A PALAVRA DO EDITOR

A demissão do presidente da Petrobras passou sem fazer muito barulho; aconteceu bem no meio da baderna judicial e legislativa em torno da prisão do deputado Daniel Silveira, e ninguém chegou a prestar muita atenção.

Ficou parecendo, até, que o governo aproveitou a gritaria e se livrou não do problema real que tem diante de si com os preços dos combustíveis, e sim do homem que o presidente Jair Bolsonaro escolheu como o culpado de tudo. Nada como um bom bode expiatório quando você não sabe resolver uma dificuldade e quer dar ao povo a impressão de que está “fazendo alguma coisa”.

A troca na Petrobras é um desastre não apenas porque a administração pública perde o excelente trabalho que vinha sendo feito há dois anos pelo presidente demitido, Roberto Castello Branco. Pior ainda que isso, a decisão mostra que o governo abandonou as motivações técnicas e decidiu fazer política com o preço do diesel e da gasolina.

Bolsonaro acha que o preço dos combustíveis é fruto de desejos da diretoria da Petrobras, e não das variações do mercado internacional de petróleo; também parece achar que a política energética do Brasil deve ser feita pelos caminhoneiros. Não se pode esperar nada de bom disso aí.

O episódio comprova, mais uma vez, uma doença sem cura dos governos brasileiros: a incapacidade de aceitar as realidades econômicas quando se trata de combustível, e o uso dos preços para turbinar a sua popularidade nas pesquisas de opinião. O preço do tanque é um desses problemas que todo mundo percebe na hora, sobretudo os motoristas de caminhão. O poder público, incapaz de aguentar o tranco e assumir as responsabilidades que lhe cabem, fica imediatamente nervoso quando o custo aumenta – e corre para “baixar o preço”.

O governo, o mundo político e o resto da turma que manda agem, com hipocrisia histórica, como se a Petrobras fosse a única responsável pelo preço dos combustíveis. O monopólio da estatal é um atraso de vida, sem dúvida, mas na hora de encarar o problema ninguém diz – embora todos saibam muito bem – que o preço mostrado na bomba de diesel ou de gasolina é apenas a consequência matemática dos impostos de agiota cobrados do cidadão quando ele abastece seu carro, caminhão ou moto.

Ao todo, a cada real pago pelo consumidor, cerca de 45% vão direto para o bolso dos governos na forma de impostos de várias naturezas – sem esse dinheiro todo, como pagar a lagosta dos ministros do STF, os planos médicos das estatais e os salários de sultão do altíssimo funcionalismo público?

O governo nem sonha em diminuir os impostos sobre a gasolina, como não sonha em diminuir os impostos da conta de luz ou do celular – são coisas das quais o cidadão não tem como fugir, e nada deixa o poder público tão feliz quanto ver o cidadão indefeso diante de um imposto. Mesmo que sonhasse em fazer alguma coisa, estaria apenas perdendo seu tempo: o Supremo, o Congresso, a OAB e o resto jamais permitiriam que “o Estado” brasileiro recebesse um tostão a menos, porque jamais aceitariam reduzir um tostão daquilo que gastam.

Resultado: passam a conta para a Petrobras e põem na rua o presidente.

8 pensou em “CULPA PELO PREÇO ELEVADO DOS COMBUSTÍVEIS NÃO É SÓ DA PETROBRAS

  1. O problema é o monopólio da Petrobrás com acesso aos cofres públicos. Abvran o mercado para a concorrência que os problemas desaparecerão .

  2. A Petrobras é um caso de nepotismo sindical, uma cadeia de distribuição atrelada a grupos sindicais, um custo administrativo altíssimo em relação a área produtiva, Castelo Branco administrou o escopo econômico da empresa, remodelou a dívida suavemente para os próximos anos, chegou a hora da operação cosmética, a remodelagem administrativa. Porque a mídia está berrando tão alto ??? Comprem ações da Petrobras !

  3. J. R. Guzzo abriu um olho. De repente, o outro se abrirá. Ou não.
    Pelo texto, o autor faz uma ligeira descoberta das ocultas tendências de Jair M|essias Bolsonaro; e certamente está no caminho de abrir os olhos para a indigência mental e moral de nosso presidente da república.
    Mas… ao final se perde um pouco em seu artigo, ao fixar-se em coisas de pouca consistência: como se a manutenção dos altos impostos fosse responsabilidade do Congresso, para manter supersalários e planos médicos das estatais, da OAB, para sei lá o quê, do STF, para comer lagosta… oras, oras, oras, Guzzo sabe muito bem que os altos impostos servem para manter toda a estrutura do , que é muito mais que isso, é a educação, é a saúde, são os investimentos em obras, infraestrutura e, quando se fala de remuneração dos servidores, supersalários não podem ser supersalários, porque por mais que o servidor acumule vantagens em trinta, trinta e cinco, quarenta anos de atividade, sua remiuneração está limitada constitucionalmente, sendo que a quase totalidade dos servidores públicos é composta dos que recebem remuneração bem mais baixa, por vezes na faixa do salário mínimo.
    Muitos países cobram impostos mais elevados do que os nossos, não sei se o STF de lá come lagosta, se as estatais têm plano de saúde, se os servidores públicos ganham bem ou mal, se os caminhoneiros fazem greve ou se os presidentes são tapados:
    01 – Dinamarca, 45,2% do PIB
    02 – Finlândia, 44%
    03 – Bélgica, 43,2%
    04 – França, 43%
    05 – Itália, 42,6%
    06 – Suécia – 42,8%;
    07 – Áustria – 42,5%;
    88 – Noruega – 40,8%;
    09 – Luxemburgo – 39,3%;
    10 – Hungria – 38,9%;
    11 – Eslovênia – 36,8%;
    12 – Alemanha – 36,7%;
    13 – Islândia – 35,5%.
    14 – Brasil, 35,4%

  4. Guzzo a Petrobrás é um antro de servidores privilegiados com altíssimos salários e exorbitantes benesses adicionais.
    Se comparada com a Shell, Exxon, British Petroleum, Total, etc. existe uma defasagem brutal no faturamento por funcionário em desfavor da Petrobrás. Além do mais, hoje a Petrobras tem mais de 20.000 funcionários que o General Joaquim Silva Oliva irá passar a régua.
    Aquele FEUDO é algo indescritível. O STF fica longe.

  5. Lendo esta crônica dois ou mais dias depois chega doer a barriga. No primeiro dia uma penca de fantasmas e sanguessugas já ganharam o bilhete azul. Politica econômica externa. Se o volume de petróleo q aqui entra eh da ordem de 20% (minoria) pq o preço eh atrelado ao dólar como se fossemos dependentes deste? Então só posso dizer: Senta o relho, presidente!!!!

  6. Então tenho uma crise enorme em minhas mãos, com o diesel pressionando os caminhoneiros do país,
    tornando essa atividade crucial inviável e contaminando toda a escala de preços e abastecimento e a pessoa de minha confiança que está no comando do monopólio do produto declara: Não tenho nada a ver com caminhoneiros. O que devo fazer? O cara é bom, tem apresentado resultados ótimos, mas na hora que preciso que fique calado ele resolve me deixar sozinho? O que devo fazer? Devo perguntar a ele o que devo dizer nessas horas? Ou devo mandar ele ir cagar no mato? Meu Deus, estou perdido, não sei o que fazer. Chupicláudia, ligue para o Temer.
    Olha, vou te contar viu…..

  7. Guzo, é um prazer ler suas crônicas, sua serenidade, sua sensatez no que escreve, mas neste tema tenho a impressão de que você derrapou e bateu no guard-rail. O mandato do homem vence no final do mês que vem, ele é um técnico gabaritadíssimo, mas o Bolsonaro resolveu trocá-lo, e a manada do mercado, eu inclusive, histericamente, num primeiro momento reclamei e desconfiei do homem, hoje, dois ou três dias depois, as ações voltam a subir e tá tudo normal. O que não pode é querer atrelar e focar em resultados e matar a galinha dos ovos de ouro. Ele apresentou números grandiloquentes, recuperou credibilidade, mas as coisas estão indo para um lado que beira a falta de controle total. Salvar uma estatal e ferrar com a nação, no meu ponto de vista, não convêm.

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