45 Kg. Era uma concorrência absolutamente desleal. Um a um, foram fechando todos os velhos engenhos. Cada uma das novas usinas passou a moer a cana que teria sido destinada a uns 20 engenhos mais antigos. Assim, dos antigos 900 engenhos existentes, só restaram umas 45 usinas. Todos os demais passaram a ser meros “Plantadores de Cana” e fornecedores da grande e moderna usina. Continuam todos em situação miserável e mendicante até hoje. Quanto às usinas, apenas uma meia dúzia delas sobrevive com dignidade até nossos dias.

Dessa época, ficou a saudade e os pungentes versos de Ascenso Ferreira:

Dos engenhos de minha terra
Só os nomes fazem sonhar:

– Esperança !
– Estrela d’Alva !
– Flôr do Bosque !
– Bom-Mirar !

Quanto à República, sabemos todos muito bem o desastre que sempre foi e que está sendo até hoje,

O mesmíssimo processo de decadência se deu com a indústria algodoeira de Pernambuco. Grande parte dos bairros de Recife tiveram seus inícios com as vilas dos operários construídas pelos grandes cotonifícios: José Rufino, Macaxeira, Torre, Capibaribe, Zumbi, Paulista, Tacaruna, Yolanda, etc…Cada um deles, todos devidamente extintos pela derrota na guerra biológica contra o “bicudo”, deu origem a um novo ajuntamento de miseráveis desta grande metrópole.

Se dermos uma volta pelo nosso país, muito especialmente pelos estados mais desenvolvidos economicamente, a lista de indústrias moribundas ou extintas seria enorme. O maior exemplo disso são as Indústrias Matarazzo, na Água Branca e Barra Funda, símbolo de tantas outras que fecharam as portas enquanto nosso país se afunda numa decadência econômica brutal. Nosso

PIB, que já chegou a ter mais de 40% oriundo das industrias, apresenta hoje fatia ao redor de 8%. Em lugar de nos integrarmos no grupo dos países desenvolvidos da OCDE, como sonha nosso Presidente, caminhamos aceleradamente para nos tornarmos uma porção transatlântica e setentrional da África subsaariana.

Mesmo que não sirva de consolo, situação semelhante vem sofrendo os Estados Unidos em alguns dos seus setores industriais outrora mais pujantes. O melhor exemplo disso é a produção de aço. A cidade de Pittsburgh, cidade onde eu morei e trabalhei, no final da década de noventa, foi durante mais de um século o grande centro de produção de aço nos EUA. A produção iniciou lá em 1875 e cresceu de forma explosiva. Só para dar uma ideia, as siderúrgicas da cidade contribuíram com 95 milhões de toneladas de aço para o esforço de guerra americano na segunda guerra mundial. No meio dos anos 80, a indústria de aço colapsou. Dos seus 90 mil trabalhadores de então, ao final de 4 anos só restavam 44 mil. Quando cheguei lá, em 1989, não restava mais nenhuma aciaria na cidade. O ar já estava completamente limpo e sem a poluição. Apenas na região em volta permaneceram remanescentes desta hecatombe, em parte provocada pela espetacular ascensão verificada na produção de aço brasileira na década de 70, época do milagre brasileiro. Depois, na ausência da liderança visionária e patriótica dos militares, ocasião em que passamos a ser governados por vermes vorazes, nossa produção de aço regrediu dos 60 milhões de toneladas anuais para o atual patamar de 30 milhões. Na mesma ocasião, a China, mesmo sem ter nenhum minério, cresceu sua produção para os atuais MAIS DE 300 MILHÕES DE TONELADAS ANUAIS, sempre utilizando o minério que nós lhes vendemos a preço ridículo.

Do fim do período militar até agora, apenas temos chafurdado num pântano de total degradação moral e ausência absoluta de liderança, período em que temos sido sucessivamente tosquiados por hordas sucessivas de ladravazes absolutamente sem nenhum escrúpulo e ficamos marcando passo no mesmo local, ou até mesmo piorando.

Enquanto isso, a China simplesmente EXPLODE de crescimento e nos deixa parecendo indigentes.

Só conseguirá avaliar nossa decadência relativa à China quem viajar extensivamente por lá. As megaconstruções surgem em todos os cantos, rapidamente e praticamente do nada. São as maiores pontes do mundo (Baia de Qindao, de Shenzen a Zhuhai, de Ningbo a Shanghai, etc.); são os maiores aeroportos do mundo (Terminal 3 de Beijing e, agora, mais um terminal, este o maior do mundo; Pudong e Hongqiao, em Xangai, Shenzen, Hong Kong, Guangzhou e mais dezenas de outros.); são as maiores e melhores autoestradas do mundo, formando uma malha viária assombrosamente moderna e, “Last but not the least”, uma malha ferroviária de Trens de Alta velocidade que faz inveja aos países mais modernos do mundo. Da primeira vez que estive na China, em 2007, o único trem de alta velocidade que eles possuíam era um pequeno trecho experimental. Saia do novo aeroporto internacional, em Xangai, que havia terminado de ser construído no “Lado Norte” (Pu dong – em chinês) do braço do rio Yang Tsé, até a estação de metrô de Long Yang Road. Long Yang foi uma antiga “princesa” que, segundo meu encabulado amigo chinês era “Lady Boy” (Traveco). O trecho todo tinha somente uns 10 quilômetros e era de graça. Construíram só para aprender a fazer. Hoje, a China possui entre 20 e 30 mil quilômetros de linhas férreas de altíssima velocidade. Caminha para ter algo como 50 mil quilômetros muito em breve. Quem chega mais perto é a Espanha. Possui algo como 2 mil quilômetros. Já são a nação de economia mais pujante e moderna do mundo. Os próximos séculos serão de total hegemonia chinesa. Seria bom aprender com eles, não sermos subjugados!

Quer entender?

Veja o vídeo Conheça a vida do ditador chinês Xi Jinping clicando aqui

Quanto ao Brasil, após o COVID-19, só nos restará uma melancólica decadência. Um lento deslizar rumo à total irrelevância mundial e a uma ampla miséria fartamente distribuída. Os esquerdistas terão cumprido sua missão:

“Ai que esta terra ainda vai cumprir seu ideal. Ainda vai tornar-se um império colonial! ” Chico Buarque

10 pensou em “DECADÊNCIA – Sic Transit Gloria Mundi

  1. Eu tenho dito que a China vai tomar o mundo em 30 ou 40 anos. O processo já começou na África e América central. Eles estão comprando todos os países pobres. Até o início do século passado os países expansionistas simplesmente atacavam outras nações, hoje o processo é mais silencioso, vão comendo pelas beiradas. É preocupante, prevejo um governo único para o planeta. Comunista e escravagista.

  2. Eu estranhava quando lia que os chineses se referiam ao seu país como sendo a nação do meio. Até ler o livro de Henri Kissinger “Sobre a China”. Os chineses consideram a China a nação do meio porque todo o resto é periferia. Napoleão Bonaparte já dizia que no dia em que a China despertasse, o mundo tremeria. E ela está saindo da letargia. Preparai-vos…

    • Ouvi uma história de um político ocidental que perguntou a um político chinês: “A China quer ser o país mais importante do mundo?”

      A resposta foi: “Não, a China que VOLTAR a ser o país mais importante do mundo.”

  3. Adônis, ao ler seu belo texto, lembrei-me de uma experiência que tive uns anos atrás.

    Eu fazia uns bicos, mais por gosto do que por dinheiro (um defeito meu), para um amigo que tinha uma empresa de manutenção de caldeiras. O serviço era para duas usinas de asfalto de uma empreiteira aqui de Curitiba que havia ganho as concorrências para asfaltar duas rodovias federais.

    Em uma delas, o chefe do setor de manutenção era um ex-funcionário (aposentado) da Vale, do tempo que era estatal.

    Era simplesmente cômico ver o sujeito xingando a empresa e comparando com a antiga estatal. A empreiteira consertava os caminhões da obra, imagine! Na Vale, caminhão com dois anos de uso era jogado fora e trocado por um novo. E o seu chefe, que queria justificativa para trocar uma peça de duzentos mil dólares que ainda estava funcionando? Na Vale não tinha isso, se o responsável achava que tinha que trocar, trocava-se, ninguém precisava ficar justificando despesa.

    Era o retrato perfeito de como nós jogamos fora todas nossas oportunidades. Tudo se transforma em cabide de emprego, burocracia e fábrica de mamatas.

    P.S. O tal chefe não durou muito, naturalmente. Não ajudou muito ele teimar em chamar os termômetros das caldeiras de “manômetro de temperatura”.

    • Caro Marcelo,

      Parece que até nisso somos parecidos.

      Minha vida profissional foi quase que toda fazendo inúmeras coisas que me davam enorme prazer mas, ao mesmo tempo, pouco remuneradas.

      Ao final da vida, posso encher a boca e dizer: Sou mais pobre que Jó e mais rico que Salomão! Sou riquíssimo de experiências fantásticas e não tenho onde cair morto, simplesmente porque nunca roubei e nunca me vendi.

      Agora, pra mim tudo é festa. ahahahahah

      Já acionei o botão do “FODA-SE” há muito tempo. Meu lazer agora é só esculhambar com essa multidão de ladravazes da política brasileira. Essa é a minha vingança.

      Serei eternamente grato ao Papa Berto pela oportunidade de espalhar o que me vai n´alma “URBI ET ORBE”.

  4. Meu caro professor, a China não é o exemplo de sucesso que gostaria de ver como parâmetro.
    Para começar, se estivéssemos na China, essa gazeta popular não existiria. Não teria o prazer de ler seus artigos, bem como debater livremente nossas ideias. Isso tem um enorme custo.
    A humanidade muda, as necessidades são outras, não só da indústria tradicional vivem as nações. As empresas morrem, pior é deixá-las vivas respirando por aparelhos que custam uma fortuna para o cidadão. Precisamos alimentar mais de 7 bilhões de pessoas que andam sobre a Terra e para isso o Brasil está tendo um papel importante. Estamos investindo naquilo que temos vocação e somos competitivos, agronegócio é o nome do jogo.
    O exemplo dos usineiros de açúcar é muito ruim, na República mamaram muito tempo nas tetas do Tesouro. Seguidas renegociações de dívidas a um custo enorme para os brasileiros. Morreram por não investirem em produtividade. Assim como foi o ciclo do café aqui no Rio de Janeiro. Os usineiros, os barões do café, ganharam muito, MUITO, com a mão de obra escrava e não investiram em aprendizado, maquinário, técnicas agrícolas. Não podem reclamar.
    Como sugere Marcelo Bertoluci, no seu comentário, não acho correto que os governos com sua ineficiência crônica, participem diretamente, como controladores de empresas ou indutores do investimento. Vejo que o governo ajuda quando atua como facilitador, organizando os interesses da sociedade. Acredito na competição, no mercado atuando livremente. Sei que você também pensa assim, mas hoje o texto tem uma carga de saudosismo compreensivo.
    O Milagre Brasileiro, não deixou nada de muito excepcional, apesar de todo esforço dos tecnocratas para implantar as bases do crescimento estável. Deixaram muitas dívidas, empresas ineficientes, construções inúteis e o pior de tudo, um povo mal instruído. Falharam no hardware e no software. É engraçado com a história se repete. Os militares escolheram os Bardela, Vidigal, Villares para serem os vencedores, os petistas também escolheram seus campeões nacionais, Batistas (Joesley, Eike).
    O que me preocupa nesse novo modo do capitalismo é o gigantismo das corporações. Em nome do ganho de escala e eficiência, empresas se juntam, são compradas e acabam formando corporações gigantes, em muitos casos replicando parte da ineficiência do estado. E o pior, criando as armadilhas de não poderem quebrar, por acarretar problemas no sistema de abastecimento e financiamento. Companhias “too big to fail”.
    O mundo ideal é inatingível. A liberdade da democracia é o melhor modelo conhecido e testado.

    • Prezado Carlos Eduardo,

      Muito obrigado por suas judiciosas considerações a respeito de minhas mal traçadas linhas.

      Concordo integralmente com suas ponderações, mesmo ficando ainda em dúvida com relação a uma série de pontos por ti abordados. Por exemplo: Bertrand Russel afirmou categoricamente que “a humanidade nunca conseguiu conciliar liberdades individuais com progresso econômico”.
      Concordo!
      A China tem esse desenvolvimento econômico vertiginoso porque é comandada com mão de ferro. Nós chafurdamos na lama, porque são montanhas de imbecis dando pitacos em coisas que não entendem bulhufas, cada um querendo ir em uma direção diferente.
      A quantidade de palpiteiros que aparece em qualquer discussão, dando as ideias mais imbecis que se possa imaginar, é impressionante. Não será dessa forma que conseguiremos ir a canto nenhum.
      Por outro lado, viver submetido à mão de ferro do Estado realmente é de lascar.

      Qual a solução? Sinceramente, não sei!

      Aristóteles falou que o ideal seria um “Ditador Filósofo”. Não vi ainda um ditador que fosse filósofo. São todos truculentos e trogloditas.

      Já a democracia, tem sido corroída por dentro, através das ações de canalhas demagogos, inescrupulosos e vorazes como Hugo Chaves, Lula, e uma penca de outros. Se Bolsonaro botar pra lascar na multidão de hienas e chacais comandados por Rodrigo Maia, a peimeira coisa que vão falar é que ele não é democrata. Pois eu acho que as sociedades liberais devem ser ABSOLUTAMENTE RIGOROSAS em enquadrar e punir a aqueles que se aproveitam da democracia para destruí-la.

  5. “A China tem esse desenvolvimento econômico vertiginoso porque é comandada com mão de ferro. Nós chafurdamos na lama, porque são montanhas de imbecis dando pitacos em coisas que não entendem bulhufas”
    Professor, vamos raciocinar juntos. Por que a União Soviética quebrou? Tinham tudo para o sucesso segundo Bertrand Russel e Aristóteles. Fico com o que disse Churchil:
    “Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos.”

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