PERCIVAL PUGGINA

Não há como observar os derradeiros movimentos do ministro Celso de Mello desde sua cadeira no Supremo Tribunal Federal sem evocar o Cavaleiro da Triste Figura, apelido com que Sancho Pança definiu seu líder e senhor, D. Quixote de La Mancha, em combate sem trégua aos exércitos de Alifanfarrão.

O ministro assistiu ao vídeo de certa reunião do ministério e julgou ver campos de concentração, experiências genéticas, sangrentas ditaduras e conspirações articuladas na misteriosa língua de bruxaria da Escola de Hogwarts, que ele provavelmente aprendeu de Harry Potter. Começou ali e não parou mais. Pacíficas manifestações de rua eram ações da Schutzstaffel (tropa paramilitar de proteção a Hitler); a Polícia Federal, a própria Gestapo… O ministro, coração cívico em chamas, vestiu a couraça de D. Quixote, brandiu a caneta como se fosse uma lança das antigas liças medievais e avançou. A cada dia, sua estocada.

Simetricamente, começava ali, também, sua retirada de cena no Poder Judiciário brasileiro, onde entrou ainda jovem pelas mãos de seu amigo José Ribamar, da nobre estirpe maranhense dos Sarney, que recebera a presidência da República por herança na morte do titular Tancredo Neves, de cuja chapa figurava como vice-presidente.

Tudo indica que o ápice de deslumbramento para os derradeiros embates veio, mesmo, da reunião ministerial do dia 22 de abril. Ali, à semelhança do fidalgo espanhol, quis o ministro que todos vissem o que ele vira, do modo como vira e iniciassem uma guerra sem tréguas. Desde então, enquanto o apoio popular ao presidente andava no sentido oposto e crescia na bolsa política, subia de tom a indignação do ministro. Diante dele, envoltos em togas e disponíveis ao loquaz fidalgo, dito decano, dez versões togadas de Sancho Pança eram instadas a salvar a humanidade e a vida no planeta das ameaças representadas pelas perigosas hostes de Alifanfarrão.

O capítulo se encerrará numa noite de novembro, ante algum ignoto seguidor que, entre bocejos, implorará por silêncio ao arrojado amo, pois sua eloquência se perde na praça entre pirilampos que prenunciam o verão.

4 pensou em “D. QUIXOTE DE TOGA

  1. Como já escrevi antes, tudo denota à demência senil do elemento decano de pretório excelso. A proximidade da perda de poder e bajulação mexe com os miolos.

  2. O velhote,”juiz de merda”de acordo com SAULO RAMOS, coleguinha de josé dirceu sai do supremo tão merda como entrou. Voto decisivo contra formacão de quadrilha do mensalaão e também dos embargos infringentes.. Em sintese, apenas um hominho.

  3. Recorro ao próprio autor (gran finale, señor Puggina), pois chegou a hora de dizer adeus: O capítulo se encerrará numa noite de novembro, ante algum ignoto seguidor que, entre bocejos, implorará por silêncio ao arrojado amo, pois sua eloquência se perde na praça entre pirilampos que prenunciam o verão.

    Dez versões togadas de Sancho Pança? Gostamos mesmo é de uma outra versão sanchiana, uma que bate ponto no JBF e que não pertence à lavra de Cervantes…

  4. Infelizmente os tempos em que vivemos e os crápulas que o administram ainda têm cerca de dois meses para manobras as mais diversas, procurando evitar o desfecho normal que toda a nação brasileira espera.
    Como agem como serpentes ou morcegos vampiros – na calada da noite, temos de ter consciência de que ainda surgirão propostas as mais estapafúrdias, como se divulgou recentemente que o Maia “Botafogo” sugeriu que se adiassem as aposentadorias em geral, por 2 anos,, como medida de contenção de despesas e recuperação econômica.
    Isto e outras do mesmo jaez que podem surgir nos mostra que não podemos baixar a guarda.

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