MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

A edição de ontem da Besta Fubana publicou um artigo do Guzzo contando que as escolas brasileiras completaram 200 dias fechadas, e tem gente querendo mais. O senso comum diz que isso é um absurdo, não discordo, mas acho que pode ser uma oportunidade para irmos um pouco mais fundo no assunto.

O Brasil, embora seja um dos países que mais gastam com educação, e com intenções de gastar mais, está cada vez pior em tudo que diz respeito ao assunto. Quem quiser pode pegar os números de estudos internacionais como o PISA. Quem preferir, basta assistir à TV ou ler as mensagens do facebook para constatar que o brasileiro médio é incapaz de acertar uma concordância, ignora mais da metade das conjugações verbais e não consegue compreender frases com construção mais complexa que o básico sujeito-verbo-predicado (orações subordinadas, nem pensar). Então é o caso de se perguntar: escola para quê?

Alguns dos problemas de nosso sistema de ensino são óbvios: gasta-se mais com três milhões de alunos de universidade do que com quarenta milhões de alunos do ensino fundamental; os burocratas de Brasília insistem em controlar e regulamentar cada detalhe das milhares de escolas pelo país; a família é vista como inimiga e não como parceira indispensável do processo de educar uma criança.

Vou fazer uma pausa para mostrar um exemplo da vida real, relatado pela minha querida ex-funcionária Cida: Ela foi chamada um dia para uma conversa na escola municipal onde seu filho, na faixa dos dez anos, estudava. A coitada ficou uma meia hora ouvindo a diretora e a pedagoga da escola discursarem sobre os “direitos” de seu filho, a importância de respeitar sua “individualidade” e sua “privacidade” e suas “escolhas” e estimular a “tolerância”, a “diversidade” e a “inclusão”, evitando atitudes “repressivas” ou “opressivas” que blá, blá, blá, blá, blá. Quando elas deram uma pausa, Cida se levantou e disse: “Bom, já que vocês sabem melhor que eu como criar meu filho, eu acho melhor deixar ele morando aqui. Me dêem um minutinho que eu vou lá em casa buscar as coisas dele e já volto.” E enquanto falava, já foi levantando da cadeira e saindo. A diretora e a pedagoga correram atrás, aos pedidos de “Calma, dona Aparecida, não é bem assim”, mas só conseguiram parar a Cida já na calçada do lado de fora da escola. Aí ela virou para as duas e disse: “Então eu posso criar o MEU filho do MEU jeito? Vocês deixam? Então ficamos assim: vocês ensinam ele a ler, escrever e fazer conta, que eu ensino ele a ser uma pessoa honesta e trabalhadora. Estamos conversados.”

Claro que seria muito melhor escutar a história do jeito que a Cida me contou do que ler essa transcrição que meu parco talento produziu, mas vocês entenderam o básico: a escola de hoje quer ensinar aos pais como criar seus filhos. Aliás, os burocratas da educação brasileira mal disfarçam que no mundo com que eles sonham, crianças só iriam para casa para dormir. O mantra básico de todos eles é “mais verba!”, e entre as justificativas, sobressaem duas: as crianças devem ir para a escola cada vez mais jovens, e ficar lá cada vez mais tempo. Para quê? Para ensinar é que não é: o mundo acadêmico concorda que crianças com menos de sete anos são incapazes de raciocínios abstratos, o que torna impossível ensinar matemática, ciências ou mesmo gramática. Algumas crianças aprendem a ler aos quatro ou cinco anos, mas a capacidade de compreender e interpretar o que lêem demora mais.

Por outro lado, na hora de impôr modelos de comportamento, quanto mais cedo melhor. Frequentando creches desde alguns poucos meses de idade, ao chegar ao ensino fundamental as crianças já estão perfeitamente condicionadas a não ter individualidade, a se comportar como membros de um grupo homogêneo em que todos agem e pensam da mesma forma, e obedecem sem questionar a todos os rituais estabelecidos: fila para entrar, fila para sair, hora para comer, hora para brincar, hora para ir ao banheiro, sempre submissos e inofensivos.

Costuma-se falar da escola contrapondo os conceitos de “educar” e “ensinar”. Na minha opinião, o que a escola brasileira faz é ADESTRAR, de forma muito parecida com o que se faz com cachorros e cavalos. A razão de ser de todo o sistema é impôr a todos um padrão de comportamento que atenda ao politicamente correto, desestimule o pensamento crítico e, acima de tudo, produza pessoas dóceis, obedientes e dependentes do governo. Escolas e universidades não são lugar para pensar: são lugares para repetir incessantemente o comportamento esperado. No adestramento canino, as ordens são “Junto”, “Senta”, “Deita”. Para os alunos, “Decore”, “Repita”, “Copie”. Como prêmio, ao invés de um biscoitinho, ganha-se um diploma.

O problema é que já estamos pelo menos na terceira geração formada por esse modelo. O pai que frequentou durante anos uma escola que não ensinou nada, apenas exigiu que ele cumprisse o ritual de ficar X horas sentado na cadeira para acumular N créditos e conseguir um diploma, não vai se preocupar se seu filho está aprendendo ou não: ele vai aconselhar o filho a seguir o mesmo caminho e não reclamar.

E como o “dinheiro da educação” no Brasil é coisa de centenas de bilhões de reais por ano, há muita gente que tem todo o interesse do mundo em manter a coisa desse jeito. Já imaginaram se todo mundo descobre que um jovem motivado pode aprender mais com um tablet ligado à internet do que com o professor funcionário público que dá a mesma aula faz vinte anos? Então aparece todo tipo de apelação e mentira para manter a farsa do jeito que está.

Quando se chega nesse ponto, os supostos argumentos não passam de clichês incoerentes, que não resistem a alguns segundos de raciocínio. Exemplo: Quando se quer elogiar a “democracia” (democracia no Brasil só existe entre aspas), a vontade do povo é soberana e cada eleitor é um cidadão modelo, portador das maiores virtudes e com uma perfeita noção de certo e errado. Na hora de falar da escola, aí o governo é necessário para garantir a vida das pobres criancinhas, porque os pais e mães brasileiros (os mesmos que são eleitores tão conscientes) são completamente incapazes de cuidar de seus filhos, e se pudessem os venderiam como escravos para carvoarias ou como matéria-prima para fabricas de salsicha. Da mesma forma, em um momento o brasileiro é trabalhador, é criativo, e se esforça para viver com dignidade, mas no momento seguinte a escola do governo é indispensável porque sem a merenda as crianças do país não teriam sequer um pão velho para comer em casa.

Afinal, somos uma potência mundial ou um país miserável? Afinal, somos um país que erradicou a pobreza ou um país em que as famílias não têm o que comer? Para muita gente, somos as duas coisas alternadamente, conforme a conveniência do momento. Não é com argumentos assim que vamos encontrar uma solução. Aliás, “solução”, no singular, talvez nem exista. O que existem são pequenas mudanças que podem ir se acumulando, até criar uma realidade diferente da que temos hoje. Encerro com algumas idéias soltas sobre algumas possíveis mudanças:

– Não sei como é o currículo do primário hoje, mas eu estudei o nome de todos os ossos e músculos do corpo humano (esternocleidomastóideo!), as características fisiológicas dos platelmintos, nematelmintos e moluscos e as diferenças entre plantas dicotiledôneas e monocotiledôneas. Como eu me formei em eletrônica e fui trabalhar com computadores, tudo isso foi tempo perdido. Nada contra a cultura geral, mas será que biologia, física e química não poderiam ficar para um segundo grau segmentado, como existia antigamente? (Alguns cursavam o “científico”, outros o “clássico”)

– Por outro lado, que tal algumas noções de economia, para o jovem entender como funciona o mundo “dos adultos”, incluindo matemática financeira?

– História e Geografia no meu primeiro grau consistiam simplesmente em decorar nomes e datas. De novo, que tal deixar para uma idade em que o aluno já possa compreender coisas mais complexas, como por exemplo saber que a história é escrita pelos vencedores e deve ser lida com uma pitada de ceticismo?

– Seja com o nome de Filosofia ou Sociologia, seja como Educação Moral e Cívica, doutrinação sempre vai existir. Quase todo adulto é a favor desde que a doutrinação seja do lado que ele acha certo. Aliás, a palavra “doutrinação” parece meio pejorativa, então fica só para as que ele não gosta.

– No mundo conectado de hoje, estudar a sério pelo menos duas línguas estrangeiras é fundamental. Mas é para ser sério, não para ficar um ano inteiro ensinando o verbo To Be.

– Crianças precisam aprender o mais rápido possível a ler e a interpretar o que leram. Depois disso, o resto fica fácil. Mas na escola, corre-se para enfiar goela abaixo a maior variedade possível de conteúdos sem que o aluno esteja pronto para digerí-los. O resultado é indigestão.

– Para encerrar com um toque de polêmica, o currículo escolar dos meus sonhos: dos seis aos dez anos, matemática básica (aritmética e lógica), um pouco de gramática, um pouco de artes e muita interpretação de texto, em português e mais uma ou duas línguas. Dos onze aos treze, um pouco mais de matemática (álgebra, geometria e matemática financeira), um pouco mais de gramática e artes, e muita interpretação e produção de textos (conhecida como redação). Aos quatorze e quinze, história e geografia juntas, mas feito para ser entendido, não decorado. E dos dezesseis aos dezoito, uma espécie de pré-faculdade já segmentada por áreas: ciências exatas, ciências biológicas, ciências sociais (sobre o ensino superior, fica para outro pitaco).

2 pensou em “DATA VENIA, GUZZO

  1. Parabéns pelo ótimo texto!!

    Descobri, no último fim de semana, que até o conceito de “meritocracia” foi distorcido. Estudantes, filhos de um grande amigo, ela na faculdade (trancada) de Psicologia, ele, estudante de Agronomia, ambos em faculdades estaduais. Fiquei “bege”…
    Conceitos vazios, lutas de classe, politicamente correto, nada que se aproveite no mundo real. É assombroso!!
    Estão “educando” mais uma geração de idiotas!!

  2. Lamentável o que se faz na escola. Em 1986, numa reunião de pais e mestres, a diretora da escola ficou puta comigo. Ele fez um discurso estupendo enaltecendo a escola pública. Franqueada a palavra eu perguntei: ‘ Rosa, onde estudam seus filhos?”. Ela me olhou séria e eu insisti pra que ela dissesse o nome da escola. Fiz meu discurso dizendo que nenhum professor da escola tinga filho estudando em escola pública. Eram 5 aulas de matemática por semana e propus aos professores a gente ensinar álgebra em três e as duas ensina geometria. Ninguém topou. Porque não sabiam geometria.

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